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É muito provável que você nunca tenha ouvido falar neste Deus, Seraphis ou Serápis para algumas traduções. Mas se você voltasse há dois mil e trezentos anos na região da Alexandria no Egito, se surpreenderia com a força e a presença quase unânime dessa divindade naquela região no período do reinado ptolomaico. A pujança, o simbolismo e a influência de Seráphis se estendia do Egito à Grécia, criando um sincretismo intercultural jamais visto.

Representado por um homem maduro, alto, forte, com barbas longas e sentado em um trono com uma corbelha sobre a cabeça. Traz na mão esquerda a serpente de asclépio e sentado ao seu lado direito, na base do trono, o cachorro de três cabeças Cérbero, que na mitologia grega representava o guardião que ficava na entrada do mundo subterrâneo dos mortos. Cada aspecto constitutivo da imagem e do mito de Seráphis guarda ideias muito profundas da Alma Humana, além de serem aspectos das mitologias egípcia, grega e macedônica.

A nossa estreita visão ocidental normalmente não consegue alcançar o sentido dessas imagens de Deuses antigos. Mas uma chave para nos permitirmos entender um pouco a importância disso é a seguinte: considere que essas culturas antigas quando queriam falar de algo muito sutil, muito profundo, muito misterioso que não conseguiam descrever com a linguagem comum, concreta e informativa, usavam um recurso estratégico que é o símbolo. Entendendo assim, podemos olhar para toda a simbologia egípcia, grega, helenística e perceber o quanto de conhecimento profundo sobre a realidade está criptografado nesses símbolos. O Deus Seraphis é mais do que apenas um símbolo, é um emblema, a reunião de vários símbolos.

Os historiadores tendem a construir uma historiografia de Seráphis como sendo uma divindade que surgiu na era ptolomaica, período posterior à morte de Alexandre o Grande, por volta do Século III antes de Cristo, mas o que acontece nesse período é apenas a construção da imagem que nos chega hoje, a partir da oficialização de cultos e templos em torno desta divindade. No entanto, Seráphis é um Deus muito mais antigo. O que o reinado ptolomaico faz é reunir vários símbolos das culturas que estrategicamente ele pretendia fundir sob o seu comando em uma divindade sincrética, e para isso escolhe esse Deus antigo a quem nomeia de Seráphis. No entanto, quando o faz está convocando uma série de símbolos muito antigos e que talvez não fazia ideia da força simbólica que estava movendo.

Nas entrelinhas do símbolo do Deus Séraphis está o simbolismo de Ápis, uma divindade antiga do Egito que representava a força da Natureza canalizada através da fertilidade para nutrir a Humanidade fisicamente permitindo sua evolução. Esse aspecto da Natureza era representado por um boi. Observe que esse é um dos aspectos mais definidores de uma civilização, a relação desta com a Natureza a fim de extrair dela os nutrientes para a sobrevivência e evolução.

A forma como uma civilização trabalha essa relação pode ser catastrófica, predatória e monstruosa a exemplo do que acontece com nossa civilização ocidental hoje. A fim de sobreviver e expandir, a nossa cultura desenvolveu mecanismos muito letais de exploração da força da Natureza, o que se vê no extrativismo ignorante dos colonizadores europeus durante a Expansão Comercial Marítima, época do surgimento das colônias americanas. O que se vê igualmente no surgimento da Indústria, onde os detritos eram lançados nos rios, sem se fazer a menor ideia das consequências letais dessa ação. O simbolismo do Deus Ápis era um jeito inteligente de aquelas culturas lidarem com a força da Natureza frente à nossa necessidade de sobrevivência e expansão.

