Qual a maior pergunta que nós já fizemos a nós mesmos? Isso é, em parte, algo bem particular, uma vez que cada pessoa tem suas próprias indagações. Por outro lado, há perguntas que sempre nos rondam a mente e, uma hora ou outra, nos deparamos com elas. As famosas “perguntas existenciais” – Quem eu sou? Para onde vamos? De onde viemos? – são um clássico exemplo de como acabamos chegando a esse denominador comum quando refletimos sobre as grandes perguntas que a humanidade busca responder.

Créditos: Pixabay.

Dentre elas, está a famigerada “O que ocorre após a morte?” Você já pensou sobre isso? É provável que sim. Longe de incentivar pensamentos mórbidos acerca desse assunto, é preciso, contudo, se preparar para essa realidade que em algum momento será vivenciada por todos nós. Sabendo desse fato, todas as culturas humanas se preocuparam em tentar explicar esse fenômeno da natureza, mas ainda podemos dizer que a morte é um dos maiores mistérios que a natureza guarda.

Mesmo que não saibamos exatamente o que ocorre após deixarmos de respirar, podemos compreender as ideias que envolvem esse tema e perceber como as distintas culturas lidavam com esse fato. Visto isso, hoje conheceremos um pouco mais sobre a percepção da morte para a civilização Asteca que, através do Deus Mictlantecuhtli, buscava revelar um pouco do mistério que está por trás da vida e da morte.

Representação artística da capital do Império Asteca, Tenochtitlán. Créditos: Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México.

De acordo com a tradição Asteca, Mictlantecuhtli era representado como uma caveira banhada em sangue e esse Deus era o Senhor do mundo dos mortos, que tinha como nome Mictlan. Seus aspectos geralmente estão ligados à noite que em diversas tradições simbolizam o mistério em si. Os animais que o representam – a aranha, o morcego e a coruja – também estão ligados a esse aspecto, pois também são criaturas com hábitos noturnos. Devemos notar, portanto, que uma Divindade, seja em qual mitologia estejamos nos referindo, sempre estará cercada de outros elementos que nos ajudam a compreender seu simbolismo e ideias principais.

Estatueta de Mictlantecuhtli, Museu Britânico. Créditos: Wikipedia.

Frente a isso, vamos entender um por um os aspectos que tornam Mictlantecuhtli o Deus do mundo dos mortos. Devemos começar com a sua própria constituição, pois ela em si já nos traz uma série de elementos. Em geral, em nossa cultura, as caveiras são notadamente um símbolo negativo, que para muitas pessoas podem causar um sentimento de repugnância. Entretanto, como os antigos Astecas encaravam essa questão? Pensemos da seguinte maneira: o que, objetivamente, resta de nós após a morte? Nosso corpo, composto de carne, sangue e ossos, acaba por se decompor; nossa energia se esvai a partir do momento que nossas funções vitais deixam de funcionar; e o mesmo ocorre com o pensamento e as emoções. Logo, objetivamente, o que “sobra” de nosso aspecto físico?

Projeção ortográfica frontal da escultura de Mictlantecuhtli, zona arqueológica de El Zapotal, Veracruz. Fonte: La importancia de crear un acervo digital tridimensional del patrimonio cultural de méxico, María Fernanda López-Armenta (2015).

Podemos dizer que os ossos, mesmo após milhares de anos, como nos casos de algumas múmias e outros achados arqueológicos, ainda continuam a representar o que um dia foi um ser humano vivo e saudável. Por essa razão, Mictlantecuhtli é representado como uma caveira, símbolo do eterno. Acima disso, é interessante notarmos que esse Deus, apesar de ter como símbolo algo material como os ossos, ainda representa aquilo que transcende a matéria, que vive em um outro plano: o mundo dos mortos. 

Enquanto que, para a nossa cultura, a morte – e as caveiras – são símbolos macabros e considerados um grande tabu, para os Astecas, Mictlantecuhtli apenas fazia parte da vida cotidiana das pessoas, como também representava a própria ideia de morte, com um significado completamente distinto. Morrer não era um fim, mas apenas uma transição para um outro ciclo. Por isso, os sacrifícios humanos, ocorridos em alguns momentos da civilização Asteca, não podem ser entendidos com a nossa percepção atual do que é a morte e o morrer. Para esse povo, sacrificar-se em nome de um Deus era juntar-se a ele, sendo um símbolo de abnegação da vida física para viver.

