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Provavelmente você já ouviu falar do “efeito dominó”. Usamos essa expressão para explicar a relação de causa e efeito de nossas ações. Quando, por exemplo, passamos por momentos difíceis, temos a tendência de nos fecharmos ou ficarmos machucados por causa da experiência. Se não superamos o que nos ocorreu, acabamos muitas vezes machucando outras pessoas que, na maioria dos casos, não tinham relação com a nossa mágoa inicial. Essa sucessão de feridas abertas acaba, por fim, tornando-se um ciclo vicioso e quase inquebrantável. O que no começo era apenas uma pequena decepção ou tristeza passa, ao longo dos anos, se tornando um verdadeiro tormento em nossa existência. É evidente que esse efeito ocorre em níveis variados e começa, em geral, por alguns pensamentos ou emoções negativas. Algumas experiências podem acabar reforçando ainda mais esses aspectos sutis, fazendo com que cultivemos verdadeiras cicatrizes em nossa psique. 

Visto isso, hoje recomendamos o curta “Fragmentos”, que aborda essa temática e nos ensina sobre como podemos vencer as rachaduras que a vida, por vezes, nos proporciona.

A animação apresenta uma garotinha em uma aula de pintura. Ao finalizar seu desenho, outras crianças passam a apontar e rir da obra da jovem. Essa experiência a marca profundamente, causando uma “rachadura”, que vai aumentando à medida que a protagonista sofre outras experiências duras. Com o tempo, suas rachaduras vão se tornando mais visíveis e dolorosas. 

O detalhe da animação é que as pessoas que causam as rachaduras estão igualmente machucadas. A mensagem, nesse ponto do curta, torna-se clara e objetiva: quem nos fere são pessoas que já estão amarguradas. Trazendo para a realidade, é possível percebermos que esse é um padrão comum nas relações sociais. Quando estamos com raiva, por exemplo, quantas vezes acabamos descontando em uma pessoa que não nos fez nada? Seja ignorando ou sendo rude, comumente ofendemos os outros, mesmo que inconscientemente. 

Atualmente não é surpreendente recebermos notícias sobre bullying nas escolas. Crianças que juntam-se para causar violências, verbais ou físicas, a outras não é algo necessariamente novo; porém, tem sido uma prática cada vez mais abusiva e rotineira. Para além dos fatos objetivos, nos cabe refletir a causa que leva a essas práticas. Os agressores, em geral, usam da violência como um mecanismo de defesa, uma espécie de armadura que esconde os seus ferimentos. Por trás de uma criança rude e que oprime seus colegas na escola provavelmente está um pequenino Ser Humano que foi maltratado e não superou suas feridas.

Esse mecanismo de defesa, porém, não é exclusivo dos Seres Humanos. Se observarmos um cachorro que está machucado, perceberemos um comportamento muito parecido. O animal fica arisco, violento e não permite que outros cheguem perto. Isso ocorre porque ele está vulnerável e identifica o outro como um inimigo, alguém que irá machucá-lo ainda mais. Do mesmo modo somos nós, quando deixamos nossas emoções e feridas comandarem nossas ações.

Por vezes, passamos anos com rachaduras por todo o nosso corpo. Ferimentos causados por outras pessoas, por situações da vida ou, em alguns casos, por nós mesmos, e que não aprendemos a tratá-los. Guardar essas cicatrizes emocionais não é uma opção lógica, nós sabemos, e mesmo contrariando o senso comum de não ficar relembrando essas experiências é natural que façamos. Isso ocorre porque, diferentemente de cicatrizes físicas que tratamos com medicamentos e tratamentos específicos,  no caso dessas mágoas emocionais não sabemos que remédios usar para acelerar a cicatrização daquele machucado; e, pior ainda, quando ele está quase sarando, somos nós que abrimos, mais uma vez, a ferida. 

