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A mitologia é um campo fértil de ideias. É através de suas narrativas que podemos conhecer não somente os deuses, heróis e sagas que uma cultura humana produziu, mas principalmente as ideias que guiavam aqueles homens e mulheres do passado. Porém, é preciso muito cuidado ao se estudar os mitos, pois facilmente podemos cair em contradições e interpretar de forma literal uma narrativa que é, majoritariamente, simbólica. Considerando esse aspecto, é preciso estar atento para não incorrermos nesse erro e nos desviar do caminho.

Um exemplo clássico sobre isso é o mito de Cronos. Por muito tempo, esse mito foi pouco compreendido pelo senso comum, que apontava a incoerência no fato do pai comer os próprios filhos. Se analisarmos apenas o sentido literal dessa narrativa, poderemos constatar que, de fato, o mito não tem nada de relevante; ao contrário, torna-se até extremamente macabro. Porém, quando observamos o símbolo acerca do tempo que engole tudo que nasce dele, percebemos que essa história nos ocorre todos os dias, e diariamente Cronos, o tempo, tenta nos engolir. 

Percebe como o sentido desse mito mudou completamente? Agora não o enxergamos como algo negativo e sanguinário, mas como uma bela e importante ideia que devemos carregar conosco ao longo da vida para que não sejamos devorados por esse titã implacável. Assim, funciona a análise dos mitos, sempre tentando enxergar o seu aspecto mais profundo para que não sejamos afogados na superficialidade da interpretação literal.

Considerando essas questões, hoje vamos nos debruçar sobre um mito que causa certa polêmica devido a sua má interpretação: o mito da Medusa. Apesar de ser uma das narrativas mais famosas da mitologia grega, ainda hoje levanta-se uma série de questões acerca da injustiça para com a jovem sacerdotisa de Atena que foi transformada nesse monstro e depois derrotada por Perseu. Mas, antes de entrarmos nessa questão, vamos conhecer o mito primeiro. 

Conta o Mito que Medusa era uma jovem sacerdotisa do templo de Atena, a deusa da sabedoria. Sua beleza chamava atenção de muitas pessoas, inclusive de deuses e seres mitológicos. Naquela época, as sacerdotisas do templo de Atena faziam um voto de castidade como símbolo de sua pureza perante a deusa, mas Medusa acabou quebrando seus votos quando se deitou com Poseidon, o deus dos mares. Em algumas interpretações, fala-se que o deus a forçou ao ato; porém, também há versões que apontam que a relação entre a mortal e a divindade foi consensual. É justamente nesse ponto que surge a polêmica na mitologia, mas deve-se entender esse ponto através do símbolo da quebra dos seus votos, a quebra de um juramento.

Para os antigos gregos, os juramentos eram tão sagrados que nem mesmo os deuses poderiam ir contra eles. Ou seja, se uma divindade quebrasse um juramento feito, seria punida e castigada. Logo, o que ocorre com Medusa é uma punição pela quebra de um juramento, mesmo que, pela lógica da narrativa, ela não a tenha feito por sua própria vontade. Assim, com seus votos profanados, Atena é a responsável por castigá-la, transformando-a em um monstro com dentes de tigre e corpo de serpente, e todos os seus fios de cabelo se tornam víboras. Seu rosto fica tão deformado que qualquer pessoa que a olhasse fixamente se transformava em pedra. Só quem consegue destruir esse monstro, decapitando-o, é Perseu, com a ajuda de Atena. 

