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Quantas vidas podemos viver? Essa é uma pergunta simples e que, a priori, podemos responder de forma igualmente simples: só podemos viver a vida que temos. Há quem diga, porém, que em uma só vida podemos criar outras inúmeras vidas, ou seja, que a cada momento podemos nos reinventar. Sendo assim, o que estamos chamando de “vida” nada mais é do que os diferentes papéis sociais que assumimos ao longo da existência, Ora somos pais, ora somos filhos, profissionais dedicados e tantos outros papéis que podemos perder de vista.

“Tal pai, Tal filha”, filme lançado pela Netflix em 2018, retrata essa perspectiva de forma única. De maneira despretensiosa, o longa apresenta a nós seus personagens e faz com que aos poucos nos identifiquemos com seus dilemas.

O filme conta a história de uma jovem executiva de Nova Iorque, Rachel, devotada ao trabalho mais do que qualquer outra coisa. A história começa, para nós, na cerimônia de seu casamento, que termina de maneira infeliz quando seu noivo, Owen, decide deixá-la no altar, ao perceber que não poderia competir com o comportamento workaholic de sua futura esposa, quando a vê derrubando seu celular, escondido dentro do buquê. O relacionamento mais importante desse filme não é, entretanto, o do casal. Em meio aos convidados, Rachel vê seu pai, Harry, que foi ausente em sua vida quase inteira. Naquela mesma noite, Harry tenta se reaproximar da filha, e ambos  acabam bêbados a bordo do cruzeiro que levaria Rachel e Owen em lua de mel. Sóbria, Rachel recorda de tudo que sentia por seu pai, por tê-la abandonado ainda criança. Como o navio já havia zarpado e não havia outros quartos disponíveis, eles são forçados a conviver pelos próximos dias.

Apesar da inusitada situação, própria da liberdade poética dos filmes, “Tal pai, Tal filha” nos leva a refletir sobre como diversas vezes nossas relações são fragilizadas devido à distância, ao tempo e a outra série de rupturas. Ao falar da relação de Rachel e Harry, o filme nos convida a pensar em nossas próprias relações familiares que, por vezes, podem estar abaladas de maneira similar à relação dos personagens. 

Quem de nós, por exemplo, não carrega cicatrizes da infância? Momentos que nos traumatizaram e criaram em nós uma mágoa que ainda hoje tem reflexos em nossa forma de tratar nossos entes queridos? Talvez não tenhamos sido abandonados por nossos pais, ou mesmo sentido suas ausências, mas é comum termos outros problemas, seja entre pais e filhos ou demais familiares, que se arrastam pela nossa vida adulta e não sabemos exatamente como resolvê-los. Assim, essas mágoas são levadas por anos, décadas e, às vezes, chegamos ao fim de nossas vidas sem conseguir resolvê-las.

Voltando para a narrativa do filme, durante a viagem, eles conhecem um grupo de casais em lua de mel, do qual fariam parte Rachel e Owen, se de fato tivessem se casado. Cada casal está em um estágio da vida e um contexto diferente. Um casal de idosos que comemoram suas bodas como se fossem recém-casados, outro casal que já havia se divorciado de outras pessoas etc. A viagem mostra para Rachel o quão apegada ela é ao seu senso de competitividade e busca constante por conquistas, vivendo sua vida para o trabalho e não para as pessoas que a cercam e a amam. O passeio também mostra que Harry não é tão diferente de sua filha, mas que talvez não seja tarde demais para mudar.

O contato com outros casais vivendo momentos de vida distintos faz o pai e a filha refletirem sobre como estão criando seus laços a partir do que construíram para si mesmos ao longo do tempo. Notar a necessidade de mudança e equilibrar os diferentes aspectos de sua vida são pontos fundamentais sobre os quais o filme nos faz pensar a partir dos desfechos de Rachel e Harry. Quantas vezes nós mesmos acabamos sacrificando nossa saúde, relações sociais e outros aspectos da vida apenas por buscar acumular mais trabalho e renda? Muitas vezes acreditamos na “fantasia” de que o dinheiro nos fará felizes; e se nos esforçamos para produzir três, quatro ou dez vezes mais que o normal, seremos pessoas realizadas. De fato, ter uma conta bancária alta é satisfatório, pois isso é fruto de um trabalho bem feito. Também é real que o dinheiro nos possibilita uma série de facilidades e prazeres ao longo da vida. Entretanto, o afeto não pode ser comprado com dinheiro. O amor, a amizade, a generosidade e demais virtudes não podem ser encontradas no supermercado, e isso só se constrói a partir de uma convivência harmônica entre as pessoas.

