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O poeta árabe Khalil Gibran tem umas das definições mais belas sobre o trabalho. Para ele, “O trabalho é amor tornado visível”. Entretanto, apesar da poesia contida no verso de Gibran, esse não é um sentimento comum à maioria das pessoas. Cada vez mais percebemos que tanto jovens como adultos veem o trabalho como um sofrimento ou como um remédio amargo que é preciso tomar para manter-se vivo, afinal, nossa sobrevivência depende do quanto produzimos e aportamos com nosso trabalho para a sociedade.

Olhando desse ponto de vista, o amor fica realmente em segundo plano, uma vez que subjaz na rotina e no cansaço natural provocado pelo trabalho. Quando vivemos essa realidade e não aprofundamos no sentido de exercermos nossos ofícios, podemos nos sentir explorados, como se tivéssemos dedicando nossas vidas somente ao trabalho. Por consequência, esse sentimento negativo nos leva, com o tempo, a enxergar as horas de labor como perdidas, de infelicidade e que, naquele momento, não podemos nos realizar.

Você, meu caro leitor, já se sentiu assim? Não se preocupe com a resposta, pois hoje poderemos sair com uma percepção diferente acerca do que significa o trabalho. Para isso, indicaremos um filme chamado “Bee movie”. Lançado em 2007, o longa conta a história de uma abelha e nos leva a refletir um pouco sobre o sentido do trabalho e como enxergamos essa importante parte da nossa vida cotidiana.

Em parceria dos estúdios “DreamWorks” e “Paramount”, a animação retrata a história de uma pequena abelha operária chamada Barry. Após sair de sua faculdade, ela está destinada a trabalhar em uma fábrica de mel. Porém, a perspectiva de passar toda sua vida em um trabalho “comum”, em que seria explorada até seus últimos dias, a faz desistir da colmeia e viver fora dela. Ao longo de sua jornada, Barry vai percebendo os valores de sua atuação e verdadeira vocação, mas também os desafios que necessita enfrentar para compreender o sentido do trabalho que as abelhas e os humanos fazem. 

O filme nos faz pensar sobre os perigos de um trabalho alienante, onde executamos aquilo que nos é ordenado e não refletimos sobre sua importância, muito menos o nosso papel frente a ele. Hoje, infelizmente, ainda vemos essa realidade em diversas profissões, nas quais se cumpre jornadas de trabalho apenas pela obtenção de um recurso financeiro, sem refletir sobre o valor objetivo e subjetivo dele.

Quando falamos em “valor objetivo” estamos nos remetendo ao bem que todo trabalho gera para o coletivo ou para o público a quem está destinado esse trabalho. Um médico, por exemplo, pode enxergar o valor objetivo do seu trabalho nos pacientes que ajuda a curar, assim como um professor pode enxergar esse valor nos alunos que ensina, e assim por diante. Partindo dessa perspectiva, já podemos pensar o trabalho de uma maneira distinta, uma vez que já não faço meu serviço pensando somente nos bens que ele me trará, como o salário. Observando seu valor objetivo, ou seja, sua finalidade, podemos entendê-lo como uma ajuda a quem precisa, assim, não estamos apenas trabalhando para um chefe, ou para a nossa própria sobrevivência, mas estamos ajudando a servir a todos.

Essa perspectiva se apresenta cada vez mais rara nos dias atuais, mas é preciso resgatá-la, não apenas de forma teórica, mas também prática. É preciso que cada um de nós viva essa nova realidade frente aos nossos trabalhos, que podem ser inúmeros, mas sempre irão cumprir essa valiosa regra: o trabalho é sempre feito para o outro, não para nós mesmos. Se pensarmos sob essa ótica, a definição poética de Gibran começa a fazer muito mais sentido em nossa vida, não é verdade?

Pense em uma pessoa que você ama: um filho, os pais, um companheiro(a), um amigo(a). Nosso sentimento para com essas pessoas é sempre o de ajudar, não é verdade? Estamos prontos a sacrificar nossas horas, recursos, energia e, às vezes, até nossa própria vida para o bem dessas pessoas. A esse grau de sacrifício e entrega pelo outro, não por nós mesmos, chamamos de Amor. 

Neste sentido, o trabalho, em seu aspecto mais profundo, não deve ser feito pensando no quanto de dinheiro ganhamos, ou no status que uma profissão pode nos dar, mas sim em como podemos ajudar aos demais. Esse é o verdadeiro sacrifício, palavra que em latim nada mais é do que “ofício sagrado”. Atualmente, entendemos sacrifício como a morte de algo em nós, às vezes, feita em vão. Porém, sacrificar-se é, antes de tudo, dedicar aquilo que temos (seja nossas habilidades, nossos recursos ou nós mesmos) em prol de algo maior, que está para além dos nossos desejos mais egoístas. É, em última instância, a capacidade de viver o altruísmo. O Amor, portanto, nos leva ao sacrifício, que seria o verdadeiro sentido do trabalho.

