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Precisamos Conversar sobre a Morte

Tempo de leitura: aproximadamente 4 minutos

Conversamos sobre os mais diversos assuntos ao longo da nossa vida, seja sobre trabalho, amizades, lazer, política, atualidades, entre tantos outros. Mas nem todos esses assuntos dizem respeito a todos nós, afinal, uma parcela da sociedade não trabalha, outra não faz jus aos seus direitos políticos, muitos não acompanham as notícias etc. Um tema, contudo, toca a todos nós, sem distinção de idade, raça, nacionalidade ou gênero, mas normalmente o evitamos: a morte. Sim, todos vamos morrer e ainda assim fazemos desse tema um grande tabu.

A morte, como tudo que existe, geralmente é vista de duas formas: de maneira material, analisando-se através de aspectos biológicos, e espiritual, observando a transcendência do espírito, da alma etc. Morrer pode ser a travessia de uma experiência a outra, como dizem muitas religiões e doutrinas, ou o fim da existência, como afirmam muitos cientistas.

Um estudo publicado na revista eletrônica Frontiers in Aging Neuroscience (Fronteiras na Neurociência do Envelhecimento, em tradução livre) afirma ter sido capaz de medir atividade cerebral suficiente para confirmar as incongruentes experiências relatadas pelos que passaram por uma EQM – Experiência de Quase Morte. Esse tipo de experiência, até então, era o elo que mais intrigava médicos e teólogos diante dos relatos insólitos dos que morreram biologicamente, mas foram reanimados em seguida. Por obra do destino, entretanto, um grupo de pesquisadores presenciou o falecimento natural de um paciente de 87 anos, enquanto conduziam nele delicados exames de eletroencefalografia, e assim, puderam registrar toda a atividade no cérebro do homem.

A pesquisa identificou, antes e depois que o coração do paciente parasse de bater, um grande volume de oscilações neurais gama, que são as responsáveis por grande parte das atividades cognitivas, ou seja, relacionadas ao aprendizado, conhecimento, sonhos e também memória. Isto significa, segundo os pesquisadores, que a mente permanece ativa durante todo o processo, provavelmente lembrando de eventos importantes da vida e processando tudo de maneira consciente, alguns segundos após a morte biológica.

Se isso, sem maiores explicações, não é capaz de nos oferecer muitas respostas, certamente nos garante muitas outras perguntas, como por exemplo, onde está nossa consciência? Será que ela é resultado de um processo químico e se aloja fisicamente em nosso cérebro, ou transcende para outro plano, ainda inexplorado pela ciência quando o corpo material deixa de existir? 

Com a prova material de que a mente não morre exatamente ao mesmo tempo que o resto do corpo e que os depoimentos dos que sobreviveram a uma EQM não são meras alucinações coletivas, será que podemos finalmente discutir a morte sem paradigmas? Pouco se fala, entretanto, se ciência e religião não estariam tratando corretamente dos mesmos assuntos, mas utilizando linguagens diferentes. Colocando de forma figurada, é como se um lado falasse somente da importância da música, enquanto o outro insistisse apenas no estudo da partitura, quando na verdade eles não se excluem, pelo contrário, se completam.

A Filosofia, ou seja, o amor pela sabedoria, nos diz que não há nada superior à verdade e, por isso, a ela devemos a devoção. No entanto, quando nos deparamos com situações que nos obrigam a escolher entre mudar o que acreditamos, ou seguir confortavelmente defendendo algo que mostra indícios de que pode não ser real, dificilmente escolhemos o caminho mais exigente, e isso não só não ajuda a solucionar esses mistérios, como contribui para nos confundir ainda mais.

Ainda sobre o estudo, podemos buscar uma relação entre o que foi descoberto e as tradições que afirmam que nossa consciência imaterial habita apenas temporariamente no nosso corpo, até momentos próximos de nossa morte, quando “recolhe” os vestígios das experiências que vivemos, e leva consigo para um plano além do que os olhos podem ver.

Se considerarmos que, somente dois ou três séculos atrás, pensávamos que era impossível ouvir a voz de alguém que estivesse a quilômetros de distância, e talvez, por isso, quem o afirmasse seria visto como louco ou charlatão, o que diriam nossos antepassados se fossem confrontados com a tecnologia usada pelos aparelhos de rádio? Provavelmente a negariam por completo, ou acreditariam de forma supersticiosa, e menos, é claro, que buscassem profundamente a verdade na experiência humana, pareça ela surreal ou verossímil.

Platão diz, em seu Mito da Caverna, que, ao chegar à saída, o homem é iluminado pelo Sol (luz que simboliza a verdade) e sente dor e sofrimento pois havia se acostumado a viver no escuro. A dor tão somente não é sinônimo de sabedoria, claro, mas, não há crescimento sem o devido esforço e sem as devidas concessões de nossa parte. Não seria ético um cientista que tenha descoberto evidências da manifestação do espírito guardar segredo apenas para sustentar sua clássica postura de cético. Ao mesmo tempo, não seria adequado para um espiritualista combater a ciência de forma enérgica em todos os aspectos de sua vida e recorrer aos médicos sempre que sentir qualquer indisposição. Nenhum dos casos representa o amor à sabedoria, tampouco à verdade.

Buscar a verdade, acima de tudo, mesmo que isso nos cause desconforto, é, no fim das contas, fazer o bem.

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