Quem não gosta de chocolate, não é mesmo? Esse alimento está presente em nossa vida cotidiana de modo tão intenso que é difícil encontrar uma pessoa que resista aos seus encantos. Tanto que há diversas ocasiões em que nos presenteamos uns aos outros com chocolate, seja em comemorações como a Páscoa ou mesmo em situações mais comuns como o aniversário de alguém ou simplesmente a comemoração de uma data especial.

Talvez, por essa forte inserção no nosso cotidiano, o chocolate seja usado como uma boa metáfora para explicar os nossos desejos. Sobre essa temática não há uma obra mais fidedigna do que “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, um filme com uma estética infantil, mas que guarda uma mensagem grandiosa sobre o ser humano e sua eterna batalha entre os seus vícios e virtudes. Esse será, portanto, o filme que falaremos hoje em nosso texto.

A história do filme foi retirada de um livro que foi publicado em 1964 por um escritor britânico chamado Roald Dahl. Ele tinha 46 anos quando escreveu essa obra e já tinha vivido bastante experiências, pois havia servido como piloto durante a II Guerra Mundial na Força Expedicionária Britânica, e já tinha escrito outros livros. Mas o conteúdo desse livro em especial, que recebeu o título original Charlie and the Chocolate Factory, impactou bastante os leitores da época, de modo que em 1971 foi adaptado para o cinema pelo diretor Mel Stuart e se tornou um clássico. Em 2005 a história recebeu uma nova adaptação do diretor Tim Burton, o qual foi lançado no Brasil com o título A Fantástica Fábrica de Chocolate. O filme recebeu várias indicações para prêmios como o Grammy, BAFTA, Globo de Ouro e o Oscar.

Mas o que essa história tem de especial que impacta tanto?

Vamos fazer um resumo e refletir um pouco sobre os significados da narrativa. Infelizmente, tentaremos não dar spoilers sobre o filme, mas deixamos avisados que é provável que você receba alguma informação que “entregue” o desfecho do filme. 

Agora que estamos avisados, vamos ao resumo do filme. A história gira em torno de uma enorme fábrica de chocolates que parece mais com um mundo fantástico, como um parque da Disney. O dono da fábrica é Willy Wonka, e no filme de 2005 esse personagem é interpretado pelo ator Johnny Depp. Wonka é excêntrico, neurótico e desequilibrado; e esse traço da sua personalidade é insinuado como decorrente de traumas na infância, resultante da sua criação por um pai castrador. 

Willy Wonka dedicou sua vida à fábrica de chocolate, e seu produto especial, o chocolate Wonka, é consumido por toda a Terra, sendo um verdadeiro sucesso. Entretanto, Willy começa a perceber que não deixará um herdeiro da fábrica, pois nunca se casou e nem teve filhos. Essa visão o atormenta, afinal, todo o seu esforço seria jogado fora quando partisse, e esse seria o fim do chocolate Wonka. 

Surge então uma brilhante ideia: fazer um concurso para saber quem deve ser o novo herdeiro da fábrica. Wonka, então, lança um desafio mundial: cinco bilhetes dourados serão colocados em um grande lote dos chocolates, e aqueles que encontrarem esses bilhetes poderão visitar a fábrica e concorrer ao cargo de dono da empresa, ou seja, tomar o lugar de Willy Wonka como sucessor. 

Lançado o desafio, cinco crianças conseguem o famoso bilhete dourado. Cada uma delas o consegue de uma forma distinta: enquanto um dos garotos, por exemplo, devora caixas e caixas do chocolate Wonka para encontrar o bilhete dourado, outra criança utiliza sua riqueza para comprar milhares de unidades até encontrar o tão sonhado prêmio. Entre elas, porém, há Charlie Bucket, um garoto humilde que vive com seus pais e seus avós. Bucket adora o chocolate Wonka, mas sem ter condições de comprar milhares de caixas até encontrar o bilhete dourado, o jovem se contenta com uma única barra, que sempre ganha no seu aniversário. Por “acaso”, essa única barra contém o “ticket” para visitar a fábrica, e assim o humilde Charlie passa a ser um dos concorrentes a herdeiro do império criado por Willy Wonka. 

É interessante notar ao longo do filme que o contraponto a Wonka é Charlie Bucket. Enquanto o dono da fábrica é excêntrico e pensa muito em si mesmo, no seu legado e como fará para seu nome continuar sendo famoso ao redor do mundo, Bucket é simplesmente uma pessoa humilde, que não busca muito mais do que o necessário e tem como meta ajudar sua família a conseguir uma condição de vida mais digna.

A diferença entre os dois personagens não é mero acaso. Na verdade, todos os outros personagens têm desejos e ambições egoístas quando se trata da fábrica: enquanto Wonka quer dar continuidade ao seu império, cada garoto também deseja para si ter o controle da fábrica ao seu bel prazer. Apenas Bucket tem como objetivo ajudar outras pessoas, no caso a sua família. Além disso, o autor traz a problemática da sociedade humana para dentro dessa história. Ao falar de fábrica e de chocolate, o filme está tratando de sistema econômico, sustento, prazer e consumo. E ao envolver as crianças na narrativa, ele está falando do futuro desse sistema social.

