O curta-metragem “Cidade Colorida”, produzido em Portugal e lançado ao público em 2014, integra um projeto de reabilitação urbana da cidade de Lisboa. A animação, que pode ser vista pelo link abaixo, apresenta uma cidade cinzenta, triste, melancólica, com prédios envelhecidos e escuros, e uma multidão cabisbaixa circulando pelas ruas. De repente, surge no meio dessa depressão urbana, na contramão da multidão, um garoto todo colorido, sorridente, alegre, destoante do cenário ao redor e disposto a mudar tudo, colorir as ruas, contagiar todos com a alegria e mudar a cidade.

Desde março de 2011, a Câmara Municipal de Lisboa iniciou uma série de propostas de novas leis a fim de permitir uma readequação urbanística daquela cidade, em razão de uma série de fatores que suscitaram uma preocupação em relação à vida daquele centro urbano. O decréscimo populacional é um desses fatores, já que só na década de noventa a população lisboeta reduziu em 15%. O envelhecimento, a redução da população jovem, uma taxa de crescimento natural negativa, além de uma arquitetura urbana muito antiga, sem renovações modernas em seu traçado, também eram fatores preocupantes. É no bojo desse cenário que surge o curta “Cidade Colorida”. A criatividade dos produtores está sintonizada com a ideia de que não se adequa uma cidade apenas com leis formais, dotações orçamentárias e decisões oficiais, é preciso despertar nas pessoas a sensibilidade, a intuição, a alegria, o entusiasmo, pois só assim se ressuscita uma cidade.

O enredo deste curta, de apenas sete minutos, bem como a proposta de criação, nos traz 7 aspectos importantes. 1º: aprendemos que a política urbana não é algo que está desconectado da Alma Humana, pois o jeito como as fachadas de nossos prédios, o abandono de nossos equipamentos e o desenho de nossas ruas estão dispostos guarda uma relação intrínseca com o nosso espírito, ou seja, a cidade não é algo fora de nós, desconectado de nossas instâncias sutis; 2º: às vezes, o diferente, o que está na contramão da massificação detém a solução que buscamos, isso está representado no filme pela figura do garoto que aparece no meio da multidão, colorido, diferente de todos; 3º: aprendemos que as cores são vibrações que estão no mundo e que nós, Seres Humanos, como uma espécie de antena, captamos essas vibrações que podem traduzir efeitos surpreendentes em nossa Alma; 4º: aprendemos que a grande transformação não começa no poder institucional, este apenas efetiva a mudança genuína que parte de uma espécie de contágio entre os indivíduos, isso aparece no curta a partir da atitude do garoto que começa a contagiar cada um que encontra pelo caminho e isso vai dando cores e mudando o cenário cinzento existente; 5º: a mudança precisa ser contínua, pois um dia o garoto colore as pessoas e no outro precisa fazer de novo; 6º: o contágio pode ser invertido, ou seja, assim como é possível contagiar as pessoas com entusiasmo, alegria, mudanças positivas, etc., se não tivermos cuidado, podemos também ser contagiados pela melancolia, tristeza, desânimo e fracasso. A exemplo disso, tem um momento no curta em que o garoto é contagiado pela tristeza, chegando, inclusive, a tentar abandonar a cidade. 7º aprendemos que o encontro Humano quando acontece com o Coração é mais mágico do que lógico, isso aparece no curta no momento em que a garota chora lágrimas coloridas quando o garoto tenta abandonar a cidade. Ela que havia o contaminado com a tristeza, agora se renova, pois algo dele tinha sido plantado nela para nascer depois.

