Qual o papel da arte em nossa civilização? Muitos filósofos atribuem a ela um papel central na educação dos cidadãos de um Estado, pois seria uma ponte entre os ideais desejados pela sociedade e a vida cotidiana. Em outros tempos, a arte ia ainda mais além, sendo não apenas uma maneira de expressar ideias, mas também fórmulas mágicas que seriam capazes de ajudar não apenas os vivos, mas também os mortos. Com maior ou menor intensidade, é fato que as expressões artísticas andam lado a lado com a história da humanidade, afinal, somos a única espécie que produz arte. Desde as primeiras pinturas feitas em cavernas pré-históricas até a arte digital, própria do nosso tempo, a apreciação e construção de uma obra de arte exige não apenas talento e técnica, mas a captação de uma ideia que o artista objetiva no mundo.

Considerando isso, obras de arte não são apenas fruto de uma inspiração, mas também refletem ideias vividas naquele momento histórico e, portanto, são ótimas fontes para se conhecer o passado. Ademais, elas ainda conseguem nos contar, por elas mesmas, uma história ou mito. Assim, passarmos a apreciar a arte em suas mais distintas expressões nos ajuda não apenas a compreender um pouco mais sobre sua história e características, mas, principalmente, a reconhecermos a beleza por trás de uma ideia. Ao artista cabe a inspiração e a habilidade para nos revelar a sua visão. Aos apreciadores, a sensibilidade de entender o que se foi passado.

Tendo em mente tais ideias, hoje faremos uma pequena amostra de como a arte pode ser uma ponte com o belo e o mundo das ideias, como diria Platão. Nosso “estudo de caso” será a análise do quadro “A intervenção das Sabinas”, de Jacques-Louis David. 

Para tanto, comecemos conhecendo um pouco mais sobre o artista. Jacques-Louis David foi um dos principais pintores do movimento neoclássico, ocorrido na França no final do século XVIII e início do século XIX. Ele foi, por muitos anos, o responsável pelo departamento de arte da França napoleônica. Sua vida, entretanto, não teve facilidade. Apesar de vir de uma família abastada, precisou encarar a morte do pai logo cedo em decorrência de um duelo. Ainda em sua infância, uma deformidade em seu rosto dificultou sua sociabilidade e ele  reservou-se aos seus desenhos e evitando brincar, muitas vezes, com outras crianças. Além disso, não podemos ignorar o conturbado momento social em que viveu: Revolução Francesa. Frente a isso, o cenário de instabilidade política e agitação social foi marcante em sua formação enquanto pessoa, pois foi um ávido apoiador da revolução, principalmente ao lado dos jacobinos.

Entendendo o contexto em que estava inserido, não nos surpreende a natureza das suas obras, em geral retratando momentos de conflitos na antiguidade clássica. Devido ao seu estilo, grande parte da inspiração de Jacques-Louis foram as civilizações grega e romana. Assim, o pintor inspirou-se nos mitos e na própria história desses povos. Na obra que analisaremos hoje, em especial, conta-nos o antigo mito do rapto das sabinas, realizado nos primórdios da civilização romana.

A obra, feita em 1799 (último ano da revolução francesa), mostra o cenário de batalha entre romanos e sabinos. No primeiro plano da pintura temos Rômulo, o lendário fundador de Roma, empunhando uma lança e o seu escudo com a loba capitolina em posição de ataque, provavelmente mirando em Tácio, rei dos sabinos que encontra-se com escudo e espada. Entre eles está uma mulher de vestido branco, com os braços erguidos e tentando evitar o confronto entre os dois.  Junto a eles, compondo esse primeiro plano da pintura, há mulheres no chão com seus filhos, claramente em desespero devido ao confronto. Ao fundo, no monte, há o templo de Júpiter, o principal deus dos antigos romanos. Outra figura que chama atenção na composição é a mãe que ergue seu filho aos céus, como se rogasse para que os deuses parassem aquele momento de furor e conflito.

O caótico cenário, contudo, só pode ser completamente entendido quando conhecemos o mito do rapto das sabinas. Conta a mitologia romana que Rômulo, com seus seguidores, após fundar a cidade de Roma, percebeu um grave problema para o futuro de sua cidade: o número de homens era muito superior ao de mulheres, logo, o crescimento e expansão das futuras gerações estava comprometido. Sua solução foi buscar casar seus homens com as mulheres sabinas, um povo vizinho à cidade de Roma e que vivia também no Lácio. 

