O termo “relacionamento” sempre nos aparece associado a um tipo de ligação afetiva entre pessoas. Mas quando falamos neste assunto, um ponto sempre surge para a reflexão: o desafio de viver uma relação a dois. Por vezes, se torna pesado demais quando um dos indivíduos tende a renunciar a si mesmo para viver a vida do outro. Dessa forma, a relação que antes se iniciou com duas pessoas, passa a ficar com apenas uma, pois com o passar do tempo um deles perde a sua identidade e se torna um “acessório” do outro. É importante lembrar que relacionar-se é, antes de tudo, partilhar; é integrar a partir de elementos diferentes que se complementam. Dessa forma, o outro deve nos ajudar a nos conectar com a nossa própria identidade, para que possamos partilhar o que temos de melhor em nós mesmos. O problema surge quando um passa a exigir que o outro abandone a si mesmo para se adequar a alguma forma.

Quando decidimos iniciar uma relação, levamos bagagens, experiências e anseios que pertencem somente a nós mesmos, e não ao outro. Quem tem consciência disso, sabe definir os seus limites e os limites do seu parceiro. Mas quem sou eu e quem é o outro dentro do relacionamento? Esta é uma pergunta importante que deve ser respondida ao adentrar numa relação.

Quando você conhece a si mesmo, ou seja, tem um grau de noção dos aspectos da vida interior, é possível perceber todas as nuances que afetam sua experiência e, naturalmente, o outro. Quando sabe o que tem dentro de si para partilhar numa relação, você não se cobra além do necessário, pois entende perfeitamente seus limites e, do mesmo modo, é capaz de compreender o ponto de vista do seu parceiro(a). Mais do que uma troca, é possível compreender que a chave da realização em qualquer tipo de relação, seja ela amorosa ou de amizade, se torna plena quando entende que no ato de se doar ao outro você também se realiza. Não há sacrifícios quando o amor está como princípio, meio e fim, logo, se doar à relação é o que, em grande medida, faz a diferença entre uma relação saudável e madura ou uma relação infantil, que usa o amor como moeda de troca. Assim, entendemos que a única pessoa responsável pela sua felicidade é você mesmo.

O curta “The Gift” nos ensina essa e outras ideias de forma sutil e carismática. Vencedor de quase dez premiações no mundo do cinema, o curta apresenta a história de duas pessoas em uma relação. O casal, porém, vive uma dinâmica de troca, e o amor se converte, paulatinamente, numa série de cobranças e exigências por parte de cada um. Logo a relação se torna um cabo de guerra, e aquele que estiver mais “forte” acaba derrubando o outro. Naturalmente, essa relação não funciona, e o casal se separa. Porém, das cinzas desse amor mal realizado surge uma terceira pessoa que ensina a um dos personagem o que é, de fato, amar.

O curta é um exemplo clássico de como boas ideias cativam o ser humano. Sentimos necessidade de viver o amor nessa esfera, mesmo que ainda não sejamos plenos em nossas formas de amar. Porém, sabemos que este é um ideal e que devemos caminhar nesta direção.

Segundo alguns psicólogos, dividir a vida com alguém exige do indivíduo identidade e maturidade. Entretanto, na maioria das vezes isso nos falta, pois, geralmente, entramos nos relacionamentos exigindo tudo do outro e ficamos decepcionados quando o outro se nega a nos dar o que queremos. Falamos que esse é um relacionamento infantil, pois, em grande medida, nos comportamos dessa mesma maneira quando crianças. Quem de nós, na fase infantil, não ficava chateado quando pedia algo para os nossos pais e eles não davam? Fechávamos a cara; às vezes, fazíamos “birra”; e graças a essas “táticas”, por vezes, conseguíamos o nosso objetivo. Quando levamos esse comportamento para a vida adulta, principalmente nas relações amorosas, acabamos reproduzindo um padrão que já não condiz com nossa idade, tanto física como psicológica. 

É fato que comumente projetamos nas pessoas nossos desejos, e cobramos delas as virtudes que não possuímos. Quase inconscientemente, procuramos pessoas com virtudes que admiramos, mas que não conseguimos vivenciar plenamente em nossa vida. Por isso é comum vermos casais em que uma pessoa é disciplinada e organizada, por exemplo, e a outra pessoa tende a não seguir padrões ou regras. Isso ocorre porque buscamos o que nos falta e enxergamos no outro a “compensação” por não possuir tais qualidades. E o resultado de tudo isso são as famosas frustrações e dores que colecionamos. Seja machucando os outros ou sendo algozes, ao longo de nossa caminhada afetiva, acabamos criando feridas difíceis de serem fechadas, o que por vezes nos leva ao isolamento, ao desejo de ficar sozinho e à falta de confiança em outra pessoa em uma relação futura. Porém, um pouco de autoconhecimento e um olhar mais sincero para o nosso interior nos ajudariam a diminuir as nossas fantasias e, certamente, as expectativas externas seriam trocadas pelas batalhas e conquistas internas.

Por outro lado, no mundo atual, os sentimentos se transformaram em uma moeda de troca ou em um tipo de investimento, em que as pessoas passam a calcular os riscos e os benefícios a curto, médio e longo prazo ao dividir a vida com alguém. A busca pelo lucro a qualquer preço se tornou um modo de viver e atuar no mundo, então, passamos a “coisificar” tudo, inclusive, as nossas relações afetivas. Sempre há aquela pergunta em mente: “O que vou ganhar com isso?”. E, caso o projeto afetivo não tenha êxito, nos sentimos com um enorme prejuízo e dizemos coisas do tipo: “Dei a minha vida para viver essa relação e olha só o que ganhei?”, como se a relação a dois expressasse uma transação financeira que deu errado. Como consequência, esse tipo de comportamento nos reduz a um mero investidor do mercado afetivo e retira de nós a nossa própria condição humana.

Diante disso, é preciso que fique claro uma coisa: só é possível existir um relacionamento afetivo saudável entre duas pessoas plenamente conscientes de suas individualidades, ou seja, somente dois indivíduos plenos se relacionam de forma saudável. Quando se busca no outro aquilo que não foi capaz de encontrar dentro de si mesmo, o relacionamento estará fadado à frustração. 

Vamos aprofundar um pouco mais esse último ponto. Quando buscamos no outro o que nos falta, não conseguimos ver um outro Ser Humano, mas sim uma “coisa” que será útil para preencher o meu vazio. Assim, acabamos utilizando as pessoas. E quando essas não correspondem às nossas expectativas, o que ocorre? Frustração, tristeza e uma sensação de que fomos enganados. É como se tivéssemos “comprado” um item no supermercado e quando abrimos a sua embalagem, vemos que veio outro objeto. Somente aquele que tem posse de si mesmo, que sabe quem é, pode enxergar o outro Ser Humano como ele realmente é, e não a partir de fantasias que nascem das suas carências. Dessa forma, é possível construir uma convivência rica e profunda, pois cada um participa oferecendo o que tem de melhor, e aceitando o outro com todas as suas qualidades e defeitos.

Precisamos, então, aprender a ressignificar as nossas relações afetivas, mas para isso é imprescindível o autoconhecimento, pois com ele, aprenderemos a conviver conosco mesmos. E esse é o primeiro passo que devemos tomar antes de compartilhar a vida com alguém porque uma relação é sempre uma forma de ofertar e não de pedir. E só oferta quem tem algo para dar! Portanto, olhemos para dentro, pois sempre há algo de muito bom a dar. Acredite!

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