Talvez essa visão do trabalho possa soar como religiosa, mas queremos deixar claro que não se trata disso. Ao falarmos de “sacro ofício”, por exemplo, remetemos ao que há de atemporal no mundo, aquilo que faz parte da nossa própria natureza humana. Sagrado, neste aspecto, é tudo aquilo que não está no tempo, que vence essa dimensão na qual estamos presos. Assim, sempre que dedicamos nossa vida sob o regime de princípios e ideias atemporais, estamos entrando nessa esfera do sagrado, pois o tempo não consegue alterar esses princípios.

Colocando mais uma vez em exemplos, imagine um médico que faz da sua profissão um verdadeiro ato de sacrifício. Ele entende o valor objetivo do seu trabalho e dedica-se a ele de maneira plena. Mesmo que as condições externas não sejam as melhores, ou seja, que seu local de trabalho não seja o mais adequado, que não seja bem remunerado, que as pessoas ao seu redor o julguem, ele não deixa de cumprir o seu papel. De igual modo, nas condições ideais, ele também segue executando seu trabalho da melhor maneira possível, pois não é o fato de ganhar muito ou pouco, ou ter a melhor equipe ou a pior, mas sim a sua posição interna que define a maneira da sua atuação.

Esse é o valor subjetivo do trabalho quando bem canalizado: a capacidade de cumprir o seu dever sem abalar-se pelo contexto em que vive. Sabemos que esse elemento interno, que define a maneira de atuarmos frente às situações que a vida nos impõe é tão importante quanto saber o valor objetivo que nosso trabalho possui. Por isso que, em síntese, o trabalho é, de fato, o Amor tornado visível. Pois é esse Amor pelo outro, esse sentimento de buscar ajudar as pessoas, que faz com que vençamos todas as barreiras que são colocadas em nosso caminho e que, como sabemos, não são poucas.

Ampliando um pouco mais nossa visão, podemos perceber que na natureza não há desperdício de energia. Como diria o químico Lavoisier, “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Nenhum processo da natureza está fora do lugar, todos ocupam uma função e exercem um “trabalho”. Se entendemos isso, podemos nos imaginar como parte dessa dança cósmica, pois também fazemos parte do mundo natural e cada um de nós tem um papel a cumprir. Entretanto, nosso papel não é necessariamente o que fazemos em nossas profissões. Nosso trabalho objetivo, no qual tanto falamos ao longo deste texto, é apenas uma parcela do nosso tempo enquanto seres humanos, mas não nos representa por completo. Na verdade, essa é apenas uma expressão de tantas outras que podemos assumir. Considerando isso, qual seria então nosso verdadeiro trabalho na natureza?

A resposta é simples em teoria e, como iremos perceber, difícil na prática. Em síntese, nosso verdadeiro trabalho perante o mundo é o de exercermos nossa natureza humana, que nada mais é do que aquilo que nos cabe ser. Assim como um pássaro não tenta ser um Ser Humano, nem muito menos outro animal, pois o que lhe cabe é ser pássaro, também os Seres Humanos deveriam compreender que devemos, em todos os momentos da nossa vida, viver sob essa mesma ideia, a de seguirmos a nossa natureza.

Precisaríamos de uma dezena de páginas para explicarmos o que significa “natureza humana”, mas vamos tentar resumir da seguinte maneira: natureza é aquilo que faz algo único, que somente você tem. Assim, por mais elementos comuns que tenhamos uns com os outros, há uma parte em nós que é intrinsecamente nossa, que nos diferencia de todos os demais, não é verdade? Assim, colocando essa mesma lógica para os seres da natureza, há algo nos humanos que os diferencia de todos os demais seres, sejam eles de origem mineral, vegetal ou animal. E o que seria esse diferencial dos Seres Humanos? 

A nossa autoconsciência, ou seja, a capacidade de usar a mente de maneira ampla, sabendo das causas e efeitos e podendo investigar, assim, as leis da natureza e a nós mesmos. Muitos Filósofos falam, em resumo, que nisto reside nossas virtudes: a capacidade de racionalmente viver o bem. Portanto, diferentemente das abelhas, que fazem seu trabalho do início ao fim da vida seguindo uma programação própria, nós podemos escolher como atuar. Por isso o trabalho, em seu sentido mais profundo, deve sempre ser visto como um ato de consciência e Amor para o outro, pois não podemos nos sacrificar pelo outro de modo automático, sem pensar. 

Visto isso, lembremos do nosso verdadeiro trabalho enquanto seres humanos: o de vivermos nossa própria natureza, fazendo com que todas as nossas virtudes estejam presentes em nosso trabalho, nossas famílias e em todos os ambientes. No fim, esse é o único e verdadeiro trabalho.

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