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Todo Ser Humano tem perguntas que gostaria de responder. As clássicas “perguntas existenciais” – quem sou?, para onde vou? e de onde vim? – guiaram, e ainda guiam, homens e mulheres em busca de respostas sobre si e o Universo. Uma dessas perguntas é a famosa “quem sou?”. Em nosso dia a dia costumamos fazê-la quando queremos conhecer outra pessoa, mas será que já paramos para refletir sobre quem, de fato, somos? 

Essa parece ser, num primeiro momento, uma pergunta simples de responder, porém ela tem um impacto enorme na maneira em que vivemos. Se não consigo, por exemplo, definir quem sou, qual a minha essência, também não saberei qual o meu papel no mundo e, consequentemente, não conseguirei caminhar para os meus objetivos. Percebem que essas perguntas estão interligadas e se não conseguimos responder alguma delas, as outras começam a perder sua força? A isso chamamos de “crise existencial”, quando não conseguimos responder tais questões e acabamos nos confundindo com outros aspectos de nós mesmos. Portanto, hoje vamos tentar compreender um pouco mais sobre o que seria essa nossa essência e onde reside nossa verdadeira Natureza.

Antes de entrar nessa questão, porém, precisamos definir o que estamos chamando de “Natureza”. A grosso modo, nossa Natureza pode ser definida como algo que é só nosso, similar a nossa Identidade. No campo profissional muitas vezes utilizamos esse termo para definir os ofícios aos quais temos habilidade e competência e os que não nos agrada. Se levarmos esse conceito para uma percepção da Vida, podemos dizer que a Natureza Humana é algo que nos define enquanto um ser vivo e que não compartilhamos com os demais. Logo, nossa Natureza não é igual a de outros seres como as plantas e os animais

Visto isso, começamos a investigar sobre a nossa Natureza a partir de uma ciência que estuda e busca, desde tempos remotos, a resposta dessas questões: a Filosofia. Segundo a filosofia antiga, advinda principalmente da tradição egípcia e hindu, o Ser Humano seria composto de diferentes partes, mais precisamente sete delas, que funcionariam como integrantes de uma Unidade. Para ficar mais claro, pensemos em um carro: Do que ele é composto? Motor, rodas, volante, e uma série de outros equipamentos que permitem exercer a sua função de carro, não é isso?

Com o Ser Humano algo similar aconteceria. Nessas tradições fala-se que o Ser Humano teria sete partes que, em harmonia, guiariam corretamente nossa existência para sua realização. É interessante notar que o número sete representa, em diversas culturas, um número Sagrado, nos dando assim uma pista de qual seria nossa verdadeira natureza ou destino. Trazendo para o campo mais concreto, o número sete pode ser observado em diferentes aspectos da natureza: existem sete notas musicais; sete cores do arco-íris; dividimos nossa semana em sete dias. 

Por coincidência ou não, o sete também foi escolhido para representar o Ser Humano. Mas afinal, quais seriam essas partes que nos compõe?

A primeira delas é bastante conhecida por nós e fácil de perceber. Basta olharmos no espelho e a encontraremos: é o nosso corpo físico. Ou seja, nossos membros, cabeça, enfim, todas as partes que usamos para nos relacionar com o mundo. Ele seria nossa camada mais densa, ou seja, que conseguimos tocar e nos relacionar com o mundo através dele. Entretanto, ele é apenas a primeira parte de tantas e, na maior parte das vezes, achamos que o nosso corpo por si só nos define.

A nossa segunda parte já é um pouco mais sutil que o corpo físico, apesar de estar diretamente relacionada com ele. Os antigos hindus chamaram essa nossa parte de prana, que podemos traduzir como energia. Ou seja, um corpo energético, que nos dá a vitalidade para movimentar-nos no mundo. Pensemos, para exemplificar, a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Ambos são físicos, podemos tocá-los e observá-los, porém, um contém energia, por isso se movimenta e interage conosco, e o outro não.

Nosso corpo energético está fortemente relacionado com o nosso físico e os exemplos são inúmeros. Quando estamos doentes, por exemplo, temos a tendência a querer nos movimentar pouco, a ficar deitado e com pouca atividade. Do mesmo modo, quando estamos com fome ou desidratados nosso corpo exige nutrientes para continuar vivo e com energia.

