Já conhecemos a capacidade da Pixar Animation Studios de transformar histórias inspiradoras em narrativas animadas para todas as idades. “Divertida Mente”, “Up” e “Monstros S.A.” são alguns exemplos dos títulos cativantes que nos vêm à mente, e “Soul”, lançado no fim de 2020, não é diferente. Com uma proposta nitidamente mais madura, tratando de Propósito de Vida e de “quem nós somos”, o filme lançado na plataforma de streaming Disney Plus traz uma belíssima e profunda reflexão sobre o que de fato é importante.

Acompanhamos a história de Joe Gardner, um músico insatisfeito com a própria vida por não ter uma carreira de sucesso como pianista de jazz. Depois de inúmeros fracassos, Joe acaba se tornando professor de música em uma escola onde os alunos nem sempre compartilham de sua paixão. Porém, tudo muda depois de uma inesperada chance de tocar numa famosa banda, seguido de um acidente antes da apresentação e culminando com a ida da sua Alma para o Além-Vida.

Recusando-se a morrer, Joe embarca numa jornada para tentar voltar à Vida junto com Almas que estão se preparando para iniciar o seu ciclo na Terra. É interessante notarmos o contraste entre a Alma 22, que sente-se satisfeita e não deseja ir para a Terra, e Joe, que anseia e se esforça a todo custo para voltar à Vida que tinha. Apesar de ambos desejarem coisas distintas, eles terminam embarcando na mesma viagem, a Vida, e então passam a viver uma aventura juntos na Terra. 

É nesse contraste que o filme nos faz refletir sobre o que realmente nos motiva a viver Será que é ter um Sonho a perseguir, o que Joe chama de Propósito, de maneira que tudo ao redor parece sem cor se não o conquistarmos? Ou será que é descobrir a cada instante a Beleza de tudo o que há, assim como o entusiasmo e o espírito de aventura de uma criança?

Muitas vezes falamos sobre o “sentido da vida”, ou seja, qual o motivo de existirmos. Para alguns, mais afeitos a um pensamento materialista, argumenta-se que não há sentido no que vivemos e estamos aqui por um mero fruto do acaso. Apesar dessa ser uma corrente de pensamento forte nos dias atuais, é preciso refletir que tudo na natureza cumpre com um propósito, assim como em nosso organismo toda e qualquer célula tem um papel a cumprir. Será que apenas nós, seres humanos, estaríamos ao acaso nesse mundo? Acreditamos que não.

Pensando nisso e aproveitando a temática de Soul, podemos pensar que não viemos ao mundo construir impérios, exercer profissões ou qualquer outro tipo de aspiração, seja no campo profissional ou afetivo. Se assim o fosse, uma pessoa que nasceu há 400 anos e tivesse como sentido de vida ser um profissional de informática, por exemplo, jamais poderia se realizar, afinal, não haviam computadores no século XVII. Nesse sentido, é preciso compreender que nossos propósitos jamais estarão ligados a uma técnica ou exercer uma profissão, mas sim sermos o melhor ser humano que possamos conseguir. Nossos hobbies, trabalhos e outros tantos afazeres, sejam de cunho social ou pessoal, são apenas caminhos para o qual expressarmos a nossa natureza humana. 

Outro ponto que nos faz refletir é sobre a própria expressão “sentido da vida”. A palavra “sentido” indica, entre outros significados, uma direção. Assim, quando pensamos em “sentido de vida” podemos compreender que devemos ter um direcionamento, ou seja, caminharmos rumo a um destino. E qual seria isso? Em Soul, percebemos que Joe passa a ser uma pessoa melhor, mais virtuosa e que, mesmo com suas dificuldades, consegue se tornar uma pessoa realizada e feliz. Apesar de parecer apenas mais um desfecho clichê, o que é próprio dos filmes, essa é uma mensagem poderosa e real: o sentido da vida humana é caminhar para a felicidade. 

Nossa felicidade, porém, não está em aspectos materiais. Pelo contrário, geralmente somos felizes quando entramos em contato com algo imaterial: Quando compreendemos uma ideia, quando cultivamos sentimentos positivos e tais aspectos se convertem em ações como, por exemplo, ajudar um amigo, alguém que gostamos e até mesmo ensinar algo para um desconhecido. Esse tipo de felicidade não se extingue e não passa rapidamente, diferentemente da alegria que sentimos ao consumirmos uma comida que gostamos ou ao fazermos algo que agrada aos nossos instintos. Será, portanto, que não devemos refletir sobre o que de fato nos faz feliz? 

Voltemos para o filme: Joe, apesar de acreditar que tem um Propósito de Vida, que isso é o que define quem ele é e o porquê de estar vivo, vai percebendo que, ao se deparar com suas memórias, nunca viveu de verdade e sempre esteve esperando que o seu Propósito fosse realizado. Enquanto a Alma 22, por ter ficado aberta à aventura que é viver, quando iniciou sua jornada na Terra, vai aproveitando todas as experiências ao máximo, de maneira que sempre se sente satisfeita, completa e radiante. A realização está no aqui e no agora, e não no passado ou mesmo no futuro. Se vivermos todos os dias esperando que algo fora de nós aconteça para nos trazer Felicidade, ficaremos como Joe: vendo toda a Vida passar diante de nós sem nunca realmente participarmos dela. 

Outro ponto interessante na animação é o quanto ela parece se basear em tradições da Humanidade, como a filosofia grega ou mesmo a hindu, nas questões relativas à formação da nossa personalidade. No filme, as Almas possuem sete características na personalidade, presentes em um círculo no peito, que as fazem perceber o que precisam viver na vida que se iniciará. A nossa personalidade funciona da mesma forma segundo as tradições antigas. Assim, podemos perceber que ela é formada antes mesmo do nosso nascimento e é determinada pela experiência que necessitamos viver para irmos descobrindo aos poucos sobre esse Mistério de quem nós somos, como exemplificado no filme.

Uma das mensagens mais bonitas de “Soul” é quando percebemos que o Sentido de Vida de Joe, e na verdade de qualquer Ser Humano, não está somente em viver a vida de forma egoísta, em realizar suas metas e desejos, mas em, através das suas escolhas e das suas ações, contribuir para a vida dos demais, se sentindo parte deste grande Mistério que é a Existência. Desse modo, viver não se trata de alcançar metas e objetivos, mas de proporcionar ao nosso verdadeiro EU, à nossa Alma, a experiência necessária para sua evolução. Realizar-se, portanto, é viver e tornar cada experiência única, por mais banal que seja. Quem aprender a fazer isso será certamente Feliz. Por essas lições que “Soul” busca nos ensinar, nós da Feedobem o recomendamos. Bom filme e excelentes reflexões!

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