No fim, o valor mais importante que devemos cultivar está nas virtudes. Mesmo que o mundo hoje nos ensine o contrário, não há nada superior à verdade. E se não tomarmos cuidado, ela só será percebida tarde demais.

Não é raro encontrarmos histórias de pessoas que dedicaram suas vidas a construir um grande patrimônio ao ponto de abrir mão da convivência familiar e, no fim da vida, se sentirem só. Neste caso, muitos pais até dão o “melhor” para os filhos; estes, por sua vez, como não se sentiram amados, no fim da existência dos pais, acabam os deixando de lado. Esse é, enfim, o grande dilema que vivemos quando investimos nossa energia apenas em construir algo que é material. Entender essa ideia é perceber que não adianta construir um castelo de areia perto do mar, pois as ondas o destruirão e nada sobrará. Mais importante do que os benefícios da matéria é buscar espaço e fortalecer os laços atemporais com essas pessoas, principalmente as que amamos verdadeiramente. 

Aqui, estabelece-se um dilema: amamos nossa família e, por isso, nos esforçamos para dar o máximo de conforto a ela. Porém, ao fazer isso acabamos nos afastando e perdendo momentos importantes com nossos entes queridos. Como resolver esse impasse? O amor pode assumir diversas formas sem deixar de ser o que é. Às vezes, transformamos o que achamos ser “amor” em ódio, mas na verdade era apenas paixão. Isso porque amor verdadeiro não morre, não degenera, não destrói. Nesse sentido, quando amamos verdadeiramente alguém, é possível criar maneiras distintas de estarmos presentes em suas vidas, de nos conectarmos a elas. Infelizmente, não somos hábeis em encontrar a forma adequada e, por isso, acabamos nos confundindo. Achamos, por exemplo, que podemos compensar nossa ausência com presentes e viagens, quando uma boa e simples conversa poderia ser suficiente para nos aproximar dos nossos entes queridos.

Para isso, a fórmula pode até ser difícil de ser posta em prática, mas é simples: o amor é capaz de curar qualquer coisa, desde que o deixemos fazer seu trabalho. Nosso papel, nesse caso, é impedir que a dúvida, o receio, o orgulho e outros intimidadores o atrapalhem. Quantas vezes brigamos com alguém, mas, na verdade, queremos dizer que o amamos desde o começo? Não permita que nada se coloque à frente do sentimento puro, pois ele é a chave de todo relacionamento, como teria sido o de Rachel e Owen. Mas, esse não é o relacionamento mais importante do filme, como você já sabe. O que talvez não saiba é que, na verdade, o que permitiu Rachel perceber tudo isso, e resgatar a tempo o amor por seu pai, e seu amor pela vida, foi sua relação consigo mesma. 

Isso deixa evidente que não é possível amar ninguém, sem antes encontrarmos este sentimento dentro de nós mesmos. É preciso, portanto, reconhecer em si mesmo o amor para podermos ampliar nosso raio de ação e englobar as demais pessoas. Encontrar o amor em si mesmo é, em síntese, compreender a essência que habita em cada um de nós, o ponto de unidade que me faz sentir conectado aos demais. A partir desse ponto de união, podemos expandi-lo até encontrarmos a essência humana que está em cada um de nós. Nesse momento, perceberemos que podemos amar a todos, desde nossos entes queridos até um desconhecido na rua. Assim, chegaremos à verdade de que, de fato, somos todos Um.

Por todas essas reflexões, recomendamos fortemente que assistam “Tal pai, Tal filha” e se deixem embarcar nessa bonita história de reencontro com o amor.

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