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Já se foi o tempo em que os filmes de animação tinham a função apenas de entreter o público infantil. Cada vez mais voltados para a um público diverso e de todas as idades, essas produções têm trazido em seus enredos, reflexões importantes sobre temáticas do mundo adulto, abordados sob o olhar infanto juvenil. A última produção da Disney, lançada no final de 2021, “Encanto”, não deixa dúvidas que entreter e educar é possível através da sétima arte.

O filme fala da Família Madrigal que vive, aparentemente Feliz, numa casa Mágica, há várias décadas. Entretanto, os integrantes Madrigais convivem sob uma restrita rotina de regras e tabus administrados pela avó e matriarca, chamada de Alma, que se relaciona com cada um a partir do seu Dom. Mas, tudo muda quando Maribel, uma de suas netas, que não possui, aparentemente, nenhum Dom, decide compreender o porquê de ser tão diferente do restante da Família, e acaba descobrindo a sua importância para manter a Unidade Familiar.

A casa, onde os Madrigais moram, fica localizada numa área distante e montanhosa, na região da Colômbia. É neste local que Alma teve que criar sozinha os filhos, desde que perdeu o esposo.  Toda a sua Força e Coragem para cuidar da Família se deu graças a um milagre que ocorreu, logo após ao falecimento do patriarca. A personagem e avó de Maribel é uma mulher de perfil firme que carrega consigo a responsabilidade de manter a Família Unida e Segura, para servir toda a comunidade que está no entorno da casa Mágica. A origem de todo Encanto e Magia se encontra na chama de uma vela especial, da qual Alma é a Guardiã. No entanto, ela deverá passar esse ofício, mais cedo ou mais tarde, para as mãos de outra pessoa, pois seu ciclo está prestes a se encerrar.

A História mistura fantasia, realidade e Magia. É uma animação musical leve, repleta de diversidade de cores e distintas personalidades, representadas por cada membro da Família. Nos Madrigais, cada um possuía uma qualidade que contribuía para fortalecer a Família e servir a comunidade local. Por exemplo, uma das irmãs de Maribel tinha o Dom da Força, a sua mãe tinha o Dom da Cura, já o seu tio possuía o Dom da Visão, o primo a Comunicação com animais etc. Só Maribel que não “recebeu” nenhum Dom, o que a fazia se senti triste e sem utilidade. Tal situação a deixava deslocada no âmbito Familiar e sem função social para a sua comunidade, e foi a angústia de se sentir diferente dos demais que a levou a canalizar a sua dor para a conquista de sua identidade. Assim começa a sua jornada para compreender o que aconteceu com o seu Dom e nesse processo, ela passa não só a se conhecer, mas a entender cada integrante dos Madrigais: as suas dores, os seus medos e as suas responsabilidades em pertencer à Família e comunidade Madrigal.

Todo o enredo musical é contado sob o olhar da jovem Maribel, e é isso que deixa o filme mais rico. O interessante é que, em meio a toda a sua angústia, ela precisa aprender não só a lidar com os seus conflitos e mudanças internas, tão natural na sua idade, mas também acolher os desajustes, os medos e as incoerências de seus familiares para que possa, enfim, descobrir o seu papel dentro da sua Família. Com o passar das cenas, o filme sugere que o seu Dom era dar continuidade à Magia e ao encanto da Família Madrigal, ou seja, assumir a liderança de sua Família, no lugar de Alma, sua avó, que durante cinco décadas, tinha mantido a Família em segurança. Assim, para manter a Magia, era preciso abrir-se para o novo, era necessário construir uma liderança que possuísse mais Alegria, mais Leveza, mais Sensibilidade e Empatia com cada integrante.

Neste quesito, a única Madrigal capaz de assumir o bastão da Família era Maribel, tendo em vista, que foi a única, conscientemente, a questionar a avó sobre a rigidez de suas regras. A menina conquistou o seu lugar na Família não só porque soube respeitar e valorizar o seu passado, representado pela avó Alma, mas acima de qualquer coisa, ela soube olhar para frente a partir de sua realidade. Consultando o seu passado, com os pés no presente, e o olhar no futuro, a jovem ajudou a manter a Magia e garantir a Segurança e União dos Madrigais. Assim, conseguiu ajudar a cada um a ressignificar a sua importância dentro da Família, além de encontrar o ponto Justo e Harmônico que unia a todos, não só pelos seus potenciais, mas pelo que cada um podia ofertar. 

Só a partir dessa ótica, a família pôde então acolher a todos e dar continuidade ao Encanto. Pois todos, independente de seus Dons e de suas Habilidades, são importantes para se manter a Unidade da Família. E assim como na natureza, é unindo vários elementos diferentes que se gera a Harmonia do todo. Logo, nenhuma orquestra pode tocar sem um maestro – um Líder que conheça profundamente o Coração de cada instrumento e de seus músicos. 

A produção da Disney “Encanto” é mesmo um “encanto”, seja pela explosão de cores, pela diversidade de personagens ou mesmo pela facilidade e Leveza com que aborda temas tão pertinentes para todos nós. Podemos interpretar o filme por vários ângulos, como a importância da Família e as suas imperfeições, o conflito de Valores entre as gerações, a crise existencial e os conflitos juvenis ou mesmo as crises de pertencimento familiar. Do início ao fim, toda a produção nos conduz, de maneira divertida, a ver a Vida pela força da sua Magia e os pequenos mistérios que ela nos apresenta diariamente, até nos momentos mais difíceis. Talvez seja por isso que dizem que a Vida é muito mais mágica do que lógica. Mas só percebe isso quem respeitar o seu passado e construir o seu presente, olhando para o futuro. Que possamos então, guardar dentro de nós, toda a Magia e o Encanto que nos mantêm unidos à nossa grande Família, a Humanidade.

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