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Toda civilização tem seus mitos, disso já sabemos. Mas, por qual motivo criamos mitos? Por muito tempo, pensou-se que a mitologia se referia somente às histórias fantasiosas que buscavam explicar o mundo através de uma ótica religiosa. Assim, os raios e trovões não eram causados por uma fenômeno meteorológico, mas pela vontade de Zeus. Dentro dessa perspectiva, podemos pensar que a civilização em que vivemos superou esse modo de ver o mundo, sendo esse o produto de Divindades que regeriam a natureza. Passamos a desenvolver a ciência e a explicar o mundo através dela, com seus experimentos e teorias. Ainda assim, por que os mitos de civilizações tão antigas ainda continuam a existir em nosso mundo, sendo contados e recontados ?

Primeiramente, devemos compreender que os mitos não são somente narrativas de cunho religioso, mas sim uma maneira de transmitir ideias. Toda mitologia, com seus Deuses e Heróis, busca ensinar sobre a natureza humana, suas realidades psicológicas e os dilemas que encaramos a todo momento. Mais do que isso, grande parte da mitologia tinha como função o desenvolvimento de uma vida moral para os homens e mulheres que viviam suas concepções, ensinando-lhes o que era certo e errado e qual desses dois caminhos deveriam escolher. Ao estudá-los, podemos não somente conhecer a história e modo de vida dessas civilizações, mas também retirar ensinamentos atemporais sobre a natureza humana.

Se considerarmos esse ponto de vista, podemos compreender que os mitos sempre existirão na humanidade, uma vez que possuem ideias que servem não somente para as culturas nas quais foram desenvolvidas, mas para todos nós. Visto isso, hoje conheceremos um dos principais Deuses da Civilização Babilônica que surgiu na região da Mesopotâmia há mais de 3 mil anos. Falaremos de Marduk, o Deus dos deuses.

Falar do Deus Marduk nos obriga a conhecer um pouco da cultura em que a Divindade foi concebida: os Babilônios. Situados ao sul da Mesopotâmia, esse povo chegou a dominar a região após destituir os Acádios e estabelecerem o primeiro código de conduta do mundo: o código de Hamurabi. As rígidas leis de Hamurabi fez com que a Babilônia crescesse pelos séculos, estabelecendo sua cultura por todas as cidades mesopotâmicas. O grande panteão desse povo dava à cada cidade escolher a Divindade que regeria e protegeria seus habitantes, de maneira similar ao ocorrido na Grécia. Dentro dessa lógica, as principais cidades do Império Babilônico fizeram com que seus Deuses protetores se destacassem dentro dos mitos e cosmogonia desse povo. Desse modo, Marduk, que era o Deus da cidade da Babilônia, ganhou grande notoriedade e seu culto tornou-se o principal durante o auge dessa civilização. 

Marduk é representado como um homem de barba longa, possuindo quatro olhos, quatro ouvidos e que lança chamas pela boca. O símbolo por trás da quantidade de olhos e ouvidos nos parece claro: a capacidade de ver e ouvir em todas as direções. Sendo assim um eterno vigilante do mundo. O fogo que sai de sua boca é tido como a representação da Sabedoria, uma vez que o fogo, sempre ascendente e vertical, representa o espírito. O fato de Marduk soltar fogo ao falar representa a palavra do espiritual que se traduz como sabedoria. 

Ele também foi considerado o senhor das tempestades, recebendo cultos em sua homenagem durante a primavera, período em que as fortes chuvas do inverno começavam a cessar. Apesar desses atributos, Marduk é, sem sombra de dúvidas, uma Divindade guerreira. Seu principal mito, como veremos, nos apresenta o Deus dos deuses babilônico em uma dura batalha contra o dragão Tiamat, a personificação do caos.  Assim, para se criar o Universo, ou seja, o Cosmos, Marduk precisou enfrentar o poderoso dragão e subjugá-lo.

A batalha entre Marduk e Tiamat não simboliza apenas a construção do Universo e sua harmonia celestial, mas também a própria batalha interna do Ser Humano. A todo momento, vivemos um duelo entre Cosmos e Caos em nossa mente. Desde o momento em que acordamos, em que devemos definir se vamos levantar e realizar nossas tarefas ou ficar na cama, até os grandes dilemas morais de nossa vida, estamos precisando decidir quem será o vencedor desta batalha. Assim, Marduk representa no Ser Humano o seu lado espiritual, que pode conduzir através da correta razão e sentimentos o nosso aspecto mais sublime. Já Tiamat em nós, nada mais, é do que os nossos instintos que a todo momento buscam realizar nossos desejos mais egoístas. 

Do confronto entre essas duas forças nasce a Harmonia, que nada mais é que a própria natureza. Como sabemos, essas duas energias estão presentes na vida natural, pois na natureza ocorre um eterno ciclo de vida e morte, de nascimento e renascimento, na qual todas as energias fluem de maneira harmônica. Assim, a vitória de Marduk sobre Tiamat é um símbolo do Macrocosmos, representando o Universo, mas também simboliza a vitória humana sobre os seus instintos, tornando evidente seu aspecto mais sublime e o que o distingue, definitivamente, dos demais seres da natureza. 

É fundamental refletirmos sobre esse mito, pois seu valor não está em saber se verdadeiramente o mundo foi criado a partir do confronto entre a Divindade e o dragão Tiamat, mas em entendermos o valor simbólico e suas ideias. Imaginemos, por apenas um instante, que todas as decisões em nossa vida deverão levar essa história em consideração. Assim, em nossos atos devemos nos perguntar: ao tomar essa atitude, estarei contribuindo para gerar caos ou cosmos no mundo? Em um nível mais profundo, pensemos sobre as emoções e pensamentos que alimentamos ao longo do dia. Ao guardá-los, seja um rancor, raiva ou qualquer pensamento negativo dentro de nós, isso nos fará melhores ou piores?  Perceberemos, de maneira prática, que Marduk e Tiamat não eram, tanto para os babilônicos como para nós, somente personagens de um mito, mas uma realidade interna que está expressa em todos nós.

Dito isso, que possamos internalizar este conceito. A todo momento, essas energias (chamemos assim) estão em confronto e ambas participam da lógica do Universo. Não achemos, portanto, que uma é “boa” ou “má”, mas que a maneira que as utilizamos é, em grande medida, definida a partir do que nós buscamos. Assim, nem sempre conseguimos enxergar com clareza de qual lado estamos. Nesses momentos confusos, lembrar do mito e seu significado nos dará uma visão nítida do que vamos fazer. 

No fim, a única pergunta que devemos nos fazer é esta: queremos gerar cosmos ou caos no mundo? E em nós? A partir dessa resposta, definimos de qual lado estamos nessa eterna guerra. O prêmio de tantos conflitos será, contudo, o maior de todos: o encontro com nossa melhor parte.

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