Você já ouviu falar no Saci Pererê? E na Cuca, no Curupira e na Iara? Se sua resposta foi sim para essas perguntas, então você conhece algo do folclore brasileiro e algumas de suas histórias e personagens míticos. Podemos arriscar um palpite ainda, que você entrou em contato com esses personagens ainda na infância, escutando histórias para dormir e assistindo alguns programas de TV, como o imortal sítio do pica-pau amarelo. Acertamos?

Em geral nossa relação com essas histórias ocorrem ainda quando pequenos, como uma tradição da cultura brasileira que vai passando de geração em geração. Quem nunca escutou a famosa cantiga “dorme neném, que a Cuca vem pegar”? Só de lembrar desses versos a nostalgia nos invade. Mas uma pergunta que nunca fazemos é o porquê de não continuarmos a nos relacionar com esses personagens do nosso folclore quando crescemos. Será que essas histórias, ditas para crianças, estão fadadas aos contos? Ou será que, à medida que crescemos, esse mundo fantástico no qual habitam nossos mitos vão sendo substituídos pela “vida adulta”, real, fria e objetiva? 

Parece-nos que, quanto mais crescemos, perdemos o encanto e a mágica da vida. Deixamos essas histórias morrerem em nós e passamos a ser céticos, tanto com relação às histórias que ouvimos, como com relação às pessoas que nos relacionamos e, em muitos casos, conosco mesmo. Será, enfim, que é preciso existir essa transição? Que o mundo folclórico está destinado a morrer em nossa vida quando passamos a ser adultos? Ou será que esses dois mundos, o objetivo e real e o folclórico e fantástico, não podem coexistir, de maneira que um esteja inserido no outro? É sobre isso que “Cidade invisível” trata em sua narrativa.

Produzida pela Netflix, a série brasileira entrou no ar pela plataforma de streaming no dia 5 de fevereiro de 2021 e já está entre as dez mais assistidas em 40 países. O sucesso de “Cidade invisível” pode ser atribuído a uma narrativa eletrizante e que mistura, de maneira harmônica, elementos fantásticos da cultura popular brasileira com dramas pessoais e bastante reais. Nos identificamos com os dilemas de Eric, protagonista e investigador da polícia ambiental que sofre com a perda da mulher após um incêndio e a necessidade de criar sua família. 

Tudo começa quando o corpo de um boto é encontrado em uma praia do litoral paulistano. Eric, responsável pelo achado, tenta desvendar o mistério e acaba esbarrando com diversas entidades que permeiam o mundo cético em que o investigador vive. Sua jornada, desde o princípio, é redescobrir suas raízes, redesenhando seus princípios e crenças a partir do encontro com o fantástico mundo do folclore brasileiro.  

Para além do enredo, “Cidade invisível” é uma série que indicamos por se debruçar sobre questões relevantes acerca do nosso folclore e seu papel dentro da sociedade. A primeira delas traz relação com o lugar que esses personagens da nossa cultura popular habitam dentro da nossa dinâmica social: na série, a maioria dos personagens estão renegados a condições sub-humanas, vivendo nas ruas como mendigos ou em ambientes à margem da sociedade. Essa é, ao mesmo tempo, uma crítica direta ao sistema em que vivemos, que exclui e segrega as pessoas que vivem nas ruas e em condições de extrema pobreza. Para uma parte considerável da sociedade esses Seres Humanos são invisíveis, desaparecem na paisagem urbana e, em geral, são ignorados. 

Do mesmo modo, fazemos com a nossa cultura popular. Achamos que não passam de histórias contadas para crianças, que servem para assustá-las e nada mais. Não damos o valor correto para algo que está profundamente ligado à nossa História, sendo uma cultura brasileira em essência. Não temos, por exemplo, datas comemorativas marcantes para o nosso folclore, muito menos festividades em homenagem aos seus personagens. Ignoramos essa cultura tão rica e a tornamos invisível para nossos olhos céticos, focamos apenas no “real”, ou seja, naquilo que podemos tocar, ver e sentir. A analogia de representar os personagens do nosso folclore como moradores de rua, portanto, cumpre um duplo papel: ao mesmo tempo que é uma denúncia social, também nos mostra uma falha em como lidamos com nossa própria cultura.

Partindo dessas idéias, “Cidade invisível” nos faz refletir sobre a linha tênue entre a realidade e a fantasia e como uma postura cética pode fechar nossos olhos para uma outra percepção da vida. Quando pensamos, por exemplo, que “só acreditamos vendo” ou que algo só é real se pudermos comprová-lo, nossa visão de mundo se torna limitada. Considerando esse modo de pensar, nunca poderíamos acreditar no Amor, uma vez que apenas sentí-lo não seria uma prova cabal de sua existência. E há, ainda, quem não acredite nesse sentimento e na sua capacidade transformadora. Enxergar a vida sob essa ótica a torna fria e, até certo modo, pessimista. Não poderíamos, por exemplo, acreditar no potencial transformador do Ser Humano, ou mesmo nas suas Virtudes. Nada disso pode ser provado por bases científicas, mas quem as vive não duvida da sua existência.

Essa distinção entre o real e o imaginário nos lembra a teoria das ideias de Platão, que nos apresenta que o mundo real nada mais é do que uma sombra imperfeita do mundo das ideias. Ou seja, por trás do que percebemos do mundo material há o mundo imaterial, de onde tudo nasce. A “Cidade invisível”, em um tom mais profundo, é essa que acontece e vibra para além da cidade que enxergamos. É nela que os mitos e personagens habitam e vivem, que interagem e participam do nosso mundo sem deixar serem notados. A todo momento a série nos leva por esse caminho e acabamos, por fim, nos identificando com Eric: inicialmente céticos, mergulhados em nossos dilemas materiais, não percebemos os movimentos e pistas dessa outra realidade. Aos poucos, entretanto, vamos despertando e tendo percepção de que a vida pode ser mais do que uma série de acasos.

Por fim, é importante compreendermos que a Realidade está para além dos nossos sentidos. Uma antiga frase diz que “não é porque não enxergamos que significa dizer que não existe”. Se levarmos isso em consideração, poderemos entender que nesse exato momento, aonde quer que estejamos, existem diversas ondas (de rádio, ultravioleta, etc) que estão passando por nós e não as vemos. De igual modo há milhares de microorganismos em nossa pele e ao nosso redor que não podemos enxergar. A vida não pode ser limitada apenas ao que nossos sentidos captam. 

“Cidade invisível” nos faz lembrar sobre essa importante lição, ao passo que resgata nossas raízes e nos reconecta com a cultura popular numa linguagem adulta. Os contos infantis, em que os personagens nos amedrontam, ficam de lado e ganham uma roupagem mais forte e mais próxima de suas histórias. Por tudo isso indicamos a série “Cidade Invisível.”

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