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O Deus Seth e a necessidade do Caos

O Universo é dual. Pelo menos é essa a forma que o compreendemos: dia e noite, bem e mal, claro e escuro, acima e abaixo. Nossa mente cria as dualidades como um modo de podermos entender melhor o que nos cerca. Entretanto, se investigarmos a fundo essa ideia, perceberemos que tudo está interligado e que as dualidades são um modo de percepção aparente. 

Partindo disso, vemos que no Universo há processos que, num primeiro momento, entendemos como ruins ou caóticos devido ao seu resultado, assim como há eventos que geram ordem e Cosmos. Essa dualidade (Cosmos X Caos), desde os tempos antigos, tem sido base de discussões entre filósofos, religiosos e intelectuais das mais diversas civilizações. No Antigo Egito, essa relação foi demonstrada simbolicamente pelo mito da contenda entre Osíris e Seth.

Conta o mito que, em tempos remotos, o Egito era governado pelos Deuses. Osíris era o rei do Egito e comandava um reino de paz e prosperidade, o que causava a inveja do seu irmão, Seth. Este queria assumir o lugar do irmão, mas não tinha meios de roubar o trono e muito menos capacidade de enfrentá-lo em um duelo. Entretanto, Seth pensou em um plano para assassinar seu irmão e chegar ao poder. Primeiramente, ele tirou as medidas de Osíris e mandou fabricar um sarcófago com as exatas medidas do irmão. Quando a caixa ficou pronta, Seth organizou um festival para celebrar a prosperidade do reino. Durante as comemorações, ele chamou todos para um jogo: quem conseguisse entrar na caixa e coubesse perfeitamente nela seria o dono da arca. Muitos fizeram fila e tentaram entrar no móvel, mas somente quando Osíris deitou-se dentro da caixa foi descoberto quem era o vencedor. Como “prêmio”, Seth trancou Osíris dentro do sarcófago e o cortou em14 pedaços. Para garantir que seu irmão não voltaria à vida, o Deus do Caos, Seth, jogou os pedaços do antigo rei do Egito no rio Nilo e assim assumiu o controle de toda a civilização.

Presenciando a cena de terror, Ísis, esposa e irmã de Osíris, busca reunir as partes do seu marido e trazê-lo de volta à vida. Enquanto isso, Seth governava o Egito e mergulhava todo o reino em miséria e guerras. Ísis consegue recuperar 13 das 14 partes de Osíris e, mesmo falhando em sua missão de ressuscitá-lo, ainda consegue engravidar de seu falecido marido. O filho gerado dessa União, chamado Hórus, seria o responsável por retirar Seth do trono e ocupar seu lugar de direito como governante. 

Ao chegar à fase adulta, Hórus, desafia seu tio para um duelo. Seth consegue cegar um dos olhos do sobrinho, mas, no fim, é vencido e fica submisso ao Deus Falcão, como também é conhecido Hórus. Sua punição, porém, não envolve castigos físicos ou mesmo a morte por tudo o que fez. Em verdade, Seth é incumbido de proteger a barca de Rá, o Deus do Sol, e evitar que esta fosse engolida pela serpente da escuridão, Apófis. Portanto, todos os dias, ao navegar pelo submundo, Seth deveria lutar e proteger o Sol para que este pudesse nascer e iluminar a vida. Um dia, segundo o mito, Seth irá perder essa batalha e Apófis engolirá o Sol, sendo esse evento o fim do mundo. 

Quando escutamos esse mito pela primeira vez, é comum pensarmos que ele não faz o menor sentido e que, na verdade, os egípcios deveriam ser “ingênuos” de acreditar nessas histórias. Porém, para além da narrativa, precisamos observar os símbolos contidos na contenda entre Osíris e Seth. O primeiro deles, e talvez o que fique mais perceptível, trata da oposição entre Osíris e Seth: enquanto um busca a ordem e faz um governo harmônico, o outro caracteriza-se pelo Caos, pela guerra e pela destruição.