Para entendermos o simbolismo por trás deste mito, primeiro temos que entender que todos esses aspectos estão dentro de nós mesmos: a Deusa Atena é a Sabedoria em nós, Medusa é a nossa parte que profana a sabedoria e opta por uma relação promíscua com a materialidade, já que o mar, na mitologia, representa o mundo material. Essa relação promíscua com a materialidade podemos entender como os vícios de uma forma geral, ou seja, a luxúria, a preguiça, a gula, a mentira, o ódio, a corrupção etc. Essa forma de Vida voltada para a matéria é um tipo de relação que vai gradativamente nos transformando em seres monstruosos, cheios de deformações. Os cabelos em forma de serpentes venenosas representam formas mentais perigosas, provenientes da ignorância, dos desejos e dos vícios grosseiros. Tais formas mentais petrificam nossa existência, nos paralisando e nos levando à superficialidade da Vida. 

Já Perseu representa outra faceta, é o herói dentro de nós, o impulso para o autoaperfeiçoamento. Somente ele pode vencer esse estado monstruoso da Medusa, a que, por vezes, costumamos chegar em nossas Vidas, mas ele só conseguirá vencer com a ajuda de Atena, ou da Sabedoria.

Essa tensão entre a Sabedoria e os vícios é uma constante em nossa existência. É importante olhar para esse mito não como uma fantasia distante, mas como uma forma de encontrar sua interpretação em nosso cotidiano. Há uma palestra da professora Lúcia Helena Galvão, no link abaixo, na qual ela chega a listar uma série de exemplos de formas mentais que todos nós temos e que são verdadeiras serpentes de medusas, por exemplo, “se eu não me comprometer, serei livre”, essa é uma forma mental medusiana. A ideia de que liberdade é a ausência de compromisso é fazer o que der na cabeça e não seguir regras, isso é um jeito de pensar venenoso, perigosíssimo e que pode nos petrificar por muito tempo, como as serpentes da Medusa. 

A Vida exige compromisso, regras e muita ordem. Sem isso não andamos, não evoluímos, não construímos nada. Mas, por incrível que pareça, esse monstruoso modo de pensar vem se tornando predominante. Isso é o que, em geral, se entende por liberdade hoje em dia. A professora cita outras formas também, como a ideia de que ser produtivo é estar sempre estressado, afobado, preocupado etc. Isso não é verdade, não é sábio e vai corroendo nossa existência, nos transformando em corações de pedra. Isso acaba nos tornando um tipo de pessoa que não se permite ser sensível, sorrir e levar a Vida com leveza e serenidade. 

Poderíamos citar muitas outras formas mentais não faladas por Lúcia Helena na palestra, mas que também são evidentes nos dias de hoje. Como por exemplo, a falsa ideia de sucesso. Pensa-se que ter sucesso é sempre triunfar em tudo, mesmo que para isso se faça uso de meios incorretos. 

De forma geral, todos esses pensamentos são sinais de que estamos virando uma Medusa. E quando chegamos nesse ponto, só há uma forma de vencer, é preciso recorrer à Atena, à Sabedoria. Somente com a ajuda dessa Deusa conseguiremos decapitar a Medusa em nós. 

E como encontrar a Sabedoria? Observe que os gregos para falarem desse Ideal geralmente começam a falar de um lugar sagrado, um templo, uma divindade etc. Com isso, não querem associar a Sabedoria a uma forma religiosa específica, mas estão mostrando que este é um caminho para a transcendência, ou para a superação dos ditames da materialidade grosseira, é a busca pelo Sublime e pelo Mistério. Só vencemos essas formas venenosas de pensamento quando começamos a nos abster de vícios grosseiros, quando refinamos nossos gostos, dominamos nossos desejos e firmamos um contato com o Eu mais profundo e misterioso que habita em nós. 

Outro ponto que queremos enfatizar é que a Sabedoria não está na quantidade de leituras que fazemos, nem nos conhecimentos intelectuais que adquirimos, mas no jeito como nos relacionamos com a Vida, com todos os seres e com nós mesmos. Quando buscamos uma relação Sagrada, de verdadeiro Amor e Compromisso com tudo o que existe. Aí está a Sabedoria que vence a Medusa em nós.

Então, vamos nos preparar para essa batalha e enfrentar essas serpentes em nossas cabeças?

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