Você provavelmente já ouviu falar de Giordano Bruno, o grande filósofo do século XVI que foi queimado em praça pública por defender suas ideias. Porém, poucas pessoas conhecem a importância desse grande pensador para a História Ocidental. Apesar de ter sido preso e morto como um herege, nos dias atuais a figura de Giordano Bruno representa não apenas o valor da razão sobre a crença, mas principalmente a necessidade de viver em busca da verdade. Hoje conheceremos, portanto, um pouco mais sobre esse filósofo, artista e cientista do Renascimento. 

Conhecer a história desse mártir não é apenas conhecer a história de um homem, mas também compreender, a partir do seu exemplo, a capacidade humana de superar a si mesmo, de buscar e Amar a Verdade, de ser Leal aos seus Valores e de iluminar, através da vivência de Virtudes, todos os demais. A história de Giordano Bruno começa em Nola, uma pequena cidade próxima de Nápoles, em 1548. Batizado como Filippo Bruno, seus pais eram modestos camponeses, e sua ascensão até o clero foi um feito marcante para a época, quando grande parte dos padres e monges tinha prestígio e nascia na nobreza. Para alguns historiadores, o fato de Giordano Bruno não ter uma família com posses ou influência política foi um dos principais motivos para que este tenha sido sentenciado à morte pela Inquisição; porém, as causas que levaram esse monge à fogueira são mais relevantes do que os motivos pelos quais ele não foi poupado da morte prematura.

O grande valor de Giordano Bruno foi a sua contribuição para o pensamento filosófico retornar ao mundo ocidental, que em pleno século XVI ainda sofria com as mazelas provocadas pelos mil anos que a Europa havia passado na chamada “Idade das trevas”. Sabemos que o conhecimento naquela época estava restrito à Igreja, logo, uma das formas mais convenientes de se adquirir um pouco de sabedoria seria através do caminho religioso. Não por acaso, as primeiras universidades europeias foram fundadas pelo clero, como uma forma de sistematizar o pensamento em prol do argumento religioso e, com o tempo, novas gerações de pessoas ligadas ao mundo “comum” foram tendo acesso a esse tipo de saber. 

O caso de Giordano, porém, não foi esse. Apesar das universidades já serem uma realidade há séculos, Giordano Bruno conseguiu acessar parte de sua sabedoria através da vida religiosa. Ele foi um dos pensadores que se fizeram notar através do pensamento revolucionário e das ideias que iam de encontro com o dogma cristão da época. Além disso, sua verdadeira cruzada estava em, através dos resgate dos Valores Humanos, ajudar o Renascimento Cultural da Europa Medieval. Uma de suas frases mais marcantes versa sobre o poder interno que todo Ser Humano possui: o poder de buscar o conhecimento e de se tornar filósofo.

“Todo homem possui um filósofo dentro de si, para fazê-lo viver é necessária a presença do amor heroico, dessa força infinita que provém do uno, e que permite ao homem suportar dores, transformar o mundo, concretizar seus ideais.”

 Giordano Bruno

Estudioso das tradições da humanidade, Giordano Bruno defendeu a existência de uma Sabedoria inesgotável, de um Universo infinito e de múltiplos mundos possivelmente habitados. Essas afirmações, em pleno século XVI, eram particularmente perigosas. Vale lembrar que nessa época o dogma cristão falava que a Terra era o centro do Universo, sendo o mundo criado por Deus para toda a humanidade; assim, a ideia de existir múltiplos mundos, planetas e um Universo infinito contrariava essa perspectiva, afinal, não existiria um centro e a Terra não seria um planeta “especial” pois existiram milhares iguais a ele. Também é importante salientarmos que outros pensadores, como Copérnico e Galileu Galilei, também já apontavam um modelo distinto para o nosso sistema solar, em que o Sol, o astro-rei, seria o centro. Porém, tais modelos não faziam parte do corpo da Igreja, e uma afirmação vinda de um monge era considerada extremamente mais perigosa do que a de um indivíduo de fora do corpo clerical. Outro ponto que vale ressaltar é o modo como a Igreja geralmente lidava com opiniões distintas dos seus dogmas. As acusações de heresia eram amplas, e a pena para esse crime era a morte.

