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A memória é um dos elementos mais importantes dentro da nossa psique. É inimaginável para nós, seres humanos, viver sem memória, pois o passado é mais do que uma marca do tempo e abrange aspectos que perpassam a nossa relação enquanto indivíduo, sociedade e humanidade. Para deixarmos claro, é graças à memória e ao uso desta que somos capazes de aprender, construir e passar, de geração em geração, diversos conhecimentos adquiridos através do acúmulo de nossas experiências. Sendo assim, podemos afirmar que para gerar compreensão e tornar o ser humano consciente, é fundamental que tenhamos algum tipo de memória.

Podemos observar, por exemplo, em casos de pacientes com Alzheimer, que mesmo o avanço da enfermidade não tira de certas pessoas a memória – seja muscular ou intuitiva – de algo que viveu fortemente. Desse modo, uma bailarina que dedicou diversas décadas de sua vida à arte do ballet pode, mesmo em um grau avançado de perda de memória, recordar-se dos movimentos sutis feitos em uma apresentação. O aprendizado se tornou tão vivo e consciente que mesmo a doença não a incapacitou totalmente. Logo, a memória talvez seja apenas um caminho para a consciência dando-nos a chance de evoluir.

Mas o que acontece ao perdermos nossas memórias? Essa é uma resposta difícil e dolorosa, pois podemos observar em alguns casos que, de fato, nos tornamos praticamente uma página em branco, prontos para um novo aprendizado. Porém, em geral, não conseguimos fixar nenhuma lembrança e o que aprendemos hoje é apagado, não restando “nada”. Contudo, numa situação assim, será que nos tornaremos mais inconscientes do que antes? O filme espanhol de María Ripoll mostra o contrário.

“Viver Duas Vezes” retrata a história de Emílio, um professor aposentado de matemática de uma universidade, que é diagnosticado com Alzheimer. Enquanto lida com a forte notícia, Emílio ainda se envolve, sem querer, com o drama familiar de sua filha e de sua neta, de quem tentava fugir por anos a fio.

Quando o professor começa a aceitar sua doença, se dá conta de que irá esquecer de memórias importantes guardadas com todo o segredo em seu coração. E seu esquecimento em potencial é o motivo para ir atrás de um fechamento para suas experiências do passado, mesmo tendo fugido delas por tanto tempo. “Viver duas vezes” nos ensina que o que mais trouxe consciência e ação para Emílio foi o Alzheimer, pois essa doença o conduziu até as respostas de que precisava e o reaproximou de sua família.

Um leitor atento, porém, poderá se perguntar: mas qual o sentido de “resolver” tais questões se, no fim, ele esquecerá de tudo? Aqui, encontra-se uma importante diferença entre a memória e a consciência. Como falamos, a memória é apenas o meio, o caminho para se chegar à consciência. Podemos esquecer os números de telefone, os fatos, até mesmo questões técnicas que outrora nos foram tão caras; mas os sentimentos, os impactos em nossa alma e, acima de tudo, a relação entre nós e as demais pessoas não são afetados pelo tempo, nem mesmo pelo esquecimento. Portanto, podemos não lembrar o nome de um ente querido, mas certamente percebemos, pelo carinho e afeto, o valor dessa pessoa para conosco e vice-versa.

Na sabedoria oriental, entende-se que a evolução humana não se dá através de um melhoramento físico ou genético, mas, sim, por meio da consciência. À medida que desenvolvemos esse aspecto atemporal, que guarda em si as pérolas preciosas de nossas experiências, avançamos em direção ao cumprimento do nosso destino. Nesse sentido, podemos entender que o esforço de Emílio não é em vão, pois mesmo que, de forma prática, a doença acabe levando de si todos os seus conhecimentos, a consciência adquirida por meio da vivência lúcida do seu aspecto mais humano supera, em si, a enfermidade.

Além de trazer um assunto tão importante, o filme consegue mesclar com perícia o drama com bom humor, fazendo-nos refletir e dar boas risadas ao mesmo tempo. Nesse sentido, “Viver Duas Vezes” é um filme raro, que leva com gentileza o espectador a refletir sobre sua própria vida. Ao sentir o drama de Emílio somos impelidos a pensar sobre como estão nossas relações familiares, o quanto nos acomodamos com algumas condutas, o quanto negligenciamos os problemas e o quanto deixamos “pra lá” as questões pendentes.

Em geral, tomamos essas atitudes por, justamente, uma falta de consciência. Consideramos que a vida é longa, que temos todo o tempo do mundo e que, a rigor, sempre haverá um “amanhã” para compensar as faltas que cometemos ao longo do caminho. Não se trata de nos culpar pelo que fizemos, mas, sim, de aprender a nos redimir pelas ausências e vazios que deixamos em nossas relações.

Além disso tudo, o filme também nos mostra de uma forma muito bonita o impacto que o amor pode causar num ser humano, e ensina também que, por mais que a nossa memória sofra, alguns momentos nunca se apagarão, pois sempre deixarão suas marcas em nossos corações. Desse modo, o filme dialoga com a sabedoria oriental, que nos fala da atemporalidade da consciência.

Por fim, é fundamental entender que a memória é, antes de tudo, uma ferramenta da nossa psique. E como toda ferramenta, podemos utilizá-la corretamente ou incorretamente. De nada adianta termos uma excelente memória se apenas retermos os traumas, as nostalgias e eventos que, de maneira objetiva, não nos levam ao crescimento espiritual. Devemos, portanto, aprender que a memória é crucial em nossa existência, e disso já não temos dúvida, porém, cabe entender a sua correta utilização para que ela seja o verdadeiro caminho de aprendizado com o nosso passado e não um fardo que nos sentimos na obrigação de carregar.

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