Essa é uma reflexão importante pois, tal como um carro, como já exemplificamos, nossas partes dependem umas das outras para funcionar bem, por isso que devemos conhecê-las para harmonizá-las da melhor maneira.

Seguindo acerca das partes que nos compõem, o próximo seria o nosso corpo emocional, na qual reside todas as nossas emoções e sentimentos. Por mais sutil e subjetivo que seja, nossas emoções se fazem bem presentes no nosso dia a dia. Quem nunca acordou “com o pé esquerdo?”, ou mesmo se irritou no trânsito ou com alguma notícia ruim, e isso “estragou o dia”? De maneira geral, nossas emoções costumam definir muito como vamos viver a nossa rotina: quando estamos felizes, tudo corre bem; se estamos tristes, tudo vai mal. Temos pouco controle sobre nossas emoções e por isso elas, na grande maioria dos casos, definem as nossas atitudes.

O perigo de sermos conduzidos sempre pelo nosso corpo emocional está em fazermos atitudes impensadas, sendo levados apenas pelas emoções que estão “à flor da pele”. Nesses casos geralmente acabamos ofendendo outras pessoas ou desconsiderando uma necessidade por não gostarmos de realizar alguma tarefa. Portanto, apesar de ser sutil, nossa parte emocional é um veículo ativo e participante da nossa vida. 

Entretanto, há algo ainda mais sutil que as nossas emoções: a mente. A nossa capacidade de raciocinar nos diferencia de todos os outros seres vivos da Terra. Portanto, ela é o que nos torna exclusivamente Humanos, porém, nas antigas tradições orientais se alertava muito sobre o uso inadequado da razão, pois ela é o nosso veículo mais “poderoso”, por captar ideias e transformá-las em ação. Graças a mente conseguimos construir pirâmides e desenvolver toda tecnologia que utilizamos diariamente.

Entretanto, esse veículo mental, quando mal utilizado, pode ser usado exclusivamente para o refinamento e obtenção do prazer. Colocando em exemplos, podemos usar nossa mente para enganar uma pessoa que não gostamos, assim como justificar atitudes que não nos

engrandecem. A nossa mente, portanto, pode ser capaz de nos levar às mais belas ideias ou ser uma arma na mão dos nossos instintos mais vis.

Esses quatro primeiros veículos – chamemos assim – iriam compor nossa parte mais temporal, pois, em algum momento vamos envelhecer, nossa energia se extinguirá e com ela nossas emoções e pensamentos também se esvairão. Porém, haveria uma parte de nós que não morreria, ou seja, seguiria em constante evolução mesmo após a morte. Os antigos chamavam-na de nossa parte Divina, o que nos aproxima dos Deuses e dos Mistérios do Universo.

Essa parte seria composta por outros três veículos, que, de modo geral, teriam alguns atributos. O primeiro desses três veículos estaria ainda conectado à nossa mente, porém seu principal atributo seria o Altruísmo, ou seja, uma mente voltada para ajudar o próximo e não a si mesmo. Quando, por exemplo, fazemos o Bem sem segundas intenções, então podemos dizer que estamos utilizando, em algum grau, a nossa mente de maneira Virtuosa, Altruísta. Esse veículo, a bem da verdade, é pouco desperto em nós, por isso não o utilizamos com muita constância. Na maior parte do tempo estamos agindo pensando em nosso próprio benefício. Seja no trabalho, nos estudos ou na vida pessoal, parece que sempre estamos agindo pensando em uma recompensa. 

Isso é o normal para nós, Seres Humanos. Fomos educados para pensar e agir desse modo, porém, você já viu como fica Feliz e se realiza ao ajudar alguém necessitado? A sensação de dever cumprido, por exemplo, nos invade a Alma e ficamos bem. Essa é a sensação de utilizar esse nosso veículo Altruísta, que também podemos chamar de mente pura. 

O segundo veículo dessa nossa parte atemporal, e o sexto de todas as nossas partes, é chamado de Intuição. Vez por outra, em maior ou menor grau, sentimos esse veículo atuando em nós. Os “insights” que temos, muitas vezes em momentos que não condizem com o que estamos pensando, são um bom exemplo de como percebemos essa nossa parte. Assim como a mente pura, a Intuição não é facilmente percebida em nosso dia a dia, e na grande parte das vezes simplesmente a ignoramos. Porém, sabemos o quão certeira e intensa ela pode ser.

