O mundo está cheio de pessoas peculiares. Não entenda esse adjetivo como algo pejorativo, pois uma pessoa peculiar, a rigor, nada mais é do que alguém que foge à norma social padrão estabelecida. Assim, certamente, grandes personagens da história foram peculiares em suas existências. Porém, mesmo nos dias atuais, quando encontramos pessoas que fogem ao que estabelecemos como “normal”, fazemos uma série de julgamentos. O primeiro deles é, sem dúvida, desconfiar do estado mental dessas pessoas. Não raramente essas pessoas recebem a alcunha de “loucas”, e até podem causar espanto em um primeiro momento. Mas será que essa é uma forma válida de entender essas pessoas? Hoje vamos contar a história surpreendente de um desses personagens icônicos: o profeta Gentileza.

Entre as décadas de setenta e noventa, um personagem muito curioso rondava as ruas das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Este ficou conhecido como o “Profeta Gentileza”. De barbas longas e cabelos compridos como os de Jesus, vestia uma túnica branca com letras garrafais estampadas em bordas verde e amarela com expressões do tipo “GENTILEZA GERA GENTILEZA”. Carregava um cartaz com as mesmas expressões e andava suavemente entre os carros engarrafados no trânsito, entregando flores às pessoas, falando palavras gentis, agradecendo e sempre sorrindo. Quem era aquele personagem tão intrigante? Qual era a sua história? Como tudo começou?  Que mensagem estava passando? O que isso tem a ver com a nossa realidade hoje? 

A história do profeta Gentileza começa em 1961, quando o comerciante José Datrino, já na casa dos seus quase 60 anos, decidiu se tornar o Profeta Gentileza. O estopim dessa mudança ocorreu quando José Datrino viu um incêndio no Rio de Janeiro. Esse evento traumático foi um ponto de virada em sua vida.O empreendimento, o Gran Circo Norte-Americano, pegou fogo em uma de suas apresentações. Ainda hoje não se sabe ao certo o número de vítimas, e muitos animais também morreram nas chamas. Esse evento chocante marcou José Datrino e fez com que ele, pai de cinco filhos, três meninas e dois meninos, sentisse profundamente a dor dos pais que haviam perdido os seus filhos ali. Após o incêndio, Datrino afirmou ter tido uma visão divina que o chamava para uma missão de disseminar mensagens de amor e gentileza. A partir desse momento, ele começou a se autodenominar “Profeta Gentileza” e dedicou sua vida a espalhar sua filosofia através de mensagens escritas em muros e viadutos. 

Diante de uma sociedade tão infectada de ódio, vingança, violência e revolta, e de um país que estava à beira de uma convulsão social, naquele momento, algo despertou dentro dele. No dia 23 de dezembro de 1961, José recebeu um chamado e decidiu abandonar todos os seus bens e passar a viver como um pregador da gentileza. A sua primeira medida foi construir um jardim sobre as cinzas do que sobrou do circo, e ali também passou a morar. Assim, nasceu o “Profeta Gentileza”, famoso por espalhar palavras de amor e por consolar os parentes das vítimas. Em uma música que ele mesmo compôs, dizia que o circo representava o mundo redondo, ou seja, o planeta, e o incêndio representava a destruição desse planeta. 

A partir daí, ele passa a percorrer as ruas da zona central do Rio de Janeiro como uma espécie de andarilho ou pregador religioso, mas a mensagem reiterada girava em torno da ideia de que as pessoas deveriam ser mais gentis umas com as outras, amar mais uns aos outros, serem irmãos e se desapegarem dos bens materiais. 

Para muitos, a princípio, José Datrino tinha enlouquecido, afinal, largou seus empreendimentos e passou a divulgar sua nova filosofia de vida. Abandonou os vícios, a norma social e passou a viver de forma completamente distinta do esperado. O impacto desse traumático evento, de fato, poderia enlouquecer uma pessoa, principalmente se sentisse responsabilizado pela tragédia, mas não foi o caso do profeta gentileza. Sua “visão” acerca da mensagem a ser espalhada foi uma tomada de consciência diante do mundo, que tanto peca em exercer tais virtudes – o amor e a gentileza. Assim, aos poucos, o “maluco” profeta Gentileza passou a ganhar voz e espaço, tornando-se uma figura icônica e peculiar, mas respeitada nas ruas do Rio de Janeiro.

Quando assistimos a algumas entrevistas antigas dele, percebe-se que a linha da conversa não é tão bem ordenada. Não é para menos que ele era visto pela sociedade de então como um louco. Entretanto, o que faz tanta gente hoje ter tanto respeito e admiração pelo “Profeta Gentileza” é que, ao olharmos para toda a sua trajetória, percebemos uma grande coerência, pois sempre foi um homem que foi fiel ao que acreditava, por isso dedicava muitas ações, sentimentos e toda a sua vida em nome de um ideal que carregava dentro de si. 

Aquele personagem era o grito personificado em resposta ao mundo louco em que vivia, a uma sociedade desequilibrada e desordenada. Em 1961, tínhamos um mundo rachado entre dois blocos políticos, que se digladiavam em uma Guerra Fria, que levou vários países a sofrerem bloqueios econômicos, e a entrarem em corridas armamentistas, recessões econômicas, supressão de direitos e retrocessos civilizatórios. O Rio de Janeiro, uma cidade paradisíaca, centro cultural do país, já era marcada pelos crimes, e o atentado do Gran Circo foi símbolo definitivo que marcou a capacidade de degradação da Alma Humana. É nesse contexto que emerge o Profeta, com um discurso que, embora oscilante entre razão e emotividade, traz nas entrelinhas uma mensagem coerente: a solução para um mundo assim tão louco é viver a loucura de cultivar o Amor, a Compreensão, a Gentileza, a Paz e a Consciência de que somos irmãos, o desapego aos bens e o doar-se ao outro sem querer nada em troca. 

Esse era o núcleo da mensagem do “Profeta Gentileza”, isso é a parte que importa. Todo o restante é só superfície: os cabelos desgrenhados, a barba longa e descuidada, as entrevistas incoerentes; tudo isso faz parte da caricatura, era a capa excêntrica necessária para chamar a atenção para a seriedade de sua mensagem. Só entende o Profeta quem rompe a primeira impressão e busca ler nas entrelinhas do grande “livro de concreto”, que ele escreveu nas 56 pilastras que sustentam um dos importantes viadutos do Rio de Janeiro. 

Esse termo Gentileza tem origem na palavra “gentes”, que por sua vez, vem do radical latino Gens e significa origem, indicando pertencimento a algum tipo de espécie que tem a mesma origem. E é isso o que nos define. Independente de credos, de etnias, de classes sociais, de orientação política, ideológica ou religiosa, todos somos de uma mesma espécie, uma família humana, que tem a mesma origem, o mesmo ponto de partida. Por isso, a Gentileza é um estado de consciência. Quando despertamos uma consciência profunda para a ideia de que somos todos Um, e quando esse despertar de consciência se traduz em tudo o que sentimos, falamos e fazemos, aí é que nasce a verdadeira Gentileza.

Que o protagonismo desse inusitado personagem da nossa história possa acordar em nós um impulso em direção a essa consciência. Sejamos nós também a Gentileza!

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