Você já ouviu a frase “o novo é sempre melhor”? Essa é uma afirmação um tanto quanto ousada e que, obviamente, não é verdadeira; entretanto, nos dias atuais ela tem sido cada vez mais vivida pelos jovens. Fala-se, por exemplo, que o melhor remédio para curar um antigo amor é um novo amor, queremos sempre o smartphone mais novo, o carro mais novo e, de certo modo, lutamos diariamente para tentar preservar nossa juventude através de procedimentos estéticos, exercício físico e uma boa alimentação. Desse modo, mesmo que não acreditem que “o novo é sempre melhor”, estamos constantemente, conscientes ou não, reforçando esse tipo de pensamento.

Mas não se preocupe, pois essa forma de pensar não é apenas sua, meu caro leitor. Na verdade, a mentalidade do nosso mundo atual está imersa nesse falso mito de que o novo será sempre melhor do que o antigo. É por isso que acreditamos que um “ano novo” vai ser melhor do que o que passou, ou mesmo que precisamos sempre fazer algo novo, seja no trabalho, na família ou nas nossas relações. A ideia de uma “novidade” sempre vai contrastar com a rotina, com as tradições e com tudo que é feito de forma repetida. Você já percebeu essa dualidade? E se sim, será que precisamos viver, de fato, inseridos nesses dois extremos?

Não queremos condenar nenhum dos dois pensamentos, pois há um grande valor no novo, que se projeta como fator de mudança e evolução, seja em qual esfera for. Tampouco queremos condenar as tradições, pois é graças a ela e sua solidez que há a base para a nossa sociedade e relações humanas. O que queremos, na verdade, é refletir sobre como esses dois lados, em momentos distintos da história, foram reforçados e vividos e suas consequências. Se, por exemplo, na Idade Média a tradição cristã se reforçou e consolidou, ao ponto de até hoje ser dominante em grande parte do mundo, isso se deu graças às suas bases e possibilidades. Em nossa família, isso também ocorre, afinal, possuímos tradições e uma cultura familiar própria, apesar de compartilhar elementos comuns. 

Frente a isso, como podemos aprender sobre esses dois mundos que vivem em conjunto, mas, ao mesmo tempo, parecem não querer estar próximos? Hoje recomendamos um curta que falará um pouco sobre a dualidade Antigo – Novo e que mostrará a necessidade de aprendermos, independente da nossa escolha, e de evoluir como seres humanos.

Sobre o curta-metragem, “Tea Time” é uma animação francesa, produzida em 2015 e que sutilmente, entre os pontos que já abordamos, provoca uma reflexão sobre a ideia de progresso. O curta conta a história de uma senhora idosa, com muitas limitações de locomoção e coordenação motora, que é auxiliada por um robô antigo. O problema é que esse robô também é cheio de limitações, o que faz com que a senhora seja seduzida por uma propaganda na televisão e decida comprar um equipamento de última geração que promete energizá-la. Mas tudo vai dar muito errado, e no final fica fácil perceber que entre a inovação de última geração e o robozinho antigo, o melhor e mais seguro para aquela senhora era a relação com o robô antigo.

Nós somos hoje uma sociedade que emergiu da luta pela superação da Idade Média. Então, o jeito como pensamos é o resultado do esforço da modernidade para se livrar do feudalismo, do religiosismo medieval e do antigo regime político da Europa, baseado no sustento de uma nobreza luxuosa, improdutiva e ociosa. A fim de superar esses entraves, a nossa civilização foi construindo uma ideologia de progresso que serviu de motor para o avanço da ciência, para o avanço do capitalismo e que nos levou à Revolução Industrial, potencializando os transportes terrestres, marítimos e aéreos. Ou seja, a fim de sair do fosso que era a Idade Média, a civilização ocidental fortaleceu essa ideia de progresso de modo que todos os setores da sociedade foram potencializados ao máximo, movidos por esse jeito de pensar dogmático que se repetia como um mantra: é preciso crescer, desenvolver, expandir etc.

O ponto de partida dessa ideologia é muito positivo, já que, realmente, a ideia de expansão parece ter base em uma intuição profunda que todos temos. Todos queremos crescer, expandir, avançar, e isso nos leva à busca do que está sempre à frente. Queremos tudo de última geração. Mas agora, no Século XXI, podemos olhar para trás e perceber o rastro destrutivo e predatório que esse padrão de pensamento vem deixando no mundo nos últimos cinco séculos. Seja na natureza, seja na saúde psíquica da sociedade humana, a ideologia do progresso, em certa medida, tem um efeito monstruoso e devastador. 

Visto isso, cabe refletirmos: até que ponto devemos buscar o progresso material? Sabemos que na natureza existe uma relação intrínseca de ação e reação, logo, todo tipo de avanço no aspecto material irá acarretar em uma reação, correto? Quanto mais lixo, por exemplo, produzimos para sustentar o nosso estilo de vida, mais poluição será gerada e poderá, consequentemente, contaminar rios, lagos e o ar. Já observamos claramente os efeitos desse tipo de comportamento, que quanto mais mergulha no progresso dos bens materiais, mais, ao que nos parece, afasta-nos do progresso espiritual que deveríamos buscar. 

As novidades que sempre surgem à nossa frente são frutos, nos dias atuais, do progresso material. Desejamos cada vez mais os celulares da moda, os carros mais rápidos, e vivemos imersos nesse grande jogo mercadológico. Apesar dos grandes benefícios que tais recursos nos propicia, é fundamental percebermos que talvez não estejamos utilizando-os de forma adequada. Além disso, ao mesmo tempo em que avançamos a passos largos nesse campo, em outros aspectos, é notável que pairamos sobre um mar de crises: crises migratórias; crises no mercado financeiro; crises ambientais; produção de armas químicas, atômicas etc. Grande parte desses problemas é fruto de uma forma de vida egoísta e que busca apenas o benefício próprio. Assim, alimenta-se a competitividade e o sentimento de que cada um de nós deve ser o “primeiro” em tudo, o que, obviamente, não é possível de acontecer.

A ideologia do progresso surgiu para melhorar a condição humana, mas com o passar do tempo ela foi colocada acima do seu próprio fim. Hoje se pensa mais em progredir tecnicamente do que em melhorar como Ser Humano, e muitas vezes ocorre um pioramento da condição humano à medida que se desenrola um grande avanço tecnológico. Mandamos nossas sondas para outros planetas e, ao mesmo tempo, não conseguimos deter a marcha do desflorestamento; aprendemos a fazer transplante de coração, mas há índices alarmantes de suicídios, porque não conseguimos chegar ao coração dos que sofrem e não encontram alternativas.

O avanço e o progresso são sempre necessários? Quando nos ajuda e quando nos atrapalha? Essa é a reflexão que o curta nos pede. Aquela senhora idosa é como a sociedade humana, e o robô antigo representa as condições de vida e de convivência que temos. Além disso, a engrenagem sofisticada que a submete a exercícios para além de seus limites físicos representa essa marcha acelerada que vivemos hoje, caminhando para onde ninguém sabe, buscando um progresso baseado numa sede que nunca se sacia, que não sabe o que necessita, e que aos poucos vai nos levando ao desequilíbrio.

Diante desses apontamentos, precisamos olhar para os padrões da Natureza e entender o que é progressivo ou não. Isso é um discernimento que necessitamos ter. O que contribui para o desenvolvimento do Ser Humano? O que tem destruído o Ser Humano? O verdadeiro progresso está no afeto, no respeito aos limites do corpo, da Natureza, está no uso justo do tempo, está no Amor a todos os seres e a todas coisas. Como dizia Renato Russo, “é preciso Amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há”.

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