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Os livros com grandes histórias possuem a capacidade de nos transportar para mundos e épocas diferentes, nos fazendo sentir como os personagens e nos fazendo aprender com as suas jornadas. Assim acontece com o aclamado romance “As Brumas de Avalon”, de 1979, no qual  acompanhamos a sacerdotisa celta Morgana, e outras grandes mulheres do seu tempo, na tentativa de manter Avalon, um local Sagrado de conexão do Ser Humano com o mundo Espiritual. Este sempre manteve-se vivo nos corações de uma sociedade em profunda mudança, em tempos arturianos.

Para entender melhor esta narrativa é importante considerarmos que, apesar da escritora Marion Zimmer Bradley ter escrito um romance ficcional, quando se trata do Rei Arthur e dos Celtas, os fatos históricos e os mitos se misturam. Até hoje não se sabe ao certo se Arthur realmente existiu, ou se ele tinha uma irmã chamada Morgana ou se ele realmente se casou com a cristã Guinevere. Lancelot, Merlin, e tantos outros personagens bastante familiares para nós, não tem também suas reais veracidades confirmadas (Leiam mais sobre o Mito do Rei Arthur neste texto aqui do portal). Mas, alguns dados históricos vão nos situando no tempo e no espaço, de tal maneira que conseguimos entender um contexto onde todas estas histórias de grandes Jornadas Humanas surgiram.

Para a escritora, a ilha misteriosa envolta em brumas onde a tradição Celta se fundava, era herdeira direta de outra civilização ainda mais misteriosa, a Atlântida. Mantendo a tradição do Espiritual, com cultos a Deuses com atributos da realidade e um respeito às Leis da Natureza, Avalon era um local de contato do Ser Humano com o transcendente, com o que havia de mais elevado na própria Vida. Muito semelhante ao que podemos encontrar em diversas outras tradições da Humanidade, como Cuzco na América Latina, o Monte Olimpo para os gregos, Hastinapura no clássico hindu Baghavad Gita e em diversas outras histórias. Avalon nos remete a um arquétipo, a uma ideia primordial presente na consciência humana, a possibilidade de haver um lugar elevado, onde podemos nos posicionar e ver a Vida com todo o seu potencial de Bondade, Justiça e Sabedoria.

Possível localização atual de Avalon, Glastonbury, País de Gales

“A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon; o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos (…)” (Morgana, protagonista de “As Brumas de Avalon”)

Morgana Le Fay, Morgana a Fada, aparece em alguns relatos míticos como uma das 9 sacerdotisas da Deusa Ceridwen. Irmã de Arthur, ela nasceu em uma linhagem matrilinear de sacerdotisas de Avalon, sua mãe e tias fizeram votos à Deusa. Durante os 4 livros:  A Senhora da Magia, A Grande Rainha, O Gamo-Rei e O Prisioneiro da Árvore, vamos entrando em contato com as 4 fases da Deusa, associadas aos ciclos da lua, de forma que cada uma das personagens principais, Morgana, Igraine, uma de suas tias, Viviane, e sua outra tia Morgause, nas diversas circunstâncias, vão denotando características da Deusa anciã, da Deusa mãe, da Deusa virgem e a sua fase oculta, a destruição.

Para entendermos  um pouco melhor as brumas de Avalon devemos conhecer o mito de Ceridwen. Apesar dos poucos registros que temos sobre os Celtas, e da própria escritora não colocá-los nos livros, se diz que Ceridwen vivia no meio de um lago com dois filhos, um rapaz feio e uma moça linda. Como o filho não tinha Beleza, Ceridwen então preparou uma fórmula mágica para lhe dar a Virtude da Sabedoria, transformando-o no mais Sábio dos Seres Humanos. O jovem, chamado Gwion, ficou responsável pelo preparo da porção durante um ano e um dia, que consistia em um caldeirão fervendo com seis ervas diferentes. Um certo dia, mexendo a porção, uma gota cai na mão de Gwion e ele instintivamente começa a lambe-la. Assim, o jovem rapaz passa a ter muita Sabedoria, desvendando os Mistérios do passado, presente e futuro. Logo, ao perceber a ira que despertaria na Deusa, se transforma sucessivamente em coelho, peixe e pássaro para tentar escapar. A cada transformação, Ceridwen também se transformava e continuava perseguindo-o, até que ele virou um grão de milho e a Deusa o comeu. Terminada a perseguição, Ceridwen soube que estava grávida e logo concluiu que geraria o jovem engolido. Assim que ele nasceu, ela prontamente o atirou em um córrego, do qual ele foi resgatado, tornando-se o bardo Taliesin, um dos mais famosos desta tradição.

Cena do filme de 2001 mostrando a visão da deusa como aquilo que traz harmonia à vida.

