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Quanto tempo levamos para descobrir nossos talentos? É fato que nascemos com habilidades quase inatas e que podemos desenvolvê-las rapidamente ou, infelizmente, nunca temos a chance de praticarmos tais capacidades. Porém, em raros momentos, há pessoas que logo cedo descobrem sua paixão e conseguem avançar pelos caminhos que o destino  a elas designa. Imagine, por exemplo, uma criança que aos 8 anos descobre seu talento no piano e após nove meses de aulas, ganha o concurso da Sociedade Bach de São Paulo. Esse feito é tão incrível quanto o dos grandes nomes da música clássica como Mozart e Beethoven, mas, apesar disso, esse jovem garoto não ficou tão conhecido como esses dois expoentes da música. Estamos falando de João Carlos Martins, um dos mais virtuosos pianistas que o Brasil já produziu. 

Seu talento, porém, não foi fruto apenas da habilidade inata para a música. Por trás de toda sua genialidade, havia um árduo treinamento, afinal, o talento sem esforço de nada vale. Para objetivar o que chamamos de “esforço”, basta sabermos que aos 11 anos o músico estudava 6h de piano por dia, o que fez com que se tornasse um mestre desse instrumento, tanto que com apenas 20 anos ele tocou no Carnegie Hall e gravou a obra completa de Bach para piano.

É notável que João Carlos Martins tem uma vocação destinada à música e ao piano. Porém, a vida tinha planos muito difíceis para esse grande musicista. Quando tinha 25 anos, ele sofreu uma lesão num jogo de futebol, e o que não passava de uma brincadeira foi o início de um verdadeiro terror para o pianista. Esta foi a primeira de muitas lesões e dores nos membros superiores que o acompanharam por toda sua vida. 

Por conta da lesão que afetou o nervo ulnar, 3 dedos da mão direita atrofiaram, trazendo uma enorme dor e dificuldade para tocar. Não sendo bastante, ao longo do tempo o pianista acabou desenvolvendo, por conta dessa primeira lesão, novos machucados causados por esforço repetitivo quando retornou aos palcos. Tentando compensar a limitação dos seus dedos, acabou gerando ainda mais problemas longo prazo e, consequentemente, piorando seu quadro. Como se não bastasse, alguns anos depois, num assalto na Bulgária, sofreu uma lesão neurológica que o submeteu a diversas cirurgias, impossibilitando-o de tocar com a mão direita. Ainda assim, gravou o álbum “Concertos para mão esquerda” em 2001. 

O cenário, porém, ainda ficaria pior. Isso porque em 2003, João Carlos Martins foi diagnosticado com uma doença chamada “Contratura de Dupuytren”, o que inviabilizou também a sua mão esquerda, perdendo basicamente os movimentos das duas mãos.

O que faríamos nessa situação? É muito provável que desistiremos de nossa carreira, buscaríamos fazer outra atividade e, mesmo infeliz, deixaríamos de lado nosso talento em prol dos “avisos” que o destino estava nos dando. Nenhum de nós julgaria errado essa decisão e, a bem da verdade, é provável que o senso comum falasse que isso era, de fato, o melhor a se fazer. Entretanto, não é tão simples abdicar de um talento tão espontâneo e natural, que foi cultivado ao longo de toda uma vida. João Carlos Martins, portanto, perseverou mesmo nesse cenário tão complexo e não desistiu de voltar aos palcos e tocar as belas sinfonias que tanto ama. 

Por um tempo, porém, aceitando sua condição e com poucas esperanças de permanecer no mundo da música, o pianista assumiu um novo papel, o de regência de orquestra. Adaptando-se a sua nova realidade, a regência o fez permanecer no meio artístico e, mesmo sem ser o que lhe apetecia, ainda era um caminho agradável de seguir. É justamente dentro da regência que João Carlos Martins pôde observar a música sob uma nova perspectiva e, de certo modo, redescobrir sua nova função. Sempre disposto a dar o melhor de si, o então regente se destacou como maestro, regendo a Nona Sinfonia de Beethoven toda de cor (por não conseguir passar as páginas da partitura), em São Paulo.

