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Você Conhece a Partícula de Deus?

Tempo de leitura: aproximadamente 6 minutos

A ciência busca a verdade. Essa é uma afirmação um tanto quanto “forte”, mas o fato é que a ciência tem por objetivo explicar o Universo tal qual ele é, não o que desejamos que ele seja. Em meio a isso, há uma série de questões que podem nos enviesar para uma tendência ou outra. Esse é o nosso desafio hoje: observar a realidade tal qual ela é. E por que estamos falando disso? Porque existe uma linha tênue que separa a ciência da religião, da filosofia e outras áreas da humanidade. Muitas vezes, essa linha é cruzada, e não percebemos. O tema do texto de hoje nos mostra um pouco disso.

Você já ouviu falar no Bóson de Higgs? Talvez esse nome soe um tanto quanto estranho, porém a incrível descoberta científica de Peter Higgs foi apelidada de “ a partícula de Deus” e ganhou fama nos últimos anos através dessa nomenclatura. Mas o que seria isso? E qual a relação dessa descoberta científica com Deus?

Para entrarmos nesse assunto, é preciso conhecermos um pouco de ciência, mais precisamente sobre átomos. Como sabemos em nossas aulas de química, tudo no Universo é composto de átomos, uma partícula pequena composta por um núcleo – onde estão os prótons e os nêutrons – e uma camada externa chamada eletrosfera, em que circulam os elétrons. A combinação de diferentes átomos geram as moléculas, que, por sua vez, em grande quantidade geram todas as substâncias que conhecemos no nosso mundo material.

Somente a título de exemplo, peguemos a molécula da água (H2O): ela é composta de dois átomos de hidrogênio (H2) e um átomo de oxigênio (O). Quando combinados, esses átomos geram a água. Entretanto, será que existe algo ainda menor e mais complexo do que os átomos e suas combinações? 

Por muito tempo, pensou-se que não, até que em 1960 Peter Higgs se debruçou sobre o tema e teorizou sobre uma partícula ainda menor, responsável por criar a massa dos nêutrons, prótons e elétrons. Porém, como ocorre em muitos aspectos da ciência, apesar de teoricamente ser plausível, não existia nenhuma comprovação desse tipo de matéria. Tudo mudou em 2013, quando, através de aceleradores de partículas, se comprovou a existência dessas partículas e seu papel fundamental na interação dentro do átomo. Dessa maneira, comprovou-se a teoria de Higgs, porém, mais importante do que isso é que essa descoberta foi feita com a religião.

Por que se chama o bóson de Higgs de “a partícula de Deus”? A relação nasceu devido ao fato de ser essa partícula que dá massa a esses outros elementos subatômicos, ou seja, sem os bósons provavelmente não existiria a matéria tal qual a conhecemos. Assim, essa partícula carregaria essa essência construtora, que nas religiões se fomenta com o nome de Deus. Como sabemos, na ótica religiosa a divindade (ou as divindades, no caso de religiões politeístas) seria a responsável pela criação do mundo tal qual a conhecemos. Assim, tudo existiria a partir dela. Uma das grandes perguntas que intrigam e geram debate entre cientistas e religiosos está justamente nesse aspecto: Como Deus criou tudo? a partir de que elementos? 

O bóson de Higgs seria uma “resposta científica” para isso, na qual todos os elementos dispersos precisavam se unir e ter massa, logo, essa partícula divina faria esse papel. Vale destacar, contudo, que o Bóson de Higgs, na perspectiva científica, não pode ser chamado assim, uma vez que seus processos são explicados por meio da física e química atômica e pouco teriam a ver com algo para além disto. Apesar de entendermos a preocupação de parte dos cientistas quanto a evitar essa relação, a descoberta de Peter Higgs é um grande e importante passo na ciência para entendermos como, de fato, o mundo subatômico funciona e como tantas partículas pequenas conseguem interagir e se manter unidas. Pensando numa perspectiva simbólica, de fato, é inegável que a ação dessa partícula, capaz de dar massa à matéria, se assemelha à criação divina.

