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Você gosta de regras? Talvez, nos dias atuais, entendamos a justa necessidade de termos regras para praticamente todo tipo de relação, não é mesmo? Desde as famosas “regras de convivência” que usamos em casa até mesmo as leis que regem e pautam nossa sociedade são para que possamos viver de forma equilibrada e justa. Porém, até que ponto seguir regras é um sinal de justiça e bom comportamento? E se, por acaso, as regras que regem uma sociedade forem extremamente injustas, ainda assim devemos segui-las?

É com base nessas perguntas que o curta que assistiremos foi construído. Antes de falarmos sobre ele, porém, cabe refletirmos um pouco sobre essa temática. Se observarmos a História, por exemplo, grandes crimes cometidos contra a humanidade eram “legais”, ou seja, estavam dentro das leis sociais, e aqueles que praticavam tais ações estavam, sob o olhar frio da lei, em sintonia com as regras daquele momento histórico. Não precisamos ir longe para encontrar exemplos desse fenômeno: Por mais de 3 séculos, no Brasil era permitido possuir pessoas na condição de escravos; Na Alemanha nazista, a separação e o extermínio dos judeus também foram orquestrados e tutelados com base nas leis; O apartheid da África do Sul também se pautava nas leis nacionais. Portanto, até que ponto se deve seguir uma regra?

Com essa pergunta em nossa mente, vamos conhecer o curta de hoje. Seu nome é “Proibido cantar” e podemos classificá-lo como um curta-metragem de animação. Produzido em 2015, a película surgiu com o roteirista chileno chamado Ricky Renna, que buscou abordar de forma lúdica uma questão tão séria para os tempos modernos. De maneira sintética, a animação conta a história de uma cegonha muito animada que retorna à sua cidade de origem com um violão e começa a cantar pelas ruas, em frente aos restaurantes, às lojas e aos edifícios. Com isso, as pessoas vão para as sacadas das casas, e todos começam a se envolver com aquele espírito alegre e cheio de Vida. Mas o guarda interrompe a brincadeira, aborda a cegonha e aponta para uma placa indicando que é proibido tocar músicas e ainda quebra o seu instrumento para calá-la à força. Mesmo sem violão e apesar da repreensão, a cegonha continua cantando, à capela. E seu canto vai unindo a cidade, até que todos se juntam para trazer a música de volta.

Se para uma criança essa animação pode parecer simples, aos olhos de um espectador maduro, a mensagem de “Proibido Cantar” é poderosa e adquire diversas camadas. Uma das lições que podemos tirar da animação é o poder de transformação que existe em cada ser humano, pois a cegonha é quem, a partir da sua necessidade de expressar sua felicidade através da música, consegue movimentar e contagiar toda sua cidade com sua causa. Se de um lado o curta fala do poder da maioria – afinal, as regras só mudam quando ocorre a “revolta da música” –, por outro, a origem desse movimento parte de uma necessidade interna, própria do ser humano, que se move a partir dessa realidade psicológica. 

Desse modo, podemos afirmar que o curta deixa claro que a transformação da sociedade começa dentro da Alma de cada um, como uma decisão interna que independe do meio externo. Com o seu canto, a cegonha tocou a Alma dos moradores da cidade, um a um, sem fazer nenhum discurso, sem incitar nenhuma convulsão social. De maneira “silenciosa” e pacífica, a atitude da cegonha foi, naturalmente, unindo todos e promovendo uma verdadeira transformação.

Para aprofundar mais essa questão, pensemos a partir da ótica filosófica. O filósofo Platão, no livro “A República”, nos fala que a ordem social é como um reflexo da ordem interna de cada Indivíduo. Nesse sentido, a sociedade é o produto do que somos por dentro, de tal sorte que não adianta tentarmos mudar a ordem social sem que sejamos transformados interiormente. Podemos até, à custa de muita convulsão social, guerra civil e revoluções, mudar à força a forma como a sociedade se organiza; entretanto, se essa mudança não vier acompanhada de uma transmutação interna na Alma individual de cada participante do grupo, a tendência é a nova ordem social se tornar pior que a anterior. Nesse sentido, a frase “a mudança ocorre primeiro dentro e depois fora” não é apenas um clichê de efeito, mas também uma verdadeira pérola de sabedoria. Quando aceitamos uma regra imposta, sem reflexão sobre o tema, estamos inconscientemente concordando com tais atos e, por consequência, somos cúmplices daquelas regras. 

Sendo assim, quando nos deparamos com uma situação social injusta podemos até nos revoltar, ficar indignados e, geralmente, reagir com violência por conta do fato externo. Essa indignação é natural, pois, em algum grau, todos nós somos idealistas, alguns mais que outros, ou seja, todos nós sonhamos com um mudo novo e melhor, onde haja mais Justiça, Bondade e Beleza. Um mundo feliz, onde crianças não tenham que ficar nos sinais limpando para-brisas em troca de alguns trocados, onde os recursos sejam administrados de forma inteligente, sem desvios e sem priorizar interesses.

Entretanto, mesmo possuindo toda nobreza interna, ainda podemos ficar quietos em uma situação injusta, pois outros fatores como o medo, a timidez, a vergonha ou mesmo o pavor de atuar nos fazem aceitar as pequenas injustiças que nos cercam. Com o tempo, tais barreiras psicológicas deixam de ser um peso, e deixamos de nos importar com esses ideais. 

Mesmo com essas reflexões em mente, cabe ainda ressaltar que todos nós desejamos um mundo onde a educação nos conduza realmente a lugares elevados e não seja apenas uma transmissão mecânica de um conteúdo que produz vaidades e muralhas, já que, em verdade, deveria ser a ponte que nos conecta. Mas só realizaremos esse sonho a partir de uma mudança interior de cada um. Além disso, não adianta derramar sangue, promover revoluções, multiplicar o ódio de uns contra os outros, isso não muda nada. Basta olhar para os últimos cem anos da nossa história recente: de que adiantou tantas guerras, tantas revoluções? Qual foi a verdadeira e significativa mudança a nível humano que ocorreu após esses eventos?

O que precisamos no mundo hoje é de um despertar de consciência e isso só pode ocorrer de dentro para fora. Não se desperta consciência com violência, pois esta apenas nos embrutece perante a vida e causa traumas, individuais e coletivos, servindo como multiplicador do ódio perante um grupo social ou perante indivíduos. O despertar da consciência vem, portanto, do contato da Alma com as grandes ideias. Esse contato é mais do que uma assimilação intelectual, é um toque de Alma, que não se concretiza apenas decorando conceitos e definições. Quando nossa Alma se enamora das ideias, quando nosso coração vibra diante da Beleza, aí começa a mudança interior que o mundo precisa.

Que esse curta, tão simples e ao mesmo tempo tão tocante, possa nos servir como um convite para um Despertar Interior. Que você possa, como aquela cegonha, nunca parar de cantar, mesmo quando as coisas não estejam bem, e agir, como na música “Sorrir” do Djavan: “Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios… Sorri, vai mentindo a tua dor e, ao notar que tu sorris, todo mundo irá supor que és feliz.”

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