A dualidade, como já falado no texto, representa um modo de percepção da Natureza. Até mesmo nas leis da física essa dualidade se apresenta. Por exemplo, a Lei da Gravidade atrai e busca manter os corpos celestes unidos, organizando e garantindo seus movimentos. Por outro lado, temos a Lei da Entropia, que nos mostra que todo sistema tende aos Caos, à desorganização. Portanto, o contraste entre os dois Deuses nada mais é do que uma percepção de como se manifesta o Universo, em incansáveis ciclos de Cosmos e Caos, ordem e desordem.

Pensando nisso, Seth cumpre um papel importante na mitologia egípcia por se apresentar como a contraparte de Osíris e, mais tarde, a de Hórus. Em nossa vida é fundamental termos essas posições duais, pois só assim reconheceremos o que é bom e o que é ruim. Na cultura popular, falamos em “separar o joio do trigo”, ou seja, saber distinguir o que é bom do que não é. Seth, a partir deste símbolo, nos ajuda a diferenciar quais ideias e posturas nos são dignas e boas e quais não são.

Esse símbolo também é importante para entendermos que Seth não é necessariamente mau por si só, mas ele é a representação de uma Força da Natureza. Quando essa força é utilizada de maneira indevida, com propósitos egoístas, acaba por causar destruição e grandes perdas. Entretanto, se bem gerida, essa força destrutiva pode ser uma grande aliada em nossos combates. No mito, o Deus do Caos fica responsável por combater Apófis, a grande serpente, e garantir a continuidade do Sol, o que mostra o valor e a importância de Seth. 

Trazendo para nossa vida cotidiana, podemos compreender que, de igual modo, quando canalizamos nossas energias “caóticas”, ou seja, energias que muitas vezes vêm do instinto, podemos realizar grandes tarefas. Não são poucos, por exemplo, os casos em que mães conseguem fazer proezas para salvar seus filhos ou o contrário. Essa força descomunal, que na maioria das vezes está escondida em nós, é usada de maneira inconsciente, mas é uma prova de que temos essa capacidade de realizar grandes feitos. O que cabe a nós é saber direcionar e controlar essas energias para o Bem Comum.

O mito da contenda entre Osíris e Seth ainda nos mostra um aspecto mais profundo acerca da percepção egípcia do mundo. Para o antigo povo do Nilo, o mundo funciona em ciclos, de modo que uma hora a destruição, o Caos, reinará sobre o Universo. Osíris sendo morto e perdendo seu posto de governante é um símbolo dessa visão de mundo, uma vez que o Caos chega ao poder. Entretanto, uma nova ordem surge e vence o Caos. Podemos compreender, portanto, que, para os egípcios, a vida flui de maneira rítmica onde ora temos Cosmos, ora temos Caos. 

Em nossa vida podemos enxergar esses ciclos de forma nítida. Não apenas com o dia e noite, mas dentro de nós percebemos que estamos mais felizes ou mais tristes, a depender do momento da vida, mais produtivos ou menos produtivos… Há momentos em que somos fraternos e buscamos nos unir, já em outros momentos, estamos focados apenas em nós mesmos e não enxergamos o outro. O Ser Humano também enfrenta a dualidade e convive diariamente com a batalha Hórus e Seth. Eles continuam a lutar dentro de nós e assumem, de maneira clara, o nosso controle. O mito egípcio, nesse ponto, já não retrata a cultura desses antigos homens, mas fala-nos sobre uma Verdade Universal que pode ser observada em toda a Natureza.

Portanto, saibamos canalizar nossas energias para o Bem. No entanto, não podemos permitir que o Caos tome conta de nós, pois são nesses momentos que nos sentimos frágeis e sem força para nos realizarmos. Vale lembrar que Seth não deve ser encarado como um Deus necessariamente ruim, mas sim como uma Força que possuímos e que precisamos comandar. Se deixarmos nossos instintos “soltos”, com liberdade para nos dominar, certamente nossa vida será regida de maneira desordenada. Que tenhamos então esse ponto acima, para além da dualidade, e que canalizemos nossa energia para o Bem Comum. Essa talvez seja a nossa principal batalha, diária e fundamental para fazer o Sol nascer dentro de nós.

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