Outro símbolo muito importante que aparece no Deus Seraphis é a figura de Osíris, um Deus grego que é assassinado pelo seu irmão Seth. Os pedaços de seu corpo são espalhados ao longo do Rio Nilo, levando sua esposa Ísis à procura de cada parte para reuni-las novamente em um corpo único. Esse mito representa a reunião dos pedaços de Deus que encontramos dispersos no vasto mundo ao nosso entorno. A Beleza de uma noite cheia de estrelas, a vastidão das águas oceânicas, as florestas, o canto dos pássaros, o sorriso de uma criança, tudo isso são pedaços Divinos que precisamos reuni-los a fim de encontrarmos em algum lugar da nossa consciência a Unificação, o sentido profundo de todos esses fenômenos que nos circundam, encontrando assim o real significado e expressão de Deus na Vida.

O vaso que o Deus Seraphis traz em sua cabeça representa a conexão com os Mistérios, alguns estudiosos associam-no também com a abundância, outros com a justa medida, pois a Sabedoria e Justiça são Virtudes que se manifestam no equilíbrio e geralmente não estão presentes nos extremos. Seráphis convoca então esse discernimento do que é o meio das coisas, nem muito, nem pouco: o meio, o justo, o equilibrado.

O cachorro de três cabeças ao seu lado nos convoca a ideia da morte, a noção de transitoriedade, a ideia de que por mais que nos sentimos eternos, nossos corpos são finitos, passageiros e efêmeros, mas o seu fim não é o fim da história. Palpita em todos nós a intuição de continuidade para além da morte.

A serpente de Asclépio, o Deus da medicina para os gregos, símbolo inclusive que hoje se encontra na bandeira da Organização Mundial de Saúde (OMS), está nas mãos de Seráphis convocando a ideia de que saúde não se resume apenas a remédios e procedimentos técnicos, mas é algo que está associado à completude Humana. Saúde tem a ver com Espiritualidade, Justiça, relação sábia com a Natureza, Consciência de finitude e Eternidade. É algo para além dos limites da matéria.

Agora, se você juntar todas essas ideias, todos esses impulsos profundamente Humanos em um único símbolo, de modo que quem o contempla convoca para dentro de si a pujança da Natureza encontrando com a marcha civilizatória Humana, bem como a certeza da presença Divina em tudo que o rodeia, junto com a consciência de transitoriedade Humana e de vida após a morte, além da idéia profunda de saúde que reúne o físico e o metafísico, esse símbolo é o símbolo do Deus Seraphis.

Lamentavelmente a modernidade diminuiu a nossa capacidade de ler os símbolos. A nossa racionalidade técnica, focada no concreto, no imediato, na informação objetiva nos furtou a sensibilidade de contemplar o Eterno, o Transcendente, o Profundo e aos poucos vamos alimentando um jeito de viver que é raso, frio e esvaziado de sentido. Não tenha dúvida que é esse esvaziamento que nos leva a tantas patologias psíquicas, tantas angústias, tantos suicídios e tantos quadros agudamente depressivos.

Não precisamos hoje retornar aos cultos a divindades como Seraphis, não é isso do que se trata, mas do alto do Século XXI, com todo o esclarecimento a que chegamos, precisamos resgatar o simbólico, a magia por trás dessa linguagem, sem isso não acessamos os Mistérios que subjazem à superfície de nossa cultura. Sem esse acesso empobrecemos o Espírito Humano. Hoje ostentamos um avanço descomunal na tecnologia, mas é triste ver o quanto toda essa ferramenta tão avançada é desperdiçada em bobagens, mentiras, falseamentos de toda sorte e distanciamento do Profundo, do Mistério e do Sentido da Vida.

O símbolo do Deus Seraphis é um grito pelo despertar da consciência profunda, um convite à transcendência, um sacolejar da Alma Humana para se acordar do sono da ignorância. Acordemos, despertemos para o Mistério, pois isso é uma urgência diante do momento em que vivemos hoje. Que essa breve reflexão em torno desse simbolismo enterrado na areia de nosso esquecimento civilizatório possa fazer nascer em nós o desejo de conhecer mais e aprofundar essa carga simbólica tão bem esculpida na imagem do Deus Seraphis.

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