Escultura no Museu de Antropologia de Xalapa, Veracruz, México. Créditos: Wikipedia.

Frente a isso, cabe-nos refletir como lidamos com a morte. Hoje em dia, como já apontamos, falar sobre esse assunto é quase um tabu social, apesar de a encararmos todos os dias nos jornais, programas de TV etc. Porém, o que se passa nesses canais de comunicação são apenas os fatos, não trazendo reflexões sobre como lidar com esse fenômeno. Nesse sentido, é um lugar comum dizermos que tememos a morte. Não por acaso, nossa sociedade está buscando novos métodos de preservar a juventude, a saúde e viver mais. Tudo isso, evidentemente, são avanços tecnológicos que nos dão qualidade de vida, além de ser uma busca natural por uma vida mais longa e bem aproveitada. Dito isso, é importante entendermos que mesmo com todos esses procedimentos, a morte continuará sendo uma realidade inescapável. Mas será que precisamos viver temendo a morte?

Tudo parte de uma postura frente ao fato. Há quem encare a morte como um processo natural e, portanto, não deve ser temida. Outras pessoas, contudo, perdem suas forças só de pensar que um dia não estarão mais por este mundo. Esta é, em última instância, a diferença entre a morte e o morrer. Todos nós vamos viver a experiência da morte, mas cada um escolherá como irá encarar esse momento. Dentro dessa perspectiva, fala-se que a morte é natural, mas morrer é um processo cultural. Tendo essa diferença em perspectiva, podemos aprender a lidar melhor com essa questão a partir do entendimento de outras culturas e visões sobre a morte, como a Asteca, por exemplo.

Entendido essa questão, seguimos para a próxima. Além de ser o Deus do mundo dos mortos, Mictlantecuhtli também estava relacionado com a constelação de cão na astrologia Asteca, sendo este também um dos animais que o representa. Talvez essa relação seja a mais “fácil” de entendermos, uma vez que sabemos o quanto os cachorros gostam de roer ossos. Entretanto, há um significado ainda mais profundo acerca dessa relação. O cão, geralmente, é usado como um animal de caça, aquele que persegue e traz a presa até o caçador. Por essa função, muitas vezes esses animais foram vistos como auxiliares dos Deuses do mortos em diversas culturas, pois tinham a função de trazer a alma dos mortos até o mundo que agora deveriam habitar. Como exemplo, podemos citar o Deus Anúbis, que tinha a função de conduzir os mortos até a sala do seu julgamento.

Na civilização Asteca, esse papel pode estar relacionado com Mictlantecuhtli. Os cães, por gostarem de ossos, também são encontrados em cemitérios ou locais de aterros, o que, provavelmente, fez com que esse povo pré-colombiano os relacionasse com a Divindade.

Templo de Quetzalcoatl e detalhes das esculturas. Fonte: The Temple of Quetzalcoatl at Teotihuacan: Its Possible Ideological Significance, Alfredo López Austin et al. (1991)

Ainda sobre a cultura Asteca e Mictlantecuhtli, o mito em que esse Deus mais aparece está relacionado à criação da humanidade. De acordo com os códices Astecas, o Deus Quetzalcoatl precisava criar os atuais seres humanos – na cultura Asteca, fala-se que existiram três humanidades antes da nossa –  e para tanto, precisava dos ossos da humanidade anterior, que estavam com Mictlantecuhtli. Quetzalcoatl desce até o reino dos mortos para conseguir os ossos, mas Mictlantecuhtli insere alguns desafios para que a Divindade criadora possa fazer sua tarefa.

Após superar os desafios impostos por Mictlantecuhtli, Quetzalcoatl consegue criar a humanidade atual, sendo assim todos os seres humanos descendentes diretos desse ser celestial. Esse breve mito nos mostra, entretanto, um ensinamento importante acerca dos ciclos da natureza e da essência Divina que permanece inalterável: apesar de sermos uma nova humanidade (de acordo com o mito), nossa essência, ou seja, o que é atemporal, segue desde as experiências passadas. Nesse sentido, nada realmente morre por completo, visto que acabamos vivendo no mundo dos mortos e, em algum momento, uma nova humanidade renascerá. 

Por fim, parece-nos que a famosa frase de Antoine Lavoisier está de acordo com esta antiga tradição: na natureza, nada se perde ou se cria, tudo se transforma. Os ossos guardados por Mictlantecuhtli serão a essência de uma nova vida, fazendo com que a morte não seja um fim, mas somente uma etapa dentro dessa grande dança da existência.

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