A descoberta de Higgs, entretanto, só pode ser vista como “nova” da perspectiva científica. Falamos isso porque desde a antiguidade diversos filósofos já abordaram essa questão, mas partindo de outras premissas. Os atomistas, como foram designados na posteridade, eram filósofos que buscavam entender a criação do mundo a partir de um elemento que estivesse em tudo, a menor e indivisível partícula divina que seria a base de construção de todos os elementos que conhecemos no mundo material. Os mais famosos atomistas da antiguidade foram Demócrito e Leucipo, ambos responsáveis por desenvolver essa teoria em sua época na Grécia Antiga, por volta do século V a.C.

O nome dado a essa partícula indivisível foi o “átomo” (por isso eram chamados de atomistas), palavra grega que significa, literalmente, “não divisão” ou “não se divide”. Vale ressaltar que o átomo que conhecemos hoje na química não é o mesmo pensado por estes filósofos, afinal, sabemos hoje que o átomo se divide em outras partículas. Ainda assim, o nome é uma homenagem ao pensamento de Demócrito e Leucipo. Visto isso, seria possível que encontrássemos, de fato, essa partícula indivisível, que é capaz de gerar toda a matéria tal qual pensado na antiguidade?

Essa partícula, que estaria em tudo, que não deixaria de existir (pois não pode se dividir) e ainda assim seria a base de toda a matéria do Cosmos, poderia ser chamada de uma “partícula de Deus?” Para os antigos filósofos gregos, essa seria uma evidência do aspecto transcendente do mundo, em que algo divino participaria do mundo material, visto suas propriedades atemporais. Já do ponto de vista científico, essa partícula ainda não existe, e o Bóson de Higgs também não se assemelha a essas características. Os bósons, afinal, “apenas” desenvolvem a interação entre as demais partículas e lhes dão massa, mas não “criam” nada, e ainda não sabemos se podem ser divididas em partículas ainda menores.

Desse modo, o átomo pensado na antiguidade ainda não foi descoberto, mas nos parece que a ciência caminha a passos largos para o seu encontro. Graças a tecnologia avançada, capaz de fazer experimentos precisos e modelos atômicos mais detalhados, estamos nos aproximando, quem sabe, da verdadeira partícula de Deus. E se para alguns essa conclusão possa ser um “rebaixamento” da ciência perante a religião e as percepções da filosofia antiga, entendemos que quanto mais se caminha em direção à Verdade, ou seja, para a compreensão de como o Universo funciona, mais próximo nos aproximamos de outros aspectos que, dentro da nossa visão limitada, parecem distintos.

A ciência e a religião buscam, em síntese, a mesma coisa. Seus métodos podem – e são – distintos, mas é fato que ao passo que um religioso fervoroso busca uma conexão com algo transcendente, um verdadeiro cientista também faz de sua vida uma eterna busca pela explicação universal, elaborando assim uma lei ou fórmula que consiga demonstrar como o Universo funciona, o porquê funciona e o sentido de ser dessa maneira. Ao chegarmos nessa resposta, seria impossível pensar em uma inteligência divina? Que todo o funcionamento dessa brilhante máquina, tanto a nível macro como micro, é apenas fruto do acaso e de probabilidades? É possível que cheguemos, enfim, no mesmo ponto: algo indivisível, que está em tudo; e que graças a essa pequena partícula, estamos aqui.

Não pensemos que o Bóson de Higgs é uma descoberta pequena, muito menos que esse é um passo egoísta da ciência na corrida por respostas. Talvez esse seja um dos primeiros passos rumo à convergência de pensamentos, de caminhos distintos que em algum momento irão se cruzar. Que saibamos perceber até onde vai essa divisão ilusória e que possamos também perceber que cada um de nós, à sua maneira – seja através da ciência, da filosofia ou da religião – está buscando compreender um pouco mais do mistério que se esconde no Cosmos, seja dentro de um pequeno átomo ou em uma galáxia.

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