A Intuição, por definição, seria a captação de uma ideia sem o exercício da mente. Ou seja, não racionalizamos a maneira como a percebemos, simplesmente a notamos e não buscamos explicação lógica para aquilo. Grandes gênios, por exemplo, tiveram lampejos desse veículo e o aproveitaram muito bem, como no caso de Beethoven e Einstein. Esses são exemplos famosos que usaram a Intuição, provavelmente sem querer, mas que ouviram e seguiram esse chamado da Alma.

Por último, nosso veículo mais sutil e que provavelmente menos tenhamos noção de que existe é o que chamamos de “centelha divina” ou Atma. Ela se expressa através da Vontade, a com “v” maiúsculo, a que na cultura popular “move montanhas”. A determinação e força que obtemos quando estamos convictos do que queremos e devemos fazer é uma expressão, mesmo que mínima, desse veículo. Quando queremos algo verdadeiramente, nossos sonhos mais intensos e anseios, não há quem nos pare. Muitas vezes, inclusive, somos capazes de sacrificar nossa própria vida para realizar essa Vontade. 

De maneira geral, a Vontade, quando surge, é capaz de dominar e exercer seu poder frente a todos os outros veículos, não dando brechas para o cansaço, a preguiça ou qualquer outra justificativa que nossa mente possa elaborar. Porém, esse aspecto em nós está, na grande maioria dos casos, adormecido, e por isso, somos incapazes de fazê-la brotar de forma espontânea.

Mas, afinal, após tantas partes que nos compõe, onde reside nossa verdadeira Natureza?

Se levarmos em consideração a ideia de Natureza que mencionamos no começo do texto, podemos dizer que nossa Natureza reside em nossa razão, simbolizada pela mente e que pode se expressar de duas maneiras: ou pensamos apenas no nosso próprio benefício, utilizando nossa capacidade mental para realizar nossos desejos; ou podemos voltar nossa razão para as verdadeiras ideias, sendo altruísta e nos colocando à serviço do outro, ou seja, procurando melhorar nossas relações e desenvolver Virtudes.

Ao pensarmos somente em nós estamos nos movendo como um animal, que age por instinto e busca somente sua sobrevivência e isso não nos parece próprio do Ser Humano. Mesmo que possamos agir assim, bem sabemos que nosso instinto não nos realiza, o que significa que não somos verdadeiramente felizes quando estamos vivendo pensando apenas em realizar os nossos desejos. 

Portanto, nossa Natureza em essência volta-se para uma mente pura, que busca elevar-se até o mais alto das realizações Humanas. Graças à razão podemos nos aproximar das ideias mais elevadas e tentar concretizá-las no mundo. Essa força que vem de cima, de um plano mais elevado da consciência, moveu (e ainda move) milhares de pessoas ao longo da História. Se essa ideia se aproxima de uma Unidade, ou seja, busca aproximar os Seres Humanos, então podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que ela contribui para uma realização à nível de Humanidade. 

Se colocarmos em exemplos talvez essa ideia possa nos parecer mais concreta: imaginemos, por um momento, que todas as pessoas do mundo busquem se unir por uma ideia de Amor ao próximo. Será que o mundo se tornaria mais harmônico ou mais desastroso? E se a Generosidade fosse uma tônica universal, ou a Justiça ou mesmo a Disciplina? Provavelmente seríamos uma sociedade melhor, pois o que nos guiaria seriam as ideias, não nossos desejos mais egoístas.

A Natureza Humana, por fim, mostra-se apenas quando estamos envoltos dessas ideias. Ser um homem ou uma mulher melhor todos os dias deveria ser a nossa meta e que, em algum grau, é. Todos nós buscamos ser melhor em algum aspecto da vida, e mesmo que não consigamos sempre, não desistimos dessa ideia. Talvez só possamos ser melhores quando compreendermos que a nossa realização de vida se dará quando exercitarmos nossa Natureza Humana, ou seja, se caminharmos harmonicamente com todos os nossos veículos em direção a essência Divina que há em todos nós.

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