Entretanto, o rei dos sabinos, Tácio, não apreciou a atitude romana e proibiu que as mulheres de seu povo casassem com os descendentes de Enéias. Observando esse impasse, Rômulo decidiu raptar as damas da cidade. Seu plano consistiu em dedicar um festival aos seus vizinhos, mostrando cortesia e criando um ambiente harmônico. Entretanto, em determinado momento do festival, Rômulo ordenou que seus homens avançassem sobre as mulheres e as levasse à força, começando assim o conflito entre as duas cidades. Outros povos latinos, posteriormente, declaram guerra contra Roma devido ao rapto das mulheres sabinas, porém, tanto os sabinos como os demais povos – chamados italiotas – acabam se unificando ao povo romano e constituindo assim a sociedade que iria dominar o mundo Ocidental séculos mais tarde.

Vale ressaltar que esse é um mito e como tal não deve ser levado ao “pé da letra”. Para além do que está descrito, é fundamental entendermos seus símbolos e alegorias. Uma das principais chaves desse mito é o de mostrar, por exemplo, a diversidade do povo romano, fato esse que é comprovado não apenas nessa fase inicial da civilização, mas que seguiu como uma característica marcante em Roma. Basta relembrarmos os inúmeros povos que após conquistados ficavam sob a jurisdição romana e, em muitos casos, ganhavam cidadania romana, tornando-se assim parte do império. Além disso, o próprio mito conta um “modus operandi” dos romanos frente à guerra e conflitos. Em geral buscava-se a diplomacia, mas, quando essa não era suficiente, as armas eram a medida tomada pelas legiões.

É importante que deixemos claro que não incentivamos as atitudes contidas no mito, muito menos acreditamos que estas são passíveis de serem repetidas em nosso tempo. Devemos, pois, analisar os fatos sob a ótica de uma sociedade em seu tempo histórico, na qual a guerra era um caminho natural para uma civilização que buscava expandir seus limites.  Nesse sentido, o rapto das sabinas conta de maneira simbólica a miscigenação dos povos do Lácio, sendo os romanos frutos de uma diversidade não apenas étnica, mas também cultural. O próprio panteão romano está recheado de divindades etruscas, sabinas e gregas, por exemplo.

Jacques-Louis David, em sua obra, entretanto, destacou dois aspectos importantes. Um deles refere-se à força feminina resistindo frente à guerra. A mulher no centro da imagem, que diversos especialistas afirmam ser Hersília, a filha do rei Tácio, é a figura mais imponente da pintura, mesmo não portando nenhuma arma ou indumentária chamativa. Sua postura firme e decidida ante o perigo é inspiradora e nos leva a refletir sobre a necessidade de uma postura ativa dentro dos conflitos que nos toca. As demais damas, cada uma à sua maneira, também buscam intervir no conflito: umas rogam aos céus, como já apontamos, outras tentam segurar os combatentes. Assim, Jacques-Louis buscou transmitir a força que reside em cada um de nós frente aos momentos de tensão.

Um outro ponto que por vezes nos passa despercebido, entretanto, não está relacionado com a antiguidade clássica, mas com a revolução francesa em que o artista presenciou. Se voltarmos nosso olhar para o fundo da pintura, perceberemos uma construção similar a um castelo medieval, com suas torres de pedra em formato circular. Esse tipo de castelo, porém, não existia nos primórdios da civilização romana. Assim, de forma sutil, Jacques-Louis representou no rapto das sabinas um pouco do que viveu nos anos de revolução. A torre medieval é, de fato, similar a um dos símbolos da revolução francesa: a Bastilha.

Prisão do administrador da bastilha, Por Jean-Baptiste Lallemand

Como explicado anteriormente, a arte é capaz de ser analisada por diferentes ângulos. Desse modo, para além das ideias e a técnica empregada por Jacques-Louis em sua composição, o pintor também expressou um sentimento quanto ao mundo em que vivia. Um mundo em convulsão social, marcado pela luta de classes sociais. 

Por fim, é importante percebermos que a arte é um campo fértil para conseguirmos nos conectar com ideias e histórias. Um quadro, uma música, filme ou qualquer outra forma de arte pode ser muito mais do que apenas uma técnica bem executada, mas uma ponte que nos leva até o mundo das ideias. A arte nos tira da objetividade do mundo cotidiano, é capaz de elevar nossa consciência até a mais divina dimensão, mas para isso precisamos entender as ideias que estão ali retratadas. Dessa maneira, ao desenvolvermos nossa sensibilidade e treinar nosso olhar ao belo, sem dúvida alcançaremos novos patamares de compreensão do que, um dia, um grande artista conseguiu vislumbrar e eternizou em suas obras de arte. Que a arte, por fim, nos inspire a buscar o nosso melhor lado através não apenas da beleza, mas das grandes ideias. E que nos permita chegar ao que verdadeiramente somos.

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