Nós somos a própria cidade. Se a paisagem está cinzenta, triste, lúgubre, pode ter certeza, esses aspectos reverberam dentro de nós. O aumento da criminalidade tem no desenho urbano uma de suas principais causas, pois não existe uma fronteira onde a Alma termina e a cidade começa, assim como é o indivíduo é a sociedade. Os grandes pensadores da Humanidade trilharam esse mesmo caminho de raciocínio. O livro “A República”, escrito por Platão há dois mil e quatrocentos anos, já falava de algo semelhante. Ao descrever a cidade ideal, um interlocutor de Sócrates questiona se essa cidade seria possível, ao que ele responde que se é possível imaginá-la então ela já começou a existir no plano de nossas mentes. Em outro momento do mesmo livro, ele diz que tudo que está se colocando ali no ideal de cidade, serve também para o ideal de indivíduo. 

A perspectiva profunda da natureza humana e da natureza das cidades está convocada neste curta metragem, que nos mostra que para mudar o cenário da cidade, é preciso mudar o estado de espírito das pessoas. Muitos dos nossos centros urbanos às vezes ficam tão abandonados que mais parecem um aterro sanitário a céu aberto; edifícios velhos, com fachadas cheias de lodos, rachaduras abertas, odores insuportáveis, e nós ficamos pensando como é possível convivermos com essas chagas abertas diante de nossos olhos? A explicação é esta, é que criamos uma separação mental que é puramente ilusória de que a cidade está fora de nós. É daí que surge a expressão “jogar o lixo fora” e aí muitos descem o vidro do carro e jogam detritos “fora”, como se a rua fosse algo fora de nós. Precisamos despertar a consciência de que não há “fora”, pois a cidade somos todos nós. 

Pensar assim, de certa forma, é uma ousadia. Pois vai na contramão das multidões, como aquele garoto. Ele era o ponto fora da curva, todo mundo era cinzento, era “normal” ser assim, obscuro, lúgubre, triste, mas ele vem como uma onda contrária àquele estado totalitário de atraso. Às vezes, precisamos ouvir as vozes solitárias que contradizem o que a maioria está dizendo. Isso é muito bem ilustrado no mito de caverna, do já mencionado livro “A República”. No capítulo sete, Platão introduz um mito que fala de uma sociedade que vivia escravizada no subterrâneo de uma caverna, mas aqueles cidadãos não sabiam que eram escravos, pois estavam condenados a viver apenas aquela realidade. Desde o momento em que nasciam até a morte, só conseguiam ver sombras em movimento nas paredes, não faziam ideia do mundo que existia fora da caverna, até que um deles, diferente de todos, na contramão da normatividade, começa a se inquietar com aquela situação e consegue se soltar das amarras, e com muito esforço sai da caverna e se depara com o mundo real, iluminado pelo Sol. Ele fica tão encantado com tudo que resolve voltar e libertar os outros. Imagine a reação dos outros ao serem incitados por um louco a fazer algo que nunca lhe foi possível fazer, que nem seus pais, nem seus avós fizeram? O que este mito está dizendo é que as grandes transformações são levadas a cabo por quem está disposto a ser diferente, sair da zona de conforto, não ouvir a massificação e marchar na contramão, a exemplo do garoto do curta.

Não nos limitemos a um mundo cinzento, de sombras ilusórias, sem cores, quando lá em cima, para além de nossas massificações, há uma realidade cheia de cores vibrantes, iluminadas pelos raios do Sol. O efeito das cores diante de nossos olhos, a Beleza, a Alegria, a Vivacidade que essas vibrações nos conferem são apenas símbolos do poder das ideias perfeitas que poderemos acessar quando nos livrarmos das correntes ilusórias que nos mantém reféns a formas de pensamento equivocadas, como o culto à juventude, a felicidade condicionada ao gozo dos sentidos, a busca desenfreada pela produção, pelo progresso interminável, pela ambição financeira sem fim. A libertação desses grilhões nos permite ter alcances maiores.

