O ser humano é o único ser da natureza que produz Arte. Como sabemos, a Arte é um elemento que nos ajuda a entender ideias e a expressá-las no mundo, ou seja, é uma maneira de tornar o subjetivo e imaterial, que são nossas emoções e pensamentos, em algo objetivo e material. O músico converte em melodia aquilo que sente, do mesmo modo o pintor, que olha para uma paisagem e aquilo que desperta as suas emoções faz com que ele mescle as cores em sua paleta e coloca na tela as suas impressões.

Por ter esse aspecto racional envolvido, no sentido de elaboração e organização das ideias que lhe foram percebidas, afirmamos que a Arte é fruto do Ser Humano. Os animais, por mais que sintam emoções e as expressem através de sons, não são capazes de criar uma sinfonia ou mesmo esculpir uma estátua a partir dos seus sentimentos. Frente a isso, não é por acaso que se denota a Arte como um componente fundamental em toda civilização e, através dela, podemos extrair ricos aprendizados sobre a organização social de um povo. Afinal, se quisermos entender quais culturas estão presentes em uma sociedade, basta observar o tipo de Arte que ela produz. Perceberemos com facilidade quais são as ideias que estão presentes em praticamente todas as suas formas.

Tomando como exemplo a civilização Grega, podemos notar que a Arte tinha um papel fundamental para aqueles homens e mulheres da antiga Hélade. Foram os Gregos os primeiros a denotarem o conceito de belo e a buscarem na natureza uma geometria sagrada, pela qual expressasse a beleza através de proporções Divinas. De igual modo, tais proporções foram utilizadas na poesia, na música e na dança. Até mesmo dentro dos seus mitos, a Arte tem papel de destaque, sendo a ela dedicada nove Deusas, as famosas musas. Estas, filhas de Zeus e Mnemosine, a Deusa da Memória, eram as patronas das mais diferentes formas artísticas que existiam na Grécia. 

Em um aspecto mais profundo, as musas não eram apenas essas representações das mais diferentes formas de Arte, mas, mais que isso. Dentro da mitologia, elas eram verdadeiros canais de acesso ao Divino, nos quais os artistas serviriam de ponte entre os humanos e o sagrado. Portanto, hoje nos debruçaremos um pouco mais sobre essas Divindades para entendermos o papel da Arte na Grécia Antiga, e principalmente como uma forma de nos conectarmos com a vida e seus mistérios.

Como já falamos, as musas foram fruto da união de Zeus e Mnemosine. A nível simbólico, Zeus, na figura do Deus dos Deuses, representa a consciência desperta, ou seja, é a capacidade humana de estar presente e perceber a vida em seus mais diferentes aspectos, por isso, ele é o mais Divino dos seres, pois é o que está em maior contato com as ideias. Já Mnemosine como símbolo da memória, faz-nos pensar que as musas, ou a Arte por assim dizer, será o resultado de uma consciência desperta e que sabe quem é, ou seja, que não esquece seu propósito. É importante entender que nessa chave simbólica, a memória não é apenas um atributo da mente, ou seja, essa capacidade de lembrar-se de algo, mas sim, está relacionada à fidelidade a si mesmo, de recordar verdadeiramente quem é. 

Considerando esses aspectos, as musas terão um papel fundamental para o ser humano, de acordo com a mitologia Grega: não permitir que nós nos esqueçamos do nosso verdadeiro objetivo, que seria tornar-se Divino. Não por acaso, o patrono das musas era Apolo, o Deus do sol, que também é um símbolo do sagrado, desse aspecto luminoso no qual devemos sempre buscar. Assim, elas estão à serviço desse sagrado em suas múltiplas formas. Somente refletindo sobre tais aspectos, já podemos notar como as musas eram fundamentais para o mundo Grego, que, não por acaso, são lembrados até hoje por sua cultura elevada e valorização desse campo.

 Mas quem eram, afinal, as musas? Falaremos agora um pouco sobre cada uma delas.

Clio: a musa da história. Representada como uma mulher segurando um livro em cima de uma carruagem com rodas em formato de um relógio, Clio é a inspiração para todos aqueles que buscam conhecer o passado. A Divindade da história guarda todos os segredos do mundo e não permite que os humanos esqueçam dos acontecimentos que já viveram. A ela, por exemplo, Heródoto, o pai da história, dedica o seu primeiro livro e pede que a musa o inspire para não deixar os feitos dos Gregos serem apagados nas areias do tempo.

Calíope: a musa da poesia heróica. Calíope foi a musa inspiradora de diversos poetas como Homero, Apolônio e Virgílio, que mesmo sendo de origem latina também reconhecia o valor da tradição Grega. Calíope foi representada pelos antigos como uma mulher de semblante sério, com um pequeno livro e uma pena em suas mãos. É interessante notar que a poesia era dividida em três principais gêneros: a sagrada, a heróica e a lírica, e cada uma delas tinha uma musa específica. Desse modo, Calíope guardava a memória dos guerreiros, heróis e dos grandes feitos desses seres humanos que buscavam alcançar o patamar Divino.

