Não é raro conhecermos a história de alguém que venceu suas limitações, desafiou os prognósticos, e conquistou o que parecia impossível. Quanto mais facilmente nos identificamos e compreendemos as dificuldades enfrentadas, mais reconhecimento parece merecer seus esforços. Nem sempre, entretanto, é tão fácil assim perceber o quão duras podem ser as lutas que enfrentam aqueles que o fazem em silêncio, ou que nem mesmo acham que precisam nos convencer de que têm um problema.

Enã Rezende, um jovem médico de 26 anos, trabalha como clínico geral em Rondonópolis, no Mato Grosso, e pretende se tornar neurocirurgião. Ele realiza seu sonho todos os dias, quando atende seus pacientes, de todas as idades, e pode conversar com eles para além da medicina, fazer amigos, mesmo que nenhum deles saiba os enormes obstáculos que precisou vencer para estar ali. Enã é autista, e como outras milhões de pessoas, sofre da doença que provoca dificuldades de interagir socialmente e se comunicar.

O Autismo não é uma doença de diagnóstico simples ou objetivo. Em grande parte dos casos os sinais são confundidos pelos pais, amigos, e até professores, como foi o caso de Enã, com características da própria personalidade da criança. A família do jovem médico só conheceu essa realidade quando sua mãe foi informada por sua pedagoga que ele não poderia ser alfabetizado. Insatisfeita com a notícia, Érica levou o filho à outra escola, com a mesma metodologia de ensino, e em poucos meses o pequeno Enã já conseguia ler tão bem quanto seus colegas.

Como psicóloga, a mãe de Enã buscou se aproximar mais do filho e entender o que motivava seu comportamento. Ainda assim, o diagnóstico veio apenas aos 18 anos de Enã, quando Érica teve outro filho com as mesmas características. A mãe, nessa altura,  já sabia que ele não era igual aos outros, e que isso não significava que o filho era “menor” em nenhum aspecto, mas que precisava de uma atenção diferente. 

Após a morte do pai em um acidente, o jovem Enã de 7 anos conheceu e se interessou pela medicina, aprendendo tudo o que podia sobre o assunto. O garoto, que já era bastante estudioso, agarrou-se aos livros e tornou-se o médico que talvez salvaria a vida de pessoas como seu pai.

O Autismo não é tão evidente ao olhar mais distraído, por isso mesmo pode não ser tão bem conhecido. E se não o conhecemos bem, certamente não tratamos os que sofrem dele como deveríamos. Tomar alguém por lento, limitado, antes de saber de sua condição autística pode soar apenas como um ato falho, mas, o oposto, tratar com respeito e compreensão, não deveria parecer um ato de grande generosidade, mas, tão comum quanto respirar. 

Desafios como esse são capazes de nos ensinar que talvez não estejamos diante de uma limitação, mas, de uma particularidade, uma diferença, um “quê” de especial, como provou Enã. Isso também pode nos mostrar que para lidar da forma mais adequada é preciso muita atenção e carinho, mas, uma boa dose de conhecimento pode tornar tudo mais fácil.

Thalita Oliveira, estudante de pedagogia no Tocantins, interessou-se pelo assunto quando recebeu a indicação de um artigo sobre a doença. Ao ler o texto, notou imediatamente que seu próprio comportamento se encaixava em muitos pontos do que era mostrado ali, e, depois de uma profunda investigação sobre o autismo, finalmente decidiu buscar uma resposta profissional. A estudante recebeu o diagnóstico que a posicionava numa área mais leve do espectro autista, além de apontar que ela possuía Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA). Com o acompanhamento adequado, a vida de Thalita melhorou bastante, diminuindo suas crises de depressão e ansiedade decorrentes, tanto de sua condição de saúde, quanto da dificuldade para se relacionar com outras pessoas em certos níveis.

Voltando ao caso de Enã, sua mãe entendeu que havia algo diferente no filho, assim como Thalita soube reconhecer a si mesma no artigo sobre Autismo, e isso permitiu com que buscassem o acompanhamento mais indicado. Graças ao diagnóstico, ambos podem, hoje, ter uma qualidade de vida boa o suficiente para realizar seus sonhos e se colocar em posições para ajudar, através da medicina ou da educação, outras pessoas que enfrentam ou não os mesmos desafios que eles. Colocar-se, enfim, a serviço do próximo talvez seja o motor que garanta que eles possam superar as adversidades e mostrar a Beleza da Vida Humana, que ao ser regada pela Vontade, pelo Amor e pela Inteligência fazem florescer Belas Virtudes.

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