É interessante como é universal para todos a comoção ao nos depararmos com histórias de superação. Parece que algo em nós vibra ao saber que um ser humano é capaz de enfrentar adversidades e superá-las quando impulsionado por um grande sonho. “Antonia: uma sinfonia” é uma dessas histórias que conta a trajetória da primeira maestrina: Antonia Brico. O sonho dela evidencia o quanto todos somos capazes de enfrentar a sociedade, ultrapassar o senso comum, superar nossos próprios limites e realizar aquilo que é o chamado da nossa alma,  independente do sexo, cor ou raça. 

O filme, atualmente disponível no serviço de streaming da Netflix, começa mostrando Antonia na sua juventude, antes mesmo de começar a trilhar um caminho tradicional para se tornar musicista. Percebemos nas cenas iniciais que seu amor e empenho para se aprofundar na música supera a falta de oportunidades que ela teve na vida. Vindo de uma família sem recursos que acabava de chegar em Nova York, na época da grande depressão, com a promessa de que mudaria de vida na terra das grandes oportunidades. Mas não foi bem assim para a moça. Todas as portas que ela abria se fechavam, mesmo percebendo um talento natural. Mas a justificativa para a rejeição era devido ao fato de ela ser mulher.    

Antonia tinha uma personalidade forte, teimosa, atrevida e até insolente, o que a ajudou, sem sombra de dúvidas, a encarar os ditames da sociedade da época, cheia de preconceitos. Só os homens tinham a oportunidade de tocar numa orquestra, de estudar música, ou mesmo de terem seus talentos reconhecidos. A mulher deveria cuidar do lar e qualquer uma que almejasse sonhar algo diferente, logo era aconselhada a voltar para o seu devido lugar. No filme, o preconceito da sociedade para com as mulheres é retratado não só por conta da dificuldade de Antonia em receber aulas para ser maestrina, como também porque ela era muito assediada. Porém, como os assédios nunca eram correspondidos de sua parte, ela seguia sendo prejudicada. 

Todos nós passamos por dificuldades na vida. As pedras no caminho fazem parte da vida. O que mais nos inspira na trajetória de Antônia é que todas as dificuldades que ela teve foram degraus e patamares que depois de ultrapassados, tornaram-na o ícone que ela é até hoje. Ou seja, nós podemos escolher entre ver as situações adversas como empecilhos para chegar aonde queremos, ou como impulsionadores que nos fazem ser melhores e crescer, e por isso criar internamente as virtudes necessárias para realizar nossos sonhos. Assim foi com Antonia. 

Um filósofo Romano chamado Epicteto, que inclusive foi um escravo em seu tempo e por isso também enfrentou muitas circunstâncias adversas, nos ensinou que os fatos da vida são neutros, nós é que os interpretamos conforme nossa consciência. Eles podem nos impactar negativamente ou podem nos fazer virar importantes chaves sobre nós mesmos e sobre a vida de tal maneira que sairíamos deles seres humanos melhores. Antonia é um bom exemplo desse ensinamento de Epicteto. Ela nos mostra o quanto cada negativa, cada infortúnio se transformou em um aliado na construção do seu caminho para se tornar Maestrina.

O filme nos ensina também sobre as virtudes da constância e da persistência. Um outro grande filósofo, agora da tradição oriental, Confúcio, disse uma frase que é bastante válida para refletirmos sobre esse tema: “Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.” Ou seja, é de pequenos passos que uma grande jornada é feita. Vemos em todo o filme o quanto Antonia nunca titubeou sobre aonde queria chegar, qual a direção que deveria seguir sua vida. Essa é a virtude da constância. Podemos não saber as pedras que enfrentaremos no caminho. Muitas vezes, teremos que rever a rota, mas precisamos ter sempre em vista o ponto de chegada, o rumo, o alvo. Assim, ciente de quem é, e para onde queria ir, Antonia sempre foi dando passos, superando os obstáculos e adaptando-se às circunstâncias. Essa é a virtude da persistência: sempre caminhar, nunca se deter. E assim, aos poucos, a música foi preenchendo sua vida.

De fato, somos todos diferentes. Não são todas as pessoas que se sentem tocadas pela música clássica como Antonia, alguns são menos outros são mais, cada um à sua maneira. Algumas pessoas até sentem uma vibração profunda com a arte, mas não necessariamente terão uma inclinação para tocar, ou para desenvolver uma técnica. O que é bonito na vida é essa pluralidade que é tão bem manifestada numa orquestra. Cada um dos instrumentos tem sua peculiaridade, tem seu som, suas notas, sua partitura. Cada um tem o seu papel dentro da composição. Pois assim é cada ser humano. Todos nós temos um papel a cumprir nessa grande orquestra da vida, algo de tão singular, de tão nosso que se faltar algo, a vida não fica completa, a canção fica inacabada. 

Antonia buscou durante toda sua vida cumprir seu papel, de seguir os ditames do seu coração, sua verdadeira vocação. O fato dela ser mulher numa época em que se julgava as pessoas pelo sexo e não pelos fatores humanos, fez de Antonia uma visionária. Ao seguir seus valores, ao seguir seus sonhos mais elevados, ao dar ouvidos a sua vontade mais interna, Antonia acabou por abrir espaço para que a música não fosse restrita ao sexo, mas sim fosse próprio da alma humana.

Continuando essa mesma analogia da orquestra com a vida, interessante esse papel de Maestrinas e Maestros Sem eles, não há ponto de união entre os músicos, pois cada instrumento toca a sua própria canção. O papel do regente e condutor é justamente unir os diversos sons, os diversos instrumentos de forma tão harmônica para que dali saia uma única canção, uma única obra de arte. Assim percebemos que a trajetória de Antonia não foi só uma conquista individual, ela precisou conquistar a confiança dos demais músicos para que seu sonho se realizasse. Percebemos as consequências dessa falta de aceitação dos outros músicos na orquestra, quando Antonia tenta harmonizar os sons e não consegue, pois os outros participantes a rejeitam. Ao mesmo tempo, é necessário ao regente muito domínio sobre seu ofício e sobre o ofício dos demais, pois é só dessa forma que ele consegue harmonizar tantas diferenças.

O Maestro e a Maestrina de uma orquestra são a figura central, pela capacidade de unir tantas diferenças numa só melodia, e assim podemos perceber na vida.  Na nossa família, sempre tem aquela avó que é respeitada por todos, ou na nossa vizinhança, há aquele senhor que todos procuram para entender e resolver algumas situações mais complexas. Ou mesmo alguns professores, mestres, que tivemos ao longo da vida e que foram fator de transformação, pois nos ensinaram coisas que estavam além do conhecimento ordinário. Vemos Antonia com tanto amor pela música e pela trajetória de abrir espaço para aqueles que eram marginalizados, que tudo isso vai lhe dando força e inspiração.

Antonia Brico da vida real

A história da primeira Maestrina, a holandesa Antonia Brico, nos inspira porque na verdade todos nós queremos empreender a nossa própria trajetória de superação e realização. Todos nós queremos agir em nome de nossas vocações e deixar nosso recado no mundo. Todos nós queremos ser heróis ou heroínas de nós mesmos. Não necessariamente enfrentando dragões, monstros marinhos ou, como ela, toda uma sociedade e seus costumes ultrapassados, mas queremos enfrentar a nossa batalha diária, vencendo nossa preguiça, nossa alienação, nosso egoísmo, imprimindo por fim, em tudo que fazemos, nossos valores e ideais de mundo.

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