No entanto, a história de João Carlos Martins não termina por aqui. Em 2020, o musicista retornou com as duas mãos para o piano graças a um par de luvas biônicas desenvolvidas especificamente para ele. Com uma tecnologia de ponta, a ciência foi capaz de fazer João Carlos voltar a mostrar seu brilhantismo com o piano e, mais uma vez, encantar os ouvintes com a sinfonia de sua vida. “É a 1ª vez em 22 anos que coloco os 10 dedos no teclado”, declarou o pianista ao testar as luvas e perceber que poderia mais uma vez usar do seu talento.

Quantos ensinamentos podemos extrair de uma vida como está? Pelo menos, as virtudes da persistência e resiliência. Saber trabalhar diariamente em nome de uma meta e, apesar das quedas, nunca desistir. Quantos de nós teríamos desistido no primeiro empecilho que o impediu de tocar, e teríamos usado todas as desculpas que seriam aceitáveis para isso? A cada lesão que ele sofria em suas mãos, mais determinado ele se tornava. Nós também enfrentamos obstáculos em nossas vidas diariamente, porém, muitas vezes, preferimos evitá-los de todas as formas, a crescer através deles.

Com certeza, João não seria o pianista que é hoje se não tivesse enfrentado todas essas provas em sua vida, e o mais bonito de tudo isso é ver o seu discurso. Nunca relata mágoa das experiências passadas, traumas ou rancor pelas oportunidades que perdeu, mas sempre uma gratidão pelas experiências que a vida trouxe.

Nesse sentido, podemos aprender muito mais do que lições de música com esse grande pianista. Não perder a confiança na vida e atuar, mesmo em dificuldade, no que lhe cabe, são tarefas que apenas os seres humanos virtuosos conseguem executar. Para tanto, é preciso fazer uso de nossas “armas mágicas”, que nada mais são do que as virtudes. A persistência, a disciplina, a coragem, a humildade e, principalmente, a fé na vida e seus desígnios. Sem essas poderosas ferramentas, João Carlos Martins não estaria executando as músicas que tanto ama, pois mesmo que existisse a tecnologia para fazê-lo voltar a tocar, sem tais qualidades, jamais encararia os tratamentos e a dificuldade para fazer algo tão complexo. 

Podemos entender o seu caso como uma vitória da ciência e não estaríamos errados em afirmar isso. De fato, graças a essa maravilhosa tecnologia foi possível fazer com que João Carlos Martins voltasse para o piano, porém, acima de tudo, essa é uma grande vitória da humanidade perante suas limitações. Devemos entender, portanto, que não existe impossível para os sonhadores, para os que colocam sua energia e sua vida em um caminho de unidade e beleza, mas sim apenas impossibilitados que, por questões circunstanciais, não podem fazer o que lhes cabe. No caso de João Carlos Martins, a sua consciência de artista, a sua alma que vibra com o tocar das teclas do piano, que jamais esteve morta, apenas impossibilita por um período. Mesmo nos momentos mais difíceis, a perseverança garantiu que o músico passasse pelas tormentas e saísse mais forte das experiências. Hoje, enfim,  só é possível tocar o piano porque, acima de qualquer circunstância, ele aprendeu a não desistir dos seus sonhos. Será que esse não é um caminho inspirador para todos nós?

Que possamos nos inspirar em João, o Maestro (nome do filme que foi aos cinemas, em sua homenagem, em 2017), e que possamos nos reposicionar quanto aos nossos limites, quanto às duras experiências que enfrentamos, quanto  à nossa vida e quanto à nossa capacidade de superação.

Obrigada, João Carlos Martins, a melodia tocada pela sua vida sempre ecoará em nossos corações.

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