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Curta “Dechen”: Amar é Deixar Livre

Tempo de leitura: aproximadamente 4 minutos

É muito curiosa a forma pela qual o Ser Humano lida com o Amor. Parece que quanto mais gostamos e amamos algo, ou alguém, mais próximos queremos ficar do objeto amado. Imagine uma mãe com o filho, ela sempre o quer por perto para cuidar dele e amá-lo de todas as formas possíveis. Imagine uma pessoa que gosta muito de plantas e flores, sempre vai ter muitas à sua volta. Uma pessoa que ama os animais, é provável que ela crie mais de um gato, cachorro ou peixe na sua casa.

Agora imagine alguém que gosta de pássaros, os ama tanto que gostaria de vê-los todos os dias. Então essa pessoa pega um pássaro e coloca na sua casa. Porém, a forma que garante que ele esteja sempre lá todos os dias para ela, é colocando-o numa gaiola. De tanto o “amar”, ela o aprisiona. Que paradoxo, não?

Então, o que é o Amor?

No início do vídeo abaixo, há uma citação do Dalai Lama que diz:

Reduza o apego à vida.

Elimine o apego a este samsara.

Elimine o cuidado (excessivo) consigo mesmo.

Assista e veja como podemos refletir sobre esta ideia.

O pequeno monge Dechen, por tanto Amor que sentiu pela flor, achou que o melhor que podia fazer por ela era retirá-la de seu jardim e colocá-la num vaso, distante de sua origem, protegida de qualquer tempestade. Além de protegê-la, ele podia admirá-la o quanto quisesse. Porém, com o passar dos dias, o que aparentava ser a melhor opção para a flor, se tornou o maior mal, e então ela começou a definhar. Somente depois Dechen percebe que o melhor para a flor era deixá-la no ambiente a qual pertencia, e que lá ele poderia apreciá-la ainda mais, pois lá ela estaria com mais Vida e Beleza do que no vaso em seu mosteiro.

Isso lembra um pouco o diálogo da rosa com o Pequeno Príncipe na obra de Exupéry. O príncipe coloca uma redoma de vidro em volta da rosa para protegê-la das lagartas, dos outros animais e do vento, a pedido dela. Só que ela mesma chega a conclusão que precisaria suportar “duas ou três lagartas para conhecer as borboletas”, e assim é retirada a redoma de vidro.

A nossa forma de lidar com o Amor é muito bem representada por Dechen e sua flor. De início, queremos ao nosso lado o que mais amamos. Queremos ver todos os dias, acolher, cuidar, conversar… Mas será que esse cuidado que temos com o que amamos, é o melhor? Quem ama pássaros gostaria de ter um em uma gaiola para escutá-lo e vê-lo o dia todo, mas o melhor para ele é viver numa gaiola? Não seria melhor para ele ter a possibilidade de voar de acordo com sua natureza? Tirar uma flor de seu ambiente natural, onde ela criou raízes e decidiu se estabelecer, seria o mais adequado para ela? Por medo da tempestade, o pequeno monge achou que sim, mas para que a flor alcançasse aquele tamanho com certeza já tinha enfrentado muitas outras tempestades, aquela que ele presenciou não seria a primeira nem a última. Muitas vezes fazemos isso com quem mais amamos, os impedimos de voar, queremos restringi-los, deixá-los “presos” ao nosso lado, “presos” ao nosso Amor. Mas o verdadeiro Amor não pode fazer mal a alguém, por ser uma Virtude, por obrigação, só pode tornar o Ser Humano melhor. Quando o objeto que recebe o Amor, seja a flor, o pássaro ou uma pessoa, começa a perder suas pétalas, já não é Amor, e sim apego. O verdadeiro Amor vai nos dar a força e a coragem para ver que a melhor forma de amá-lo é deixar que ele viva as experiências necessárias para seu crescimento e aprendizado, mesmo que implique em dor, em algumas tempestades e lagartas a frente.

Aos que mais amamos, desejamos que não sofram nunca, que nunca passem por dificuldades, que só encontrem alegrias pela frente. Porém esta forma de Amar não é real… Não é através das adversidades que crescemos? Não foi assim conosco? Talvez na maioria dos casos, Amar não seja colocar debaixo do braço, plantar num vaso, instalar a redoma e torcer pela calmaria. Amar é deixar que aquele Ser tenha as condições para que viva as experiências necessárias para seu crescimento e aprendizado.

Claro que o nosso coração pode apertar quando vemos o Ser amado passando por momentos difíceis, e é óbvio que numa urgência devemos atender a um pedido de socorro. Apesar disso, devemos entender que, no fundo, no fundo, são as dificuldades que irão lhe fortalecer a alma. Por esse motivo, em nome do nosso Amor, não podemos privá-lo disso.

Como diria Nietzsche, Aos meus amigos, aos meus verdadeiros amigos, desejo todas as provas do mundo”.

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