Euterpe: a musa da música. Esta seja, talvez, uma das mais conhecidas das musas. Euterpe é representada com uma flauta Grega em sua mão, e era adorada pelos instrumentistas. Seu nome significa, literalmente, “a doadora de prazer”, por trazer ao mundo melodias agradáveis e harmônicas. Pitágoras foi um dos seus principais “sacerdotes”, chamemos assim, uma vez que o filósofo foi responsável por desenvolver uma das escalas musicais mais famosas: a pentatônica. A música na Grécia Antiga podia ser utilizada em diferentes aspectos, desde os banquetes até os ritos, assim, Euterpe estava presente nos mais diferentes momentos da vida cotidiana da Hélade.

Melpômene: a musa da tragédia. Assim como a poesia, o teatro também estava dividido em dois gêneros básicos: a tragédia e a comédia. Assim, duas musas se dedicam a essa Arte. Melpômene é representada com uma máscara trágica, sendo a inspiração de artistas como Sófocles e Ésquilo, dois dos principais dramaturgos da Grécia. Melpômene inspira não somente os escritores das peças teatrais, mas também os artistas que encarnam a dramaturgia. Porém, a tragédia Grega não é somente um fatalismo, como costuma-se pensar. Utiliza-se o termo “tragédia” para peças com cunho reflexivo e moral, que denotam um sentido mais profundo. Por isso Melpômene é uma musa séria, geralmente representada com um bastão ou espada em suas mãos.

Érato: A musa da poesia lírica. Conhecida como “a amável”, Érato era a musa responsável pela poesia lírica que seria voltada para assuntos mais cotidianos e as declarações de amor. Sua poesia, com ritmo e harmonias simples, poderiam ser acompanhadas de música, por isso em suas mãos, geralmente, carregava uma lira (daí o nome lírica). Era a musa preferida dos casais apaixonados, que eternizavam seu amor em versos.

Terpsícore: a musa da dança. Terpsícore era conhecida como a mãe das sereias pelo seu modo sedutor. A dança era uma das Artes que mais poderiam transitar entre o sagrado e o profano, por assim dizer, pois, poderia tanto ser canalizada como uma maneira de acessar o Divino como também para seduzir seus espectadores. Ela, assim como Érato, também foi representada como uma dama segurando uma lira, pois a música também está intrinsecamente ligada à sua Arte.

Talia: A musa da comédia. Junto com Melpômene, Talia é uma das representantes do teatro. Sua face, porém, não é a do drama, mas a do riso. Representada como uma mulher com uma máscara teatral, ela era tida como uma Divindade festiva e risonha. Ela inspirava os artistas e fazia brotar do público o riso.

Polímnia: a musa da poesia sagrada. Responsável pelos hinos aos Deuses e escrituras sagradas, Polímnia era a musa responsável por entoar os versos dedicados às Divindades. Os sacerdotes a adoravam e pediam-lhe inspiração para conceber seus poemas. Ela geralmente era representada como uma mulher vestindo uma túnica e segurando instrumentos agrícolas, por isso também foi assemelhada como uma Divindade rural.

Urânia: a musa da astronomia. Urânia representava as ciências de modo geral. Apesar de parecer-nos estranha, para os Gregos, o estudo da matemática e astronomia era uma verdadeira Arte, assim como também era tida como algo sagrado. Conhecer as leis que regem o Universo, o movimento dos astros e suas nuances eram próprios de artistas que, talvez, não fossem apresentar-se em palcos, mas que dedicaram suas vidas igualmente a essa Arte. Urânia é representada como uma dama de vestido azul que segura um globo terrestre em sua mão e um compasso na outra.

Todas as musas estavam reunidas no Monte Hélicon sob a tutela de Apolo. Muitos artistas peregrinavam para esse local para pedir ajuda em suas missões e fazer oferendas no templo de Apolo. A Arte, assim como os artistas, eram tidos como um meio de acessar as mais Divinas ideias e alcançar, mesmo que por alguns instantes, o conhecimento dos Deuses. No fim, essa era a verdadeira missão de um artista na Grécia Antiga: ser a ponte que liga a sua musa aos mortais. O fato de existir nove Divindades representando a Arte é justificada pela ideia de que, por diferentes caminhos, chega-se a um mesmo objetivo. Tal qual um rio que é alimentado por vários afluentes, mas que todos buscam chegar até o mar, as musas são os diferentes caminhos que nos levam a uma finalidade em comum. 

Por fim, parece-nos nítido que a Arte na Grécia Antiga tinha um valor muito maior do que apenas a execução técnica de instrumentos ou construção de ideias. Como tentamos apresentar, as musas denotavam um sentido maior para a Arte, fazendo com que uma música ou dança, por exemplo, fosse um momento de conexão com o sagrado. Hoje, certamente, já não encontramos esse sentido em nossas formas artísticas, mas cabe pensarmos na Arte, afinal, como um meio de alcançar uma verdade interior que está latente em nós e que deseja ser expressada. Assim, talvez possamos nos conectar com os Deuses, aqueles que habitam em nós. 

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