A Arte conecta todos nós. Uns a apreciam mais, outros um pouco menos, e alguns até nem tem certeza se podem chamar aquilo de que tanto gostam, seja um estilo de música ou uma forma de entretenimento qualquer, de Arte. Nós podemos até pensar e discutir muito a respeito disso, mas, o consenso é que a Arte não vem de qualquer lugar, mas de um lugar muito especial que existe dentro de todos nós, o Coração. 

Mesmo que muito bem expressa, seja por gênios ou por aqueles que neles se inspiram, produzir Arte não é uma tarefa simples. O artista, profissional ou amador, tem a árdua missão de transformar algo subjetivo, como emoções e ideias, em uma obra concreta, que possamos apreciar no mundo. Se você já tentou alguma vez traduzir um sentimento ou emoção, escrevendo um poema ou simplesmente falando o que seu coração estava sentindo, sabe que normalmente as palavras não bastam. De igual modo, conter e entender essas mesmas emoções exige tempo e muita energia, pois nunca será fácil de buscar compreender o que estamos sentindo. Entretanto, quando conseguimos processar essas emoções através da razão somos capazes de produzir Arte em sua forma mais sublime, mais verdadeira.  Mas como poderíamos fazer isso? Afinal, como conseguimos racionalizar algo que, a priori, sentimos tão fortemente e que nos falta argumentos para explicar?

Quando falamos em “Razão” não estamos tratando apenas de usar nossa mente de maneira lógica, organizada. Segundo a filosofia grega, por exemplo, a razão estaria para além de nossa capacidade mental, mas seria um atributo do Ser Humano em conseguir distinguir as mais diferentes formas, colocá-las em seu devido lugar e, desse modo, chegar a uma Harmonia. Trazendo essa ideia para o campo das emoções, deveríamos ser capazes de compreender quais sentimentos e sensações nos fazem bem e quais nos fazem mal e, depois de separarmos essas emoções, buscar soluções para não ficarmos preso nas emoções ruins, que nos deixam “para baixo” e aprender a lidar com a euforia das boas emoções, para não agir de forma desmedida. Sem essa razão, que ilumina tudo que parece disforme e indistinguível no escuro, podemos ser levados para estados de ânimo que não desejamos e não saber os meios de sairmos dessa condição. Tal qual um navio que não sabe para onde ir e navega sem direção em meio às ondas, ficamos à mercê das nossas emoções, sendo levados “de um lado para o outro”.  

Pensando sobre isso, o curta “Fallin Floyd” (“Floyd em Queda”, em tradução livre) traduz bem essa ideia. Vencedor de vários prêmios em 2013, publicado e republicado diversas vezes no YouTube e em outras plataformas desde então, a obra traz um jovem trompetista muito talentoso, que toca em locais públicos com bastante entusiasmo, e assim espalha Alegria entre todos os que o ouvem.

Quando o animado Floyd sofre uma desilusão amorosa, começa sua derrocada emocional. O músico perde a vontade de sorrir, de sair de casa, e, sem conseguir tocar nenhuma melodia que não fosse amargurada, joga num rio seu amado instrumento. A situação torna-se mais séria quando o protagonista conhece uma criaturinha que entra em sua vida disposta a permanecer ao seu lado 24 horas por dia e incomodá-lo enquanto estiverem juntos. 

Essa incômoda criatura o lança em um mundo escuro, sem cores, onde tudo o que Floyd consegue fazer é olhar, dia e noite, para o símbolo de seu fracasso sentimental: o anel que transformaria sua namorada em noiva, como ele sonhou mas não conseguiu realizar. O ex músico tenta obrigar a criaturinha a deixá-lo em paz, tenta ignorá-la, mas ela permanece ao seu lado, firme e forte enquanto não pára de crescer, alimentando-se da tristeza de nosso amigo.

Esse pequeno coadjuvante, que rouba imediatamente para si o protagonismo da vida de Floyd, se chama depressão. Em muitos casos, essa doença se impõe para nós de forma súbita, de uma vez só, mas, mais frequentemente, ela se apoia em nossa sombra, sem que a vejamos se aproximar. Alimentada por nossas emoções descontroladas, nossas contradições pessoais (como quando defendemos alguma ideia que não vivemos), e nossas intermináveis frustrações, a depressão torna-se um inimigo duro de combater, pois a medida que nos acostumamos com sua presença ela domina nossas motivações e nos frustra a cada batalha que perdemos.

Quando se aproxima mais lentamente, a depressão se torna muito mais perigosa, afinal, quando a percebemos à nossa volta, talvez ainda não seja tarde demais para lutarmos contra ela, mas certamente vai nos exigir muito esforço para nos livrarmos dela.

Se pararmos para analisar nossa vida cotidiana, temos pequenas decepções todos os dias e se as guardamos em formato de tristeza, desilusão, em nosso cofre de emoções, o nosso coração, isso o fará encher-se mais e mais, até que ele fique muito pesado e difícil de carregar. Assim, com o tempo, em nosso peito restarão apenas emoções ruins, que nos ancoram no chão, sem que consigamos nos mexer. Para além disso, não só temos essa atração estranha de manter em nós o que nos faz mal, como também espalhamos ao nosso redor coisas que nos lembram essas derrotas, e não como um sinal de aprendizado, mas, como uma lembrança para nos assombrar para sempre.