Simbolicamente falando, o caldeirão, associado a Ceridwen, nos trás a ideia de um ventre que gera Vida, gera Sabedoria. Esta capacidade de gerar o que está no plano sutil trazendo para a Vida, para a concretude da matéria, é muito atrelada ao feminino, tão presente no panteão dos Deuses Celtas. A perseguição de Ceridwen ao jovem Gwion nos remete ao ciclo de encarnações, ideia que encontramos em diversas tradições da Humanidade. Tentando traduzir e trazer o mito para a nossa realidade, todos nós teríamos um lado profundo e espiritual que precisa passar por diversas experiências de vida, diversas encarnações, para através do aprendizado recolhido nessas experiências possa ir tomando consciência de si. Desta maneira, Gwion passa pela experiência de coelho, de peixe e de pássaro, para por fim, tornar-se uma semente de Vida que será gerada no útero da Deusa para reencarnar como um Sábio.

Partindo disso, viver em nome de Avalon era perceber o sentido profundo de tudo que acontece na Jornada Humana. Entendendo como uma oportunidade de caminhar em direção àquilo que é atemporal, mais relacionado com a Alma do que com a concretude da matéria. Morgana, que nesta versão da história aparece como uma sacerdotisa da Deusa Ceridwen, leva esta conexão do mundo material com o que é transcendente, para todos os lugares em que passa. Ela é sempre ponte ao longo da história, sacralizando tudo. Morgana mantém viva a conexão de Arthur com a cultura Celta, apesar da intensa cristianização do mundo em meados do séc. V e VI d.C. (Para saber um pouco mais sobre o povo Celta, você encontra no portal este texto aqui.)

Apesar da inspiradora mensagem, hoje em dia, a imagem mais comum de Morgana, ou até mesmo da Deusa Ceridwen, está associada à ideia de bruxa má, da mulher que utiliza o conhecimento para manipular os demais. Mas esta visão ganhou força ao longo da história, à medida que fomos nos desconectando do que é mais sutil na vida, desde Sentimentos e Virtudes, como o Amor, a Generosidade e a Pureza, até a potencialidade medicinal das plantas e a visão da Leis da Natureza. Nem tudo pode ser explicado pela nossa razão, mas nada nos impede de nos conectarmos profundamente com Verdades através da nossa Intuição. Há muito mais na vida do que aquilo que conseguimos alcançar com nossos sentidos físicos, e diversas tradições da Humanidade baseavam suas Sabedorias de Vida naquilo que podemos chamar de mais sutil, mais próprio da Alma Humana.

Agora que entendemos um pouco sobre a cultura Celta e a fonte de inspiração de Marion Zimmer Bradley, falaremos sobre a saga em si. Em “As brumas de Avalon” acompanhamos Morgana, e indiretamente Arthur, da infância até seus destinos derradeiros, sendo introduzidos nos Valores e Tradições daquela época. Morgana é aprendiz direta de sua tia Viviane, a senhora do lago, grã sacerdotisa de Avalon, e à medida que vai adentrando nos Mistérios do culto a Deusa, também vai nos mostrando os Valores daquele povo. Mas o romance se passa em um momento onde o cristianismo avança pela Bretanha e por isso, o paganismo, como passaram a ser chamados na história os ritos celtas, vão perdendo espaço para as novas crenças e formas de vida. Na corte de Arthur, o grande rei, ele precisa lidar não só com a pressão dos pagãos, que querem ver sua tradição valorizada, quanto dos cristãos, que pressionam para desvalidar as antigas tradições. Somado a isso, ele também precisa dar conta das invasões saxônicas que estavam ocorrendo. Neste contexto, as sacerdotisas de Avalon, juntamente com Merlim, o druída, tentam articular a sobrevivência do culto a Deusa, mas acabam por fim, percebendo que, tudo na vida tem seu ciclo de apogeu e declínio, até para que novos ciclos surjam.

Morgause, Morgana, Viviane e Igraine representadas aqui pelas atrizes do filme As brumas de Avalon de 2001

Esta grande obra de Marion Zimmer Bradley, não só nos conecta à riqueza da tradição Celta, mas também nos faz refletir sobre o ciclo natural de mudanças na vida e a nossa dificuldade de lidar com o diferente. Ao mesmo tempo que vamos, através do olhar de Morgana, sendo introduzidos nesta tradição tão esquecida e de poucas fontes que é a Celta, onde vamos aprendendo sobre suas cerimônias, sobre suas crenças, sobre o respeito a Natureza, sobre viver o Espiritual como centro da vida, vamos também nos deparando com o seu declínio, não só porque o mundo mudou e o cristianismo avança na Bretanha, mas também porque os próprios pagãos passam a não mais acreditar ou valorizar os cultos antigos. É uma reflexão profunda que podemos ter sobre o papel de cada um de nós na valorização de nossas tradições, de nossa cultura, daquilo que percebemos alguma validade do ponto de vista Humano. 

Símbolo celta Triskle, representação dos ciclos da vida

Tudo na vida é cíclico, esta é uma das grandes lições desta obra. E se estamos muito apegados às formas, deixamos de perceber que no continuar do fluxo da vida, as novas expressões podem muitas vezes, também trazer respostas Humanas para nossas vidas. Podemos refletir então que, acima de tudo, precisamos carregar dentro de nós a Essência, aquilo que de fato é importante, que carrega nossos Princípios, o nosso melhor. Preservando o essencial não sofreremos com as formas, pois entenderemos que nada do mundo físico é eterno e que a renovação se fará sempre necessária. 

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