A primeira criança que ganha o convite premiado é o Augustus Gloop, um garoto alemão que come várias barras de chocolate por dia. Nesse personagem está representado um padrão de comportamento baseado no consumo exacerbado de alimentos prontos, destinados apenas ao prazer. Dentro da fábrica, esse garoto é o primeiro a sucumbir em um acidente. O autor está tentando demonstrar o quanto é débil e frágil esse padrão comportamental, de um sistema social que se nutre da circulação massiva de alimentos sem nutrientes e que só servem para saturar o paladar.

Quem de nós nunca viveu esse personagem? Ao se deixar levar pelos prazeres – nesse caso, o da gula – acabamos reféns do prazer e saímos, quase sempre, do nosso controle. Muitas vezes acabamos afogados em nossos próprios prazeres, e isso é o motivo de muitas crises que passamos na vida. Esse também é o motivo que faz Augustus perder sua chance de se tornar o novo Willy Wonka.

Já a segunda criança a receber o convite premiado é a inglesa Veruca Salt, ela é filha de um empresário que dá tudo o que ela pede. Esse padrão está associado a um sistema social inerte, parasita, que não conquista, mas usufrui de uma conquista alheia, anterior a si mesmo. Essa garota também é vencida em um acidente na fábrica. Nesse sentido, o autor mostra o quanto esse padrão também é frágil e sucumbe rapidamente. Ou seja, uma sociedade onde as pessoas buscam muitos direitos e não se preocupam com os deveres é insustentável.

Assim, Veruca Salt representa nossa vaidade e fragilidade frente às necessidades do mundo. Nosso desejo de receber tudo de forma “fácil” e não ter o mérito por nossas conquistas nos torna pessoas sem a capacidade necessária para enfrentar os desafios da vida. Devido a esse tipo de comportamento, acabamos gerando uma sociedade dependente e que, em momentos de crise, facilmente perderá o controle, tanto individualmente como coletivamente.

A terceira criança premiada foi Violet Beauregarde. Ela é esportista; com apenas dez anos, tem mais de duzentos troféus e medalhas; e é recordista mundial em mascar chiclete. Nesse personagem o autor imprime um sistema social que elege a futilidade como um troféu. Além de querer sempre ser o primeiro lugar, a qualquer custo, gaba-se de conquistas sem verdadeira importância, mas que só alimentam a sua competitividade. Essa criança também sucumbe em um acidente na fábrica.

Violet é a encarnação da competitividade, talvez um dos princípios mais basilares de nossa sociedade moderna. Somos feitos para competir uns com os outros, para sermos os melhores, para vencermos a qualquer preço; e isso, a nível social, causa um grande prejuízo em nossa forma de viver. Não conseguimos ajudar o outro de forma altruísta, queremos sempre competir para sermos os melhores, estarmos no “topo”, e por isso ficamos tristes quando alguém ganha mais destaque do que nós mesmos. Essa visão competitiva do mundo nos transforma em seres egoístas em sua pior faceta, pois alimentamos assim a inveja, a ganância e extinguimos o pensamento de cooperação entre nós mesmos.

Seguindo com os personagens do filme, Mike Teavee é o quarto garoto a ganhar o prêmio. Ele é soberbo, sente-se superior a todos os outros garotos, é prepotente e odioso, e é viciado em televisão e jogos eletrônicos. Ele também sofre um acidente na fábrica e sucumbe. Teavee é a representação da compulsão por tecnologia e da decorrente desumanização em função do egoísmo e do individualismo.

Nessas crianças, símbolo do futuro da humanidade, Roald Dahl imprime um alerta a um futuro social onde o egoísmo, a superficialidade e a desumanização se tornarão a tônica mestra – talvez já tenham se tornado. E esses traços são autodestrutivos. O fato de ele ver isso nas crianças, aponta para as falhas na educação infantil como o motor dessa autodestruição gradativa.

Charlie Bucket representa o padrão ideal de comportamento, o único que não sucumbe à grande engrenagem da vida social, representada pela fábrica. Willy Wonka, a mentalidade por trás de toda a engrenagem, quer Charlie Bucket para si e testa o garoto para tentar corromper o seu espírito, mas sem sucesso. Bucket sabe lidar com os problemas sendo fiel a seus princípios, por isso ele é o padrão ideal. 

Todos esses detalhes são simbólicos. A mentalidade geradora de todo o caos social em que nos encontramos é resultante de um conflito interno, alimentado por nossos desejos, angústias e medos. 

Nos tempos modernos, isso nos trouxe novos paradigmas, geradores de novas relações entre o homem e a natureza, entre o homem e o sagrado, entre o homem e a tradição. Hoje, em pleno século XXI, percebemos o quanto esse divórcio com o mundo antigo tem nos lançado em um caminho tenebroso. O garoto Charlie nos mostra que a nossa fortaleza está em nossa formação de caráter e não em riqueza, tecnologia ou lazer. Isso era o que tornava Charlie vencedor. As outras crianças tropeçam em seus próprios vícios, mas a virtude de Charlie o leva à vitória.

A Fantástica Fábrica de Chocolate é uma reflexão profunda sobre moral, psicanálise e sociologia. O autor se debruça de maneira lúdica sobre aspectos sutis da falência do sistema social em que vivia e em que hoje só confirmamos a tendência de autodestruição. Que esse filme, mais que uma mera produção cinematográfica, nos sirva de convite premiado para o caminho moral de Charlie Bucket.

Sobre esse assunto preparamos um Podcast especial para você! E você pode escutar esse e mais outros temas aqui mesmo na nossa página, ou através da nossa Playlist de Podcast no Spotify.

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