Você conhece o mito de Ícaro? O poderoso Rei Minos, da ilha de Creta, ao saber de uma traição do pai de Ícaro, Dédalo, resolveu aprisionar ambos no labirinto da cidade. Assim, Ícaro e o seu pai, famoso inventor e construtor grego, passam boa parte do tempo pensando em como escapar da prisão. Como eles não poderiam fugir nem por terra, nem por mar, uma vez que ambos eram de domínio do Rei Minos, Dédalo tem a ideia de fugir pelo ar, já que era o único espaço não dominado pelo rei. Então, eles começam a reunir as penas que caíam dos pássaros que sobrevoavam a prisão para, com elas, construírem asas para fugir.

Após reunirem uma boa quantidade de penas, eles conseguem construir dois pares de asas, unindo as penas com cera de abelha. Com as asas prontas, Dédalo entrega um par a seu filho Ícaro e orienta-o sobre os cuidados com o voo. Isso porque eles não poderiam subir muito alto, pois o calor do sol derreteria a cera; e nem poderiam voar tão baixo, pois a umidade do mar faria com que as penas pesassem muito, o que impossibilitaria de mantê-los voando.

Dadas as orientações, ambos partem em busca da liberdade. Dédalo voa conforme suas próprias instruções e consegue se livrar da prisão. Já Ícaro é tomado pela maravilhosa sensação de voar, de alcançar as alturas, de não  ter limites, e ignorando os conselhos do pai, voa cada vez mais alto sem pensar nas consequências. De tão alto que é seu voo, o calor do sol derrete a cera que unia as penas das suas asas; e sem conseguir voar a partir daí, Ícaro cai ao mar e morre afogado.

O mito, muito mais do que uma historinha, traz uma realidade do ser humano. O que você faria se tivesse asas? Se não tivesse limites para fazer o que mais desejasse? Como se posicionaria se tivesse total liberdade? Prudente e consciente como Dédalo, ou seria tomado pela sensação de voar como Ícaro?

Este tema da liberdade é muito intrigante, pois consegue ser atual e antigo ao mesmo tempo. Em todas as épocas, em todas as sociedades, este é um assunto em voga: até onde deve ir a liberdade do indivíduo? E neste ano, quantas vezes não ouvimos alguém tratando de liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade econômica, liberdade de escolhas etc?

O que entendemos hoje como liberdade está muito relacionado com o que sentimos necessidade de viver. Por exemplo, a liberdade para uma criança é dormir, brincar e comer na hora que ela quiser. Para o adolescente, talvez seja escolher o que ele bem entender para o seu futuro, sem precisar cumprir com as obrigações ditadas pelos pais. Já para o doente, liberdade seria ter sua saúde de volta.

Talvez esta seja a razão deste tema ser sempre atual para o ser humano. Não conseguimos compreender o seu real significado e, por isso, buscamos viver a liberdade de uma forma egoísta e equivocada, o que nos leva a frustrações e revoltas constantes. Achamos que ser livre se resume a atendermos todos os desejos e caprichos da nossa personalidade, para fazermos tudo o que queremos, na hora que queremos, mas esquecemos de um pequeno detalhe: não vivemos sozinhos no mundo. Por isso, precisamos entender que ter liberdade não é não ter limites! Na convivência diária, naturalmente a liberdade de cada um é limitada pela liberdade do outro. Quando conseguirmos enxergar esse conceito de uma forma mais abrangente, que alcance toda a humanidade, ao invés de atender apenas ao que vivemos no momento, talvez compreendamos o seu real significado.

E à luz desta compreensão mais ampla do conceito, uma ideia aparentemente contraditória como disciplina passa a fazer todo o sentido quando aliada à liberdade. Muitos filósofos tratavam desta relação, sendo Epitecto, filósofo estoico romano, um dos primeiros a escrever sobre o assunto. Quando o chamaram de escravo, ele disse que, mesmo tendo correntes físicas em seu corpo, que o definiam como um escravo, ele era mais livre que o seu próprio amo, pois sua alma era livre. 

E o que esses filósofos nos ensinam é que, diferente do que pensamos, a verdadeira liberdade está associada à nossa Alma, ao nosso Ser, a nossa parte mais profunda e divina. Portanto, a pessoa livre seria aquela que conseguisse expressar mais da sua essência sagrada na vida. E para conseguir essa tão almejada liberdade, teríamos que dominar nossos desejos materiais, controlar nossos impulsos instintivos, e buscar podar nossos defeitos, necessitando assim de uma grande e constante disciplina. Por isso, Epitecto era livre, porque, apesar de estar fisicamente acorrentado, internamente ele era capaz de dominar suas paixões e seus instintos, sendo capaz de expressar em vida suas virtudes e sua essência, como disse Platão: “O homem verdadeiramente livre é aquele que sabe dar ordens a si mesmo”.

Desta forma, podemos concluir que a liberdade não tem nada a ver com o que buscamos: uma maior expressão de nossas opiniões, mesmo que isso machuque outras pessoas; uma maior liberdade para transgredir leis, mesmo que isso gere um mal para a humanidade; uma maior liberdade para expressar nossas emoções mais grosseiras, mesmo que isso fira outras pessoas; enfim, uma liberdade total de nossos instintos e dos anseios da nossa personalidade. 

Diferente do que pensamos, a liberdade se resume a um controle e a um domínio dos nossos instintos, para que, assim, possamos expressar quem verdadeiramente somos, através da manifestação das nossas Virtudes Humanas. Logo, podemos dizer que a liberdade, para ser real, precisa estar associada ao Bem, tanto para si quanto para o todo. 

Por meio de exemplos práticos, vamos tentar deixar ainda mais claro o que estamos abordando neste texto.

Quem é mais livre, um indivíduo que segue uma dieta ou o que come o quiser? O que faz dieta, com o tempo consegue ter um controle do apetite, dos hábitos alimentares, da gula, e assim, faz um bem para o seu corpo… O que come o que quiser, ficará sempre preso ao que o seu apetite desejar. Com isso em mente, quando não atendemos aos caprichos do nosso temperamento, por uma questão de ordem e obediência em prol de um bem maior, nesse caso para o corpo, talvez fiquemos livres deles, não acha? Como diz o ditado: liberdade é obediência.

Se tirássemos tudo aquilo que nos prende: compromissos, família, obrigações legais… Será que nos sentiríamos livres? Ou será que não ficaríamos presos nas armadilhas dos nossos caprichos e defeitos? A ausência do compromisso nos levaria com tanta sede em direção ao sol, que, tal como Ícaro, destruiríamos nossas asas e morreríamos afogados no mar dos nossos vícios. 

Como dizia Marco Aurélio, outro filósofo estoico, “não há nada que aconteça ao homem que não seja próprio do homem”. Tudo que acontece conosco, acontece por ser necessário viver tal experiência. Então, talvez a liberdade seja viver a vida que me cabe da forma mais natural possível. Como diz a frase: “Livre é aquele que livremente obedece ao que naturalmente sucede”. 

Talvez, quando aprendermos a viver o aqui e o agora, aprendendo a amar e a desejar as leis que nos direcionam ao que é Justo e Natural, e sem desejar essa falsa liberdade, poderemos realmente alcançar a verdadeira Liberdade, que é o poder sobre nós mesmos!

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