O Ser Humano é o único ser na Natureza com o dom de fazer Arte. Talvez essa seja uma afirmação chocante para alguns, mas extremamente verdadeira. Desde a antiguidade entende-se que a Arte é uma expressão do Belo. Por sua vez, o Belo seria atributo do Divino, junto com a Bondade e a Justiça. Desse modo, ao fazer Arte, o artista e o público poderiam contemplar uma faceta do Mistério que rege o Universo através de uma ideia retratada por uma obra.

Ainda retratando os tempos antigos, Platão, ao construir sua cidade ideal no diálogo A República, afirma que a educação dos governantes desse estado deveria, obrigatoriamente, passar pela Arte. Isso mostra a sua importância na formação de caráter do cidadão, uma vez que ela teria como objetivo criar uma percepção da Harmonia, tanto dentro de si como fora. Em síntese, o que Platão mostra é que a função da Arte é ser uma ponte entre os homens e os Deuses, uma vez que possibilita o acesso a ideias elevadas a partir das obras.

Partindo desse ponto de vista, podemos nos perguntar se nos tempos modernos ainda existem aqueles que buscam retratar, através de suas obras, um reflexo do Divino? Para além disso, podemos nos questionar se haveria um artista que, mergulhado em questões filosóficas, seria capaz de produzir uma Arte reflexiva, que buscasse respostas e investigasse a essência Humana? A resposta para essas perguntas é sim! Mesmo que nos tempos atuais a Arte não seja, na maioria dos casos, utilizada com a finalidade de percepção do Belo, há certamente artistas que se empenham em expressar, acima de tudo, percepções profundas sobre o Universo, o Ser Humano e seus dilemas em suas obras. E hoje falaremos de um destes artistas: Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo, ou, Amado Nervo, um poeta filósofo.

Para compreendermos a poesia de Amado Nervo é preciso conhecer um pouco sobre sua vida. O poeta nasceu em Tepic, no México, e viveu entre os anos de 1870 a 1919. Sua breve existência, porém, foi o suficiente para que o artista mexicano deixasse sua marca na História da Arte. Talvez sua principal contribuição, se podemos colocar nesses termos, está nas ideias filosóficas contidas em seus poemas, uma vez que estes carregam lições e ensinamentos que uma pessoa comum precisaria de longas páginas para traduzir. Essa capacidade de simplificar, a partir da Harmonia e métrica dos versos, idéias tão profundas possibilitaram a Amado Nervo criar uma Arte que preocupava-se não apenas em inovar, muito menos em refinar somente as técnicas de escrita, mas sim em elevar o nível de suas mensagens e reflexões.

Além de escritor, Amado Nervo transitou por diversas profissões: diplomata, jornalista, professor universitário e inspetor. Entretanto, o fio que conduzia todas as suas experiências certamente era a literatura. Suas diversas profissões o levaram a morar fora do México, passando muitos anos na Europa e, no fim da sua vida, no Uruguai. Em todos esses lugares, vivendo diferentes “papéis” no teatro da vida, o artista soube extrair o melhor de suas experiências.  Um de seus poemas, intitulado “Em paz”, reflete bem o caráter de aceitação do seu destino e de buscar, além da objetividade dos fatos, a lição por trás das experiências que viveu. Vejamos alguns trechos do poema:

“Em paz” 

“Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

porque nunca me deste esperança falida

nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo no fim de meu rude caminho

que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;

que se os méis ou o fel eu extraí das cousas

foi que nelas pus mel ou biles amargosas:

quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;

mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;

mas não me prometeste noites boas apenas,

e, afinal, tive algumas santamente serenas…

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.

Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!”

Amado Nervo

(Tradução de Anderson Braga Horta)

O poema fala de um homem que está se aproximando da morte, o inexorável destino que nos aguarda. De maneira simples, Amado Nervo nos revela sua mais profunda confiança na vida, quando escreve que a vida nunca lhe deu “esperança falida”, ou seja, jamais lhe fizera promessas que não foram cumpridas. Ao mesmo tempo, o poeta nos mostra a vida tal qual a percebemos: dual. Noites boas e ruins, amores e fracassos, tristezas e alegrias. A dualidade é uma Lei da Natureza, uma maneira de compreendermos o Universo. De maneira Bela Amado Nervo expressou essa característica da Vida nesse poema. 

Um outro destaque interessante do poema se faz em seu fechamento, nos versos finais que o poeta proclama que está em paz com a vida e que esta nada lhe deve. Imaginemos, por um instante, que todos os nossos rancores, mágoas e frustrações vividos ao longo de nossa existência fossem compreendidos. Como se num passe de mágica fossemos capazes de olharmos para a nossa Vida e percebermos todo o caminho que percorremos, a necessidade de vivermos certas dores e, consequentemente, reconhecermos o valor destas para a nossa Formação Humana. Provavelmente o sentimento que brotaria em nós era o de Paz, tal qual dito por Amado Nervo.

Dessa maneira suave e profunda o poeta mexicano nos leva a reflexão acerca de como encaramos nossas experiências e nos ensina que a vida, expressão própria do Mistério, é Justa. Por trás de sua métrica e técnica está a essência de sua mensagem: cada palavra se reveste de significado e carrega as reflexões de um verdadeiro amante da Sabedoria. Por isso chamamo-os de um poeta filósofo, uma vez que debruçar-se de maneira profunda por esses temas e expressá-los por meio da Arte tem se tornado, infelizmente, cada dia mais raro.

O que torna Amado Nervo um poeta diferente da maioria dos seus contemporâneos é, sem dúvida, a busca por enxergar o Divino em todas as coisas. Podemos dizer que o poeta mexicano consegue criar uma ponte entre Céu e Terra, em que ele, como artista, é o meio pelo qual essas ideias chegam até as pessoas. Não se trata, porém, de ser um profeta ou mensageiro divino, mas sim um canal para que as ideias passem e fluam por ele. A fama, o exibicionismo e o estilo de vida extremo, muito característico do meio artístico das últimas décadas, não combinavam com a personalidade de Amado Nervo, que levou uma vida, no mínimo, discreta. 

Por fim, podemos enxergar que Amado Nervo, direta ou indiretamente, estava alinhado com o pensamento de Platão, uma vez que procurou transformar a Arte em um canal de acesso ao Divino. Seus poemas, desde a sua estética até a sua mensagem, nos tornam capazes de compreender a Vida sob um ponto de vista mais Harmônico, nos fazendo, enfim, buscar um caminho em direção a Harmonia, o Justo Equilíbrio entre nós e a Vida. Propomos a todos, portanto, mergulhar em seus poemas e descobrir Pérolas de Sabedoria, que são, enfim, o alimento para a nossa Alma Imortal. 

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