Um antigo dito popular diz que “tudo o que é vivo, morre”. Por mais óbvia que essa frase possa parecer, integrá-la em nossa vida cotidiana não é fácil. Isso porque a morte, por mais natural e inevitável, ainda é um tabu em nossa sociedade. Vivemos como se esse dia nunca fosse chegar e cada vez mais nos empenhamos em buscar uma solução para esse indesejado fenômeno da natureza. 

Esse medo de morrer nos impede de aprendermos a lidar com a morte. Não falamos sobre o assunto, não tentamos compreender seu significado e muito menos vivemos os aspectos que envolvem esse momento de maneira consciente. O resultado disso é, inevitavelmente, uma dor demasiadamente intensa causada por não estarmos preparados para lidar com a morte.

Considerando a falta de compreensão que temos sobre esse tema, o curta “Caminho dos Gigantes” (Way of Giants), produzido e dirigido por Alois di Leo, em 2016, trata sobre o assunto. Seu grande mérito, porém, não está no sucesso entre o público, mas no fato de apresentar uma perspectiva didática de como podemos refletir e dar novos sentidos à morte. 

O curta nos leva até uma aldeia indígena em que está ocorrendo um ritual para a passagem de um ancião. Para completar o seu ciclo, o idoso precisa do melhor instrumento feito pelas pessoas da tribo e assim cada um, partindo de suas habilidades, fabrica um. O ancião testa alguns, mas não sente a magia necessária para realização do seu ritual. A situação muda quando uma pequena jovem é abordada pelo ancião, que pede para verificar seu instrumento. Ele o toca e rapidamente percebe que era esse o som que buscava encontrar. 

A menina, porém, não entende a ideia do rito de passagem e foge com o seu instrumento, como um meio de evitar a morte do tão querido mestre da Aldeia. Lendo essa pequena introdução, já podemos perceber que esse não é um curta, a priori, voltado para o público infantil, apesar da sua linguagem. Quantas vezes, por exemplo, nos sentimos como a jovem do curta? Além disso, quantos de nós já não desejamos evitar a morte de algum ente querido e, se a natureza permitisse, quem sabe até onde poderíamos ir para ver quem amamos vivo? Todos esses pensamentos e ações são, em maior ou menor grau, reflexo de uma ignorância sobre o assunto. Sendo assim, não nos resta dúvidas de que essa é uma temática “espinhosa”, mas se faz cada dia mais necessária para que possamos não apenas lidar com nossas perdas, mas, principalmente, servir de exemplo para quem esteja necessitando de um “ombro amigo”.

Ao fugir com o instrumento, simbolicamente a menina estava rejeitando a experiência, tão própria e natural da vida. Tal qual as nossas fugas, a nossa pequena jovem busca refugiar-se na densa floresta e chega a tentar quebrar o instrumento para que ninguém possa tocá-lo. Mas, apesar dos seus esforços, ela não consegue destruir a própria flauta. Muito sutilmente, porém com uma maestria impecável, o criador do curta nos ensina com essa passagem que não adianta tentar fugir da vida, das experiências. Elas irão continuar ocorrendo em seu fluxo normal, cabendo a nós, e somente a nós, vivenciá-las da melhor maneira possível.  

Dentro dessa perspectiva, a película dirigida por Alois Di Leo nos ensina sobre uma antiga lição: a da ciclicidade. A jovem passa a observar a natureza e percebe que há um tempo para florescer e, igualmente, um tempo para secar. Assim, não existe Vida ou Morte em si, mas apenas duas facetas de uma mesma moeda. Quando a jovem percebe essa valiosa lição, ela compreende o significado de um ritual para essa passagem. 

Refletindo sobre isso, alguns historiadores acreditam que o fato de atribuirmos um sentido transcendente para a morte nos diferencia das demais espécies humanas. Graças à morte, fomos capazes de imaginar e teorizar, o que estimulou nosso cérebro a crescer. Esse detalhe, que pode nos parecer bobo, é fundamental para pesquisadores de todo o mundo, pois revela a capacidade de adaptação do Ser Humano. Na pré-história, momento em que éramos praticamente animais irracionais, a competição obrigou-nos a nos adaptarmos a novos contextos, muitas vezes desfavoráveis e causando muitas baixas no grupo. 