Quantas mágoas, por exemplo, carregamos conosco ao longo da vida? Passamos a conviver com raivas, frustrações e tristezas, nos confundindo com elas ao ponto de, muitas vezes, não sabermos distinguir o que somos verdadeiramente. Nos perdemos entre tantos machucados e acabamos divididos, tanto internamente como externamente. Se não passamos a investigar de forma consciente esses traumas, acabamos engolidos por eles e acreditando que “não há cura” para essas decepções vividas ao longo de tanto tempo.

Nesse ponto, passamos a causar dores não apenas em nós, mas também em pessoas que cruzam o nosso caminho. No trabalho, em casa ou mesmo com o nosso cônjuge, passamos a destilar nossas mágoas e rancores por todos os lados. Assim, entramos no efeito dominó, no ciclo vicioso que nos cerca e gera tantas dores. Deixamos de ser as vítimas e nos tornamos algozes. Mas, como encerrar essa cadeia desastrosa de eventos?

No curta, a garotinha encontra alguém muito especial. Esse homem a aceita, abraça suas rachaduras e lhe renova a Vida, mostrando que as cicatrizes fazem parte do nosso processo de evolução, mas elas por si só não podem nos definir jamais. Esse Ser Humano é nada menos que Jesus Cristo, o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. O simbolismo de Jesus no curta é muito claro, pois representa o perdão e a redenção frente às nossas mágoas e erros. Como um grande mestre de sabedoria e iluminado pelo próprio criador, Jesus é a personificação de como os Seres Humanos devem ser: amorosos, empáticos e mergulhados na bondade. Nesse sentido, Jesus não é necessariamente uma pessoa externa, mas a compreensão interna que nos faz aceitar essas feridas e conhecê-las profundamente para que assim possamos resolvê-las.

A partir desse evento, ela passa a aceitar os outros (seus colegas e seus pais, por exemplo), pois compreende que os danos causados por eles podem ser resolvidos com o Perdão. Essa é uma ótima chave para refletirmos sobre como superar a dor e aceitar nosso processo de cura, pois o Perdão é uma Virtude que exercemos muito pouco. Apesar de sabermos o valor que existe em perdoar, o mais comum, infelizmente, é revivermos rancores e carregá-los conosco. Quando perdoamos, passamos, de fato, por uma transformação; para ser mais exato, por uma purificação da nossa relação, seja com o outro ou com nós mesmos. O Perdão serve como uma “borracha” que apaga a mágoa que carregamos, e assim passamos a ter uma relação mais limpa com a pessoa que nos machucou. O Perdão, porém, só funciona quando somos a vítima de alguma injustiça. E quando nós somos os causadores? Quando somos nós que machucamos o outro, o que podemos fazer?

Nesses casos, podemos exercer a Redenção. Nada mais é do que agirmos para consertar um problema que geramos. Essa “compensação”, porém, não se trata de uma simples troca, mas de um processo de purificação e comprometimento. Quando queremos nos redimir, dizemos ao mundo: “eu estava errado e não farei de novo”. Se redimir, portanto, é comprometer-se a ser melhor com os outros e consigo mesmo. Quando as pessoas que machucamos passam a ver o nosso esforço em busca da redenção, de superarmos nossas feridas e de agirmos de maneira mais Virtuosa, existe a possibilidade de inspirá-las a também superarem suas mágoas. Por isso, uma antiga frase nos diz que “no Universo não existe perdão, somente redenção”, ou seja, a partir da nossa ação e do nosso reposicionamentos é que as pessoas buscariam nos perdoar.

Devemos, portanto, curar nossas feridas; encontrar o nosso Coração, nossa melhor parte; e ajudar as pessoas à nossa volta nessa jornada. Não é uma trilha fácil, uma vez que essas feridas estão há muito tempo em nós, mas o valor de estar inteiro, sem fraturas ou fragmentado, é a recompensa por uma vida buscando o melhor de si. Para tanto, é necessário superar a si mesmo: os medos, as angústias, as mágoas. Deixemos para trás a dor e passemos a caminhar em busca da Redenção e da Cura. Talvez esse seja o caminho para, finalmente, encerrarmos o efeito dominó nocivo que as experiências mal vividas da Vida nos proporcionaram.

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