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Você já parou para refletir sobre até que ponto o ser humano pode ir pelas suas ambições? Em diversas áreas do conhecimento, esse questionamento é colocado em cena, mas talvez seja um assunto pouco falado abertamente no nosso cotidiano. O fato é que todos nós possuímos desejos e aspirações, sejam elas econômicas, políticas ou mesmo espirituais. Entretanto, conjugar tantos impulsos em prol de um único destino nem sempre é uma tarefa simples. 

O filme que indicaremos hoje nos fala sobre ambição, jogos de poder, traições e, acima de tudo, o valor de nossas escolhas. Estamos falando do aclamado “Duna”, o filme dirigido por Denis Villeneuve e estrelado por Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac e outros astros do cinema. O filme é uma adaptação do romance “Dune” (“Duna” no Brasil), escrito por Frank Herbert em 1965 e que se tornou um best-seller no campo da ficção científica. O grande sucesso desse livro rendeu prêmios a Herbert, que lançou mais cinco volumes do romance, solidificando sua carreira como escritor e imortalizando sua obra como a mais bem sucedida da ficção científica.

Mas do que se trata, afinal, o filme?

Como toda boa história de ficção científica, o espectador deve estar preparado para embarcar em uma jornada longínqua, tanto no tempo quanto no espaço. Nesse mundo distante, em um ponto distante do Cosmos, um planeta chamado Arrakis passa a controlar a Terra. Esse planeta desértico possui um mineral extremamente raro, a melange, que é capaz de dar uma sobrevida aos seres humanos. Graças a esse mineral e  à necessidade humana de prolongar sua existência, o planeta Arrakis  (que também é chamado de Duna devido a seus desertos) acaba administrando o nosso planeta. O responsável por essa “transação” é Leto Atreides, um dos líderes mais importantes da raça humana. Em troca da administração da Terra, Leto se torna responsável por explorar as minas de melange e deter para si o monopólio desse mineral. O problema se inicia quando a sua família e alguns dos seus conselheiros chegam em Duna para começar a explorar esse formidável mineral. Após uma traição, os planos de Leto e sua família começam a desmoronar, e assim a trama de Duna se inicia.

Do ponto de vista narrativo, Duna é um filme que agradará praticamente todos os tipos de espectadores, pois consegue envolver de forma brilhante ação, aventura, diálogos profundos; e ter, ao mesmo tempo, uma história bem alinhada com o livro que o originou. Para os fãs da literatura, essa era uma das principais preocupações para com o filme, uma vez que nos anos 1980 a primeira adaptação do livro para o cinema resultou em um fracasso. Entretanto, o Duna de 2021, até então, tem sido classificado como um sucesso pela crítica e pelo público.

Vale lembrar que o filme foi previsto para ser dividido em duas partes, mas que até o momento apenas a primeira metade foi lançada. Portanto, não esperem um final “definitivo” para essa jornada, que pode se estender ainda por muitos filmes a depender da capacidade de adaptação da história. Porém, mais do que um filme bem executado, Duna pode nos trazer uma série de lições de moral para a nossa vida. Talvez isso seja o principal fator de sucesso, tanto do livro quanto do filme para com seu público.

Observar a história de Leto Atreides, por exemplo, nos remete diretamente à ambição humana. Leto não é um personagem “mau”, mas sim um líder que busca encontrar soluções para a sua família e para a humanidade. Ao se deparar com um material que consegue dar praticamente a vida eterna aos seres humanos, Leto vai até às últimas consequências para poder obtê-la, até o ponto de “vender” o planeta para outros seres.

