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Um antigo provérbio chinês fala que na natureza há um momento próprio para cada ser. Também fala que não há desperdício de energia na vida e que, se estivermos atentos, poderemos nos alinhar com o fluxo da vida e viver continuamente esse momento. De fato, nos parece inegável que a passagem do tempo tenha um ritmo natural, pois nenhum dia é maior que o outro; e que sempre haverá o tempo da plantação e o tempo da colheita. Apesar disso, uma das nossas grandes falhas está em não compreender essa lei e tentarmos impor à vida o nosso próprio ritmo.

Mas o ritmo da vida, do tempo e do cosmos não é o do nosso desejo. Em um mundo cada vez mais acelerado, em que tudo deve ser dinâmico, ágil, estando em todos os lugares simultaneamente, não sobra espaço para enxergarmos a beleza e a justiça da própria vida. Criamos, quase inconscientemente, uma forma artificial de vida que quase nada se assemelha ao que de fato existe, e isso, não por acaso, tem gerado uma série de problemas físicos, psicológicos e espirituais nos indivíduos. Cada vez mais nos sentimos exaustos, depressivos e descrentes de qualquer aspecto transcendente. Ao contrário, à medida que o tempo passa e vamos nos adaptando a esse modelo de vida social, acabamos aceitando o senso comum e entendendo que esse é o ritmo “normal” da vida humana.

Basta, porém, olharmos para a natureza e perceber seus processos. Devemos notar que há, dentro desse caminho harmônico, momentos de tensão e relaxamento, de ritmo e contrarritmo. Há dias em que o sol brilha forte no céu, como em um ensolarado dia de verão, e há outros dias em que as nuvens bloqueiam completamente a visão do astro-rei. Nesse último caso, o sol continua nos iluminando, mas agora o palco da natureza é da chuva e das nuvens, que derramam suas águas e banham o solo, as florestas, os rios e a todos nós. Graças a isso, as sementes recebem seus nutrientes e podem crescer, até que um dia, depois de algumas centenas de vezes nesse mesmo processo, ela se torne uma árvore frondosa e gere seus frutos.

Diante disso, devemos nos perguntar: por que vivemos em um tempo tão desconexo da natureza? O que nos levou até esse ponto de artificialidade, em que desejamos inclusive alterar o próprio tempo natural para que nossos desejos sejam atendidos?

Podemos passar dezenas de páginas refletindo sobre os motivos histórico-político-sociais que nos levaram até esse momento. Porém, de nada adiantaria conhecer todos esses argumentos se não produzirmos em nós mesmos uma nova forma de vida, uma percepção natural desse tempo. Dito isso, não são poucas as frases ou ensinamentos sobre o tempo, pois em diferentes doutrinas encontramos reflexões sobre esse valioso mistério que escorre pelas nossas mãos a cada segundo. Uma das mais marcantes passagens sobre o tempo pode ser encontrada na Bíblia, em Eclesiastes 3:

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz”.

Que lição devemos tirar disso? Da mesma forma que devemos assumir responsabilidade pelo que acontece com nossas vidas, devemos também entender que nada acontece fora do tempo certo.

O tempo é muito mais que os segundos que conseguimos contar, os dias que vivemos e os anos que completamos. Pensamos, em geral, no tempo como um relógio que marca apenas suas medidas, mas o tempo é um verdadeiro mestre. E como todo mestre, ele não desiste de nós, mas segue seu ritmo justo.

Não é o tempo que nos dá consciência, pois se assim o fosse, assumiríamos que todo e qualquer idoso seria um sábio, o que não é verdade. Assim, o tempo a todo momento busca nos ensinar, mas será que estamos abertos para aprender? Muitas vezes, vivemos de forma tão automática que o tempo “passa” e não nos damos conta de que um dia não mais o teremos em abundância.

Sobre isso, Sêneca, filósofo romano do século I d.C. escreveu alguns textos sobre o tempo. Em um deles, talvez o mais famoso em nossos tempos, o romano nos fala que a vida não é nem longa e nem curta demais, porém, sentimos que ela passa rapidamente e assim se torna breve. Tal como a água que escorre de nossas mãos, desperdiçamos o nosso tempo com assuntos que, de fato, nada nos acrescenta. Desse modo, na ânsia de aproveitar ao máximo o tempo que nos resta, acabamos nos entregando a desejos e formas que apenas sugam nossa energia e nada colhemos dessas experiências. Seria como, de forma análoga, plantarmos nossas melhores sementes em um solo infértil e, atônitos, não entendermos a razão pela qual aquilo que plantamos não germina.

Devemos usar o tempo com sabedoria e entender que ele é o maior professor que podemos ter. Como um bom mestre, ele nos acompanha desde que fomos fecundados até o nosso último suspiro e sempre, sem exceção, nos mostra nossas limitações. Se estivermos comprometidos com a vida, perceberemos o quão valioso é cada segundo, pois todos os momentos se tornam únicos e nos geram uma oportunidade de transformação.

Precisamos, contudo, ter sabedoria e respeitar o tempo de todos. Isso porque nós não nascemos sabendo tudo e sequer temos capacidade de assimilar todas as informações que recebemos ao longo da vida, principalmente em nossos primeiros anos. Assim como citamos no parágrafo anterior, é o tempo que vai nos aprimorando. Logo, não podemos querer que uma criança tenha o mesmo discernimento e conhecimento que os adultos, assim como não se pode exigir de um idoso que ele tenha a mesma disposição e energia de uma criança. Hoje em dia, no entanto, nossa cultura não permite que as crianças vivam a sua infância e desenvolve uma não aceitação da velhice nos idosos, como se a juventude fosse a única fase da vida que tem valor. Apesar disso, é essencial entender que na Natureza não existe nada por acaso. Há uma Beleza e um propósito para cada idade, por isso, desde que saibamos respeitá-las, podemos sempre aprender e ser felizes em cada uma delas.

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