O problema é que desvinculamos essa libertação mental das necessidades do mundo prático, separamos em compartimentos. Um compartimento para a filosofia, espiritualidade, etc. e outro compartimento para os impostos, a administração da cidade, a política, o governo etc. O fato é que está tudo junto. O jeito como lidamos com nossa Alma repercute na vida da cidade e o jeito como conduzimos a cidade é um reflexo da nossa Alma. Essas duas nuances estão interconectadas. O nosso país tem mais de cinco mil municípios, todos os dias milhares de Câmaras Municipais aprovam centenas de leis e resoluções para gerir a vida das nossas cidades, mas quanto mais temos leis regentes, mais presenciamos situações deploráveis. Talvez estejamos precisando integrar nesse jeito de fazer política urbana um ingrediente Humano mais profundo. Precisamos promover um encontro entre a Alma Humana e a política urbana em nossas cidades. A iniciativa deste curta é um exemplo dessa proposta. O enredo foi criado a fim de construir uma cultura de apoio e envolvimento das pessoas na estratégia de readequação de Lisboa. Um exemplo que precisa ser potencializado e seguido.

Mas, essas iniciativas não podem ser algo pontual, é preciso que se torne parte da estrutura de como fazemos política urbana. É preciso que seja contínua, constante, pois não faz efeito se não perdurar. O curta trabalha esse aspecto também, ao mostrar que um dia, depois do garoto ter colorido as pessoas, todos voltaram a ser cinzentos novamente. Temos grandes exemplos de cidades que foram revitalizadas, readequadas e depois de alguns anos voltaram a ser a depressão de sempre, porque a ação não foi estrutural. Assim é em nossas vidas também, necessitamos de mudanças que sejam tão profundas que não permitam voltar ao que éramos antes. E mudanças assim requerem constância, repetição diária e cultivo. Assim como um jardim tem que ser cultivado todos os dias, sob pena de as folhas murcharem, nossa Alma precisa todos dias lembrar de ser feliz e isso precisa ser contagiado entre os indivíduos e integrado na vida da cidade.

O que temos visto de forma predominante é um contágio invertido. Em vez de contagiar cores, entusiasmo e alegria, temos visto muita contaminação de ódio, de polarizações partidárias, contágio de sensualismos deformados, pervertidos. Isso é triste de se ver, é bem verdade, mas tem sido constante na vida de nossas cidades. Esse aspecto também é trabalhado no curta, na hora em que a garota contamina o rapaz com sua tristeza. Essa contaminação é autodestrutiva. A decisão logo em seguida que ele toma é de ir embora da cidade, tomar um barco e partir. Isso é representativo de como tem tanta gente abandonando a cidade, “jogando a toalha” para usar a expressão popular. Quando a feiúra urbana já não nos impacta, quando nos encontramos apáticos diante da destruição urbana é sinal de que fomos inoculados pelo desânimo e estamos desistindo de lutar.

Só há uma forma de nos livrarmos desse deserto de Alma, desse conformismo, e essa forma é o encontro Humano. Há magia no encontro das pessoas. Quando os olhares do garoto colorido e da garota cinzenta se cruzam, uma magia acontece. Não há explicações racionais, nem lógicas, suas Almas entrecruzam-se. A tristeza dela é tão avassaladora que chega a contaminá-lo, mas o Amor, a Ternura, o Entusiasmo e a Felicidade dele é capaz de curá-la. Ele adoece, mas ela se cura e a cura dela o restaura. Quando temos essa dimensão de Amor dentro, nos tornamos seres curativos, somos capazes de afugentar patologias psíquicas graves e libertar as pessoas da escravidão mental. Esta é a salvação para o desabamento civilizatório que vivemos hoje: a magia do encontro Humano. Quando nossas Almas se encontram de verdade, sem falseamentos, sem máscaras, algo poderoso acontece no mundo. Essa é a nossa Esperança, o encontro Humano. A capacidade de sentir o outro, de se conectar com sua Alma, de partilhar esta existência juntos. Isso pode mudar o mundo, mudar nossas cidades, trazer vida e vontade política. O desdobramento disso em grandes obras de reabilitação urbana é que torna objetiva uma realidade que começa nos recônditos internos da Alma Humana.

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