Não é a primeira vez na literatura mundial que esse dilema ocorre. Em verdade, Frank Herbert usa uma premissa tão antiga – e atemporal – que a primeira epopeia da humanidade, “A Epopeia de Gilgamesh”, já apontava. No mito sumério, Gilgamesh é um rei que se depara com a mortalidade quando seu melhor amigo, Enkidu, é morto. Temendo o mesmo destino, Gilgamesh busca uma planta capaz de lhe dar a imortalidade. Outro exemplo clássico dessa narrativa é o livro “O Retrato de Dorian Gray”, escrito por Oscar Wilde e que também nos conta a busca pela juventude eterna do jovem Dorian, que de tão belo recebe de um amigo uma pintura com seu rosto. Porém, desejando ser jovem por toda eternidade, ele acaba criando um “pacto” em que quem envelhece é o seu quadro e não o seu corpo. Dorian, porém, percebe que sua benção se torna uma maldição à medida que o tempo passa. A lição, nesse sentido, parece similar ao que acontece em Duna, uma vez que, aparentemente, toda ambição desmedida nos leva para a tragédia.

Vamos explicar essa ideia um pouco melhor. O que desejamos apontar é que a ambição humana pela imortalidade é um assunto pelo qual, desde sempre, a humanidade se interessou, e essa temática é comprovadamente marcante dentro da literatura. Ela funciona tão “bem” com o público, pois obriga o leitor/espectador a se deparar com seu próprio dilema existencial, causando assim um impacto profundo em todos nós. Desse modo, voltar ao tema não é “reinventar a roda” ou “copiar fórmulas antigas”, mas reviver um dilema que nunca morreu em nossa existência: o ser humano continua a buscar a imortalidade, pois sentimos que há algo em nós que não pode – nem deve – morrer.

Porém, essa é apenas a ponta do iceberg que faz de Duna um grande sucesso, tanto como filme quanto como livro. Isso porque o enredo se desenvolve a partir da família de Leto, que tem seu futuro totalmente mudado a partir da escolha do personagem. O principal desses membros – e também protagonista da trama – é o jovem Paul Atreides, o filho de Leto. Após o complô que resulta na perda dos privilégios de sua família, Paul escapa para uma outra região de Duna chamada “Fremen”. Lá inicia a sua “jornada do herói”, na qual o personagem passa por diversos desafios até caminhar em direção a sua verdadeira essência. Nessa jornada, Paul entende um pouco mais sobre o jogo político que ocorre no Universo, desenvolve seus poderes latentes e tenta reverter a terrível situação em que sua família se encontra.

Mais uma vez percebemos a inspiração direta que Frank Herbert teve nas narrativas clássicas. A caminhada de Paul pode ser vista de forma similar a dos heróis da mitologia grega, por exemplo. Após uma separação, muitas vezes traumática, o herói precisa caminhar “com seus próprios pés” e ir aprendendo sobre suas potencialidades. Além disso, é notável que Paul viva diversos dilemas sobre o que é o correto a se fazer, se deve buscar o caminho da vingança ou não, entre outros tantos exemplos. 

Nesse aspecto, notamos que o sucesso de Duna está em justamente trazer para as telas – e para a literatura – temas que são relevantes para a humanidade e que, por isso, nos tocam de forma tão intensa. Além dos efeitos especiais, da bela produção e direção, que são importantes para a captação da nossa atenção, o filme nos leva a refletir sobre tais dilemas em nossa vida cotidiana e, por isso, merece ser apreciado como uma obra relevante.

Dessa forma, o cinema consegue transpassar sua finalidade original e vai além de um mero entretenimento, convertendo-se em arte. Duna enquanto filme é, de fato, uma obra-prima em diferentes níveis e talvez, por isso, tenha sido visto pela crítica como uma adaptação muito bem-sucedida. Deixamos, assim, essa bela indicação de filme para os amantes da 7° arte poderem apreciar de forma profunda, captando as mensagens principais que só podem ser compreendidas ao mergulharmos nos dilemas vividos pelos personagens, seus anseios e ambições. Que saibamos perceber tais nuances e enxergar que os dilemas de Paul e Leto são, na verdade, dilemas próprios da humanidade.

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