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A educação pode transformar um Ser Humano. Repetimos essa frase diversas vezes ao longo da vida, mas será que a entendemos verdadeiramente? Achamos, talvez, que a educação esteja ligada apenas a ir à escola, passar de ano, chegar até uma faculdade e se formar em algum curso. De acordo com essa visão de mundo, o processo educacional se encerra à medida que chegamos aos mais altos graus de titulação, tanto que falamos que estamos “formados”. Mas será que isso está correto?

Se buscarmos a raiz da palavra educação, chegaremos a um conceito um pouco distinto da visão atual. Advinda do latim educare, que significa “eduzir”, a educação estaria ligada a uma série de princípios e formas de obter conhecimento para extrair do ser humano a sua melhor expressão, que está guardada dentro de si. Nesse sentido, educar está diretamente ligado aos valores que devemos cultuar, e não necessariamente a uma série de técnicas e conhecimentos específicos. 

Partindo desse princípio, o que seria de fato educar? Como podemos diferenciar uma pessoa educada de uma pessoa instruída, aquela que possui um grau de instrução técnica? Para chegar a essa questão, podemos começar pensando sobre o próprio ato de educar. O ato de educar está, antes de tudo, em sintetizar lições e aprendizados que a Vida nos impõe. É a semente que, quando plantada em um Ser Humano, faz germinar as mais belas qualidades e capacidades de sua natureza. Aqui, forma-se a figura do “mestre” ou do “professor”, aquele que ao aprender sobre si mesmo e eduzir sua melhor parte, pode agora ensinar os outros que ainda não conhecem essa verdade a plantar a semente da sabedoria. 

E qual a idade adequada para isso? Geralmente, pensamos a educação em um período infantil, em que estamos formando nossas ideias acerca do mundo e, em geral, pensamos que ao estarmos “formados” – ou seja, adultos e vivendo outras experiências como o trabalho –, já não necessitamos da educação propriamente dita. Porém, lembremos que estamos pensando em um conceito clássico de educação; logo, existe uma idade “limite” para esse processo de eduzir o melhor de nós mesmos? Evidentemente que não.

É disso que trata “Uma lição de vida”, filme de 2010 que conta a história real de Kimani Maruge, um queniano que decide aprender a ler e escrever, aos 84 anos. Após uma decisão do governo queniano, anunciando que seria ofertada educação para todos, Maruge decide ingressar em seus estudos formais. A decisão choca a população, afinal de contas, o que um homem octogenário iria fazer ao aprender a ler e escrever? Apesar do preconceito enfrentado por parte da sociedade, uma professora o aceita em sua sala de aula e começa a ensiná-lo, tal qual outro aluno qualquer. Maruge vai revelando, ao longo do filme, sua motivação e história, a qual se mistura com a própria história do Quênia. O filme narra as disputas políticas ocorridas no país, assim como a luta pela independência do Quênia e como estes fatos marcaram a Vida de Maruge.

Kimani Maruge, apesar das dificuldades, nos mostra de forma exemplar que nossa formação está para além de aprender habilidades como ler e escrever. É evidente que o motor do protagonista não é a habilidade técnica, mas sim uma necessidade interior, capaz de fazê-lo superar os preconceitos com sua idade, sua história e revelar o potencial intrínseco do ser humano. Afirmamos isso porque somos movidos pela busca do conhecimento, e isso nasce das mais distintas formas. Desde a curiosidade sobre algo desconhecido até o impulso que nos leva a mergulhar no universo alheio, todas essas formas são maneiras que buscamos de encontrar a nós mesmos. Assim, o que move Kimani está muito além de uma necessidade de escrever, mas é uma busca pelo potencial humano, que pode florescer em qualquer etapa da vida, não importa o contexto ou o lugar em que está inserido.

É importante salientar que é inegável que a educação técnica tal qual a conhecemos é fundamental para a nossa sociedade atual. Devemos desenvolver cada vez mais nossas capacidades nesse aspecto; porém, isso não significa que devemos perder de vista a formação dos valores humanos e, principalmente, a capacidade de encontrar nosso verdadeiro “eu” em meio a tantos estímulos ao nosso redor. 

Como podemos ver, a motivação de Maruge é muito mais profunda, afinal, ele estuda porque deseja ser capaz de ler uma carta que foi deixada para ele. Nesse caso, Maruge tem um propósito definido, o que muitas vezes não é o nosso caso quando resolvemos aprender algo novo. A habilidade é um meio para chegar a uma finalidade, não é a finalidade em si. Além disso, a determinação e persistência do queniano nos leva a refletir sobre nós mesmos: pelo que nos esforçamos a aprender?  

Em geral, nosso estímulo em relação à educação está diretamente ligado ao mundo do trabalho. Aprimoramos nossos conhecimentos somente para conseguir empregos melhores, que nos dão status e que elevam nossa condição financeira. Nesse sentido, é raro a busca de conhecimento motivada por uma razão nobre ou verdadeiramente humana. Ao contrário disso, o grande fator motivador é a sobrevivência através da obtenção de recursos em troca da nossa força de trabalho. Talvez seja por isso que a sociedade atual veja o trabalho como um castigo, uma verdadeira tortura à qual somos submetidos para ganhar nosso “pão de cada dia”. Mas o trabalho não deveria ser encarado dessa maneira, afinal, o ser humano também busca naturalmente exercer as atividades que lhe apetece e estas são, em geral, produtivas para o bem comum. 

Esse é um fator que também chama atenção quando acompanhamos a trajetória de Kimani. Ele não está desenvolvendo seus estudos por uma questão financeira, afinal, já é um idoso e pouco pode oferecer nesse aspecto. Sua motivação é finalmente fechar o seu ciclo, compreender uma mensagem que há muito precisa, já que não pôde fazer isso antes por não ter as ferramentas adequadas. A partir do momento em que lhe é possível, o Sr. Kimani percorre sua própria jornada para alcançar seu objetivo. Assim, a educação se converte em sua verdadeira finalidade: ser um instrumento na construção do ser humano. Diante disso, podemos afirmar que a vida deste senhor é um verdadeiro exemplo de como uma Virtude pode nos guiar para alcançar nossos objetivos.

Diante de tudo isso, a história de Kimani Maruge chamou atenção do mundo e ele se tornou símbolo de uma educação verdadeiramente universal: sem distinção de idade, gênero, etnia ou religião. Ele foi convidado para discursar na sede da ONU em Nova Iorque e, em 2009, veio a falecer por causa de um câncer, porém, até seus últimos dias, não desistiu de estudar. Por ser um exemplo de Persistência e de Força de Vontade, por ensinar que ninguém é velho quando se tem uma Alma jovem e por mostrar a educação como caminho para a Liberdade dos indivíduos, nós indicamos o filme “Uma lição de vida” – você também pode encontrá-lo com o título “O aluno”. Não perca a oportunidade de se inspirar com esta bela obra!

Sobre esse assunto preparamos um Podcast especial para você! E você pode escutar esse e mais outros temas aqui mesmo na nossa página, ou através da nossa Playlist de Podcast no Spotify.

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