Esse foi precisamente o caso de Giordano Bruno, uma vez que suas ideias desagradaram a Inquisição, instituição da Igreja Católica que julgava e punia os “hereges”. Acusado de heresia e em busca de difundir suas ideias, Giordano Bruno vagou pelo mundo. Viajou pela Suíça, França, Inglaterra e tantos outros países onde aprofundou ainda mais seus estudos, escritos e fez também algumas conferências propagando suas ideias.

Alguns dos seus trabalhos são: O banquete de quarta-feira de Cinzas; Sobre a causa, o princípio e o uno; A expulsão da besta triunfante; Cabala do Cavalo Pégaso; e Dos Heroicos Furores. O último é escrito em formato semelhante aos diálogos platônicos, provavelmente inspirado por eles, tratando do amor sublime em contraposição ao amor vulgar. Essa mesma ideia, inclusive, pode ser vista em um dos diálogos do filósofo grego, em que contrapõe os diferentes discursos sobre o Amor. A influência da cultura greco-romana nos escritos de Giordano Bruno é inegável, assim como em outros filósofos renascentistas. Em seus tratados podemos observar, por exemplo, ideias baseadas em Platão, Plotino e até mesmo o Caibalion egipcío, o que deixa claro a busca do monge italiano pela Verdade.

Nos dias atuais, a ciência legitima as ideias de Giordano Bruno. Se pararmos para pensar que a própria ciência, com o desenvolvimento de satélites e sondas espaciais, tem por objetivo pesquisar sobre a existência de bilhões de galáxias e a busca por formas de vida em muitos planetas semelhantes à Terra, podemos afirmar que o filósofo perseguido pela Inquisição estava no caminho certo das suas investigações. É importante notarmos que, para além de um conhecimento intelectual e empírico, Giordano Bruno fica na História da humanidade como um ser especial que atingiu um grau de consciência elevado, de maneira a entender as Leis da Vida de forma profunda, a partir do que podemos chamar de Intuição.

“Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata. Não há, por isso, magnanimidade que os liberte, nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive.”

Giordano Bruno

A capacidade de buscar a Sabedoria e de intuitivamente ver a realidade fez com que Giordano Bruno entendesse profundamente as Leis do Universo em que vivemos. Poucos e importantes são os Seres Humanos que deixaram sua marca na história por essa capacidade consciente de intuir a Vida. Giordano Bruno é, sem dúvida, um diamante no meio dos homens do seu tempo, pois, além de nos deixar esse legado de Sabedoria, também nos mostrou, com seu exemplo, a capacidade de ser leal ao melhor de si mesmo em circunstâncias adversas.

Depois de 14 anos percorrendo a Europa, o filósofo foi capturado pelo tribunal do santo ofício, a Inquisição. Durante sete anos ficou confinado nas masmorras de Veneza, em condições muito precárias, onde dificilmente conseguia ficar em pé, convivendo com o que podemos chamar de uma morte em vida. No fim desse período, foi sentenciado a morrer na fogueira e mesmo assim não abriu mão dos seus Valores e de toda Sabedoria que havia pronunciado. Diz-se que respondeu aos seus juízes: “Tremeis mais vós ao pronunciar a minha sentença que eu ao escutá-la.”

“Esta é aquela filosofia que desperta os sentidos, satisfaz ao espírito, enaltece a inteligência e reconduz o homem à verdadeira felicidade que ele pode ter como homem, e que é relativa a sua natureza, porque o liberta da constante preocupação com os prazeres e do cego sentimento das dores, fazendo-o desfrutar a existência no presente, e temer menos ao esperar o futuro. (…) Mas enquanto consideramos mais profundamente o ser e a substância daquilo em que somos imutáveis, ficaremos cientes de que não existe a morte, não só para nós como também para qualquer substância, enquanto nada diminui substancialmente, mas tudo, deslizando no infinito, muda de aparência.”

Giordano Bruno

Giordano Bruno é um exemplo de que o Ser Humano é capaz de enfrentar qualquer adversidade e ser livre, pois ele escolhe ser leal àquilo que tem de mais elevado dentro de si: as Virtudes, os Valores e as Ideias que transcendem o tempo. Uma Vida toda dedicada à busca por respostas aos Mistérios da Vida, respostas essas que ele encontrou, em alguma medida, já que por Amor a eles viveu e morreu, nos legando não só o conhecimento que adquiriu e compartilhou, mas também, não menos importante, seu próprio exemplo de Força, Verdade, Lealdade a si mesmo e Amor à Vida.

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