Nessa perspectiva, a morte deixou de ser ignorada pelo Ser Humano e passou a ensinar sobre os Mistérios que existem para além da vida que conhecemos. Como bem sabemos, ao longo da história cada grupo humano criou então rituais específicos para dar o último adeus à pessoa amada. Até mesmo nossa civilização, tão caracterizada pela descrença, ainda acredita, em sua maioria, que a vida não acaba quando morremos e não ignora os protocolos fúnebres que podemos ver diariamente.

Tratando da ciclicidade, podemos dizer que, fisicamente, ao morrer, seremos transformados em mais energia para a vida microscópica. Logo, considerando que, a rigor, enquanto ainda existir energia, ainda existimos, talvez a morte seja a mudança de um estado de consciência para o outro e que, gostemos ou não, ela está ocorrendo a todo momento. Nesse sentido, não há vida e morte, mas apenas processos que ocorrem em uma dinâmica intensa da vida e que ora estamos em um estado e ora estamos em outro. A jovem, ao observar a natureza, acaba percebendo essa Lei Universal e entende que, no fundo, não há separatividade entre a Natureza e o Ser Humano, mas uma integração entre os dois. Quando a jovem enxerga as árvores da floresta sendo cortadas para que sirvam para outra finalidade, ela também entende que há a necessidade da morte para que haja Vida (e vice-versa). A jovem indígena resolve voltar à sua tribo e dar prosseguimento ao ritual.

Outro momento marcante do curta é no momento em que a melodia tocada pelo ancião o torna uma árvore. Com uma mensagem clara, mas imbuída de muitos simbolismos, Alois di Leo consegue apresentar didaticamente as relações que descrevemos no texto. O ancião passa a integrar-se à floresta, transformando-se, enfim, em uma frondosa árvore. Toda a tribo participa do seu ritual, não de maneira melancólica, mas festiva e alegre, pois compreendiam que a morte não existe em si, é apenas uma mudança de forma.

Dessa maneira, “Caminho de Gigantes” não nos mostra apenas um pouco da cultura indígena da região peruana. Muito além disso, o curta nos faz uma proposta interessante: a de vivermos conscientemente a ideia da morte. Ela não precisa ser travestida de imagens macabras ou tratada como um tabu. Pelo contrário: se quisermos verdadeiramente compreender o significado da morte, é fundamental que possamos falar abertamente sobre o assunto. Ainda, para os que buscam um sentido profundo acerca da temática, deve-se ver a morte não como algo indesejado ou mesmo uma maldição, mas talvez uma das maiores dádivas que temos enquanto Seres Humanos: a finitude. 

Ser mortal significa poder dar sentido e valor ao que vivemos. Não sabemos se estaremos vivos daqui a 24 horas, portanto, devemos valorizar ao máximo as experiências que temos e, principalmente, as pessoas que amamos. Que valor, afinal, tanto as experiências e as pessoas ao nosso redor teriam se fôssemos imortais? Provavelmente iríamos desperdiçar nossa existência a uma vida sem propósito, uma vez que nunca acabaria e guardaríamos rancores pela eternidade, pois não sentiríamos necessidade de perdoar quem nos magoou. Assim, a morte possibilita a mudança de Estado, seja físico ou espiritual, e a chance de garantirmos o nosso caminhar em direção à evolução.

Considerando todas essas questões, achamos fundamental estreitar a relação com a ideia da morte. Não de maneira mórbida, pensando nisso a todo momento, mas saber reconhecer nossa finitude e entender que, como uma vez dito em uma música, “não temos tempo a perder”. O tempo continua a passar, não sejamos nós a perder os momentos mais preciosos da nossa vida por estarmos distraídos. Que possamos fazer como o ancião em seu último momento, que possamos entrar no fluxo da vida e seguir para os novos destinos que o futuro nos aguarda. 

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