Como podemos, portanto, superar essas pequenas tristezas que vivenciamos todos os dias? Uma das principais dicas já foi mencionada acima: iluminar nossas emoções a partir da razão. Primeiramente devemos distinguir o que nos fez cair perante a tristeza ou mesmo uma condição depressiva. Sabemos que cotidianamente passamos por diversas situações e que, boas ou ruins, elas irão nos afetar. Sejam problemas no trabalho, na família ou com amigos, não é possível esquivar-se dessas questões, portanto, o primeiro passo é aprender a lidar com elas de maneira saudável. Compreender que as dores, em suas diferentes facetas, irão ocorrer ao longo da nossa caminhada, mas que elas não devem – e nem podem – nos paralisar. Portanto, reconhecer que esses estados emocionais existem e nos afetam é um passo importante para saber lidar com nossas emoções.

Uma vez que assumimos isso, podemos passar a atuar na causa do nosso sofrimento. Assim como é mais fácil combater um inimigo que enxergamos do que um que está fora do nosso campo de visão, a partir do momento que reconhecemos e enxergamos o que está nos fazendo mal podemos intervir e buscar soluções para sair desse estado. 

Outro ponto importante é não reforçar o sofrimento que estamos sentindo. Se, por exemplo, estamos tristes pelo fim de um relacionamento, como no caso do curta, não deveríamos reforçar esse sofrimento lembrando do que ocorreu. Infelizmente, na grande maioria das vezes nos rendemos a dor e acabamos por acentuá-la colocando músicas, fotos e vídeos que nos lembram à pessoa amada. Não se trata de apagar da memória os bons momentos e aprendizados que ocorreram junto à pessoa, mas sim de não fragilizar ainda mais nesse momento as emoções que, por si só, já estão desestruturadas. Nesses casos, acima de tudo, é preciso agir com Inteligência. Deixar a dor atuar na medida justa e não fazê-la ser maior do que realmente é. 

Além disso, devemos aprender a olhar a vida de maneira cíclica e justa. Assim, saberemos que a tristeza que sentimos hoje tem um propósito, uma finalidade, que é gerar consciência sobre algum aspecto da Vida que ainda não estamos cientes. De igual modo, se entendemos que assim como existem os ciclos da natureza também existem ciclos em nossa vida, entenderemos que a tristeza uma hora irá dar lugar a uma nova alegria, mas que para isso ocorrer precisamos aceitar e superar tais questões. Assim, é fundamental não nos identificarmos com a tristeza que sentimos, ou seja, não achar que “somos” a nossa emoção. Ela é, de maneira objetiva, um estado emocional que, cedo ou tarde, passará. As tristezas e alegrias da vida passam e repetem-se, cada uma à sua maneira, mas nós continuamos sendo nós mesmos, portanto, não podemos acreditar que “somos” felizes ou tristes, alegres ou depressivos, mas sim que “estamos” vivendo esses momentos.

De um ponto de vista filosófico, Buda, o líder espiritual da Doutrina Budista, nos fala sobre libertar-se da história. Ele nos diz que é possível guardar em si apenas o aprendizado, que vai lhe servir em outras experiências na Vida, e deixar uma parte da história para trás, a que lhe dói, que lhe faz sofrer, pois, para onde vamos não precisamos de nada disso. O primeiro passo para conquistar esse desapego do passado é não dramatizar o que nos acontece. Sabemos que essa é uma tarefa árdua, mas martirizar-nos não nos torna melhores, apenas torna o desafio ainda mais difícil, e talvez até seja o que continue a nos impedir de vencê-lo de uma vez por todas. 

Agarrado ao anel de noivado que havia comprado com o dinheiro de suas apresentações, Floyd ouve de seu analista que precisa se desfazer dele, dar à jóia um destino melhor do que o ostracismo, e a si mesmo a Liberdade. Sem conseguir libertar-se do passado, em uma confusão com seu médico e sua depressão, Floyd vê o anel cair, e cair, mas o persegue em desespero pela cidade, talvez achando que perderia com ele as boas memórias que teve com sua namorada, e não que sobrariam apenas as ruins enquanto ainda o tivesse em mãos. 

Por fim, a jóia cai em um rio, o mesmo que participou no começo dessa história profunda e bastante simbólica. Felizmente ao invés de encontrar o anel embaixo d’água, Floyd encontra um amigo que não via há muito tempo: seu trompete. O instrumento se mostra forte o suficiente para trazer o protagonista para fora da água e voltar a tocar melodias otimistas, o que tem um significado muito bonito, e muito verdadeiro. Floyd finalmente conduziu suas emoções pela luz da razão, o que o ajudou a transformar sua dor numa cicatriz, que não lhe faria mais mal algum, mas lhe marcaria para sempre como sinal de seu aprendizado.

A depressão voltou a ser aquela criaturinha em estado inofensivo, mas ainda assim presente, com a qual podemos conviver sem sucumbir, desde que não a alimentemos. O curta é uma inspiradora lição de que podemos superar a dor de nossas experiências Humanas. Muitas levarão tempo para sarar, tal como feridas que demoram a cicatrizar, mas quando tratadas de forma adequada encontrarão a cura.

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