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Um dos maiores temores do ser humano é o de ser manipulado. Não por acaso, o tema da manipulação é tratado desde os primórdios da humanidade, e ainda hoje há um grande debate sobre o que é, de fato, manipulação e até que ponto estamos “livres” para pensar, sentir e agir de maneira autêntica. 

Antes de entendermos melhor esse assunto, precisamos colocar os fatos à mostra. Um deles é o de que todo e qualquer ser humano é influenciado por uma série de fatores que fogem à sua alçada. Alguns desses fatores são a cultura em que fomos criados, a época histórica em que vivemos, as experiências que vivenciamos e as ideias que cultivamos. Partindo desse pensamento, devemos parar e pensar quem ou o que está determinando tais aspectos de nossa vida. Em síntese, será que não há quem manipule a nós mesmos de forma indireta, através de nossa cultura, de nossas experiências e até mesmo das ideias comuns que circulam em nossa vida social?

Não, esse não é um texto sobre teoria da conspiração. Na verdade, o fato é que todos nós, em maior ou menor grau, somos manipulados e também podemos manipular algumas situações do nosso cotidiano. Em uma reunião de trabalho, por exemplo, podemos usar bons argumentos para convencer outras pessoas a apoiarem nossas ideias, logo, de certo modo, manipulamos a forma de pensar delas para atender aos nossos interesses, não é? Por isso não precisamos ver a manipulação como algo totalmente ruim, mas sim como uma possibilidade, que há dentro da vida humana, de poder mudar de opinião e se inclinar para determinados gostos e formas. É evidente que isso será bom ou ruim a depender da intenção de quem o está fazendo. 

Partindo disso, então é possível afirmar que nenhum de nós tem ideias próprias? Todos são, de fato, influenciados e influenciáveis? Para responder essas questões precisamos nos apoiar na filosofia, afinal, o filósofo é o “amante da sabedoria”, logo, quem melhor para nos falar sobre as ideias e como vivê-las de forma autêntica? 

Voltando para os tempos da antiga Grécia, encontramos Platão e um dos mitos mais famosos do mundo: o mito da caverna. Nele Platão explica uma série de ideias fundamentais para a vida humana, e dentre elas o filósofo grego nos aponta para os perigos da manipulação. Essa alegoria começa com um grupo de seres humanos acorrentados em uma caverna com seus rostos voltados para uma parede. A caverna é iluminada por uma fogueira e um outro grupo de pessoas – chamado de “Amos da Caverna” – que passa com objetos a fim de projetar sombras na parede que os acorrentados conseguem ver. Esses amos também produzem sons para dar vida e dinâmica às imagens projetadas, fazendo com que os acorrentados fiquem entretidos e não percebam que estão acorrentados.

A fim de manter a situação desse jeito, de tempos em tempos, os amos trocam as imagens, mudam o cenário, e assim os seres humanos acorrentados continuam sem conhecer a prisão em que vivem. O mito também conta que em determinado momento um dos acorrentados consegue se libertar de suas correntes e enxerga a realidade dentro da caverna e busca sair dela, conhecendo assim o mundo como ele realmente é. Esse foi um breve resumo do mito da caverna, mas para quem quer conhecê-lo na íntegra sugerimos a leitura de outro texto sobre o assunto no portal Feedobem.

Agora vamos nos deter apenas na figura dos amos da caverna, pois são eles que manipulam as sombras e sons para confundir e manter os demais aprisionados. Em diversas leituras sobre esse tema tentam atribuir o papel dos amos à religião, ao governo ou mesmo à mídia – em algum grau, isso está correto. Todas essas instituições fazem, de forma implícita ou explícita, uma manipulação da visão de mundo e dos objetivos para com seus seguidores. Entretanto, há um componente fundamental para que a manipulação ocorra: a vulnerabilidade de quem é manipulado.

Diversos estudos na área da psicologia demonstram que a manipulação é, em síntese, uma série de sugestões e ideias que são incutidas em nossa mente. Como podemos nos defender disso? O principal caminho para evitar a manipulação é desenvolver consciência e pensamentos próprios. Para tanto, se questionar e colocar à prova tudo que nos é ensinado são fundamentais para chegarmos às nossas próprias conclusões. 

Um exemplo banal disso é a opinião que formamos de outras pessoas. Imagine a seguinte situação: você está com seus amigos num ambiente público e encontra uma pessoa que seus amigos conhecem, mas você não. Quando eles emitem uma opinião sobre essa pessoa, o que você faz? Geralmente apenas “compra” a visão de mundo dos seus amigos e mesmo sem conhecer a pessoa, atribui um juízo de valor a ela, podendo ser negativo ou positivo. Nesse momento sua opinião – a nossa, para ser mais abrangente –  foi manipulada. 

E como podemos nos proteger disso? O único jeito será conhecendo a pessoa em questão, sem deixar que a opinião alheia nos influencie. Sabemos que isso é extremamente difícil, mas é um exercício simples que nos mostra como somos vulneráveis à manipulação, mesmo que essa não seja feita de maneira intencional ou mesmo consciente. 

A psicologia desenvolveu, ao longo de décadas, uma série de práticas que ajudam pacientes a partir da manipulação. A hipnose, por exemplo, é uma  prática que utiliza da manipulação e sugestão para fazer o paciente acessar traumas da infância e tomar consciência desses aspectos do subconsciente. Nesse sentido, é positiva a forma de manipulação para tratamento, apesar de que talvez não seja a mais adequada para a superação total dos traumas. 

Um outro método que vem sendo explorado não somente para tratamentos é a Programação Neuro Linguística, também chamada de PNL. Todos nós temos essa programação e reagimos de forma inconsciente a certas palavras e estímulos. A PNL faz com que seja possível identificar esses padrões e reprogramá-los. Porém, também é possível identificar os padrões de uma pessoa e usar tais técnicas contra ela construindo padrões afetivos, por exemplo.

Visto isso, não se trata somente de saber os segredos da manipulação, mas para qual finalidade se quer usá-la. Por isso entendemos que é essencial ter uma base ética antes de se desbravar por esses assuntos, para que não se utilize essas ferramentas como armas maléficas contra outras pessoas. E nos casos em que seremos os “pacientes” dessas técnicas, deve-se redobrar o cuidado e conhecer quem está as aplicando em nós, afinal, não deveríamos dar um acesso tão íntimo à nossa mente e sentimentos para quem não conhecemos.

De fato, o estudo por trás da manipulação mostra que, ao longo do tempo, vamos sendo moldados, e isso é natural. Em nossa fase infantil, por exemplo, é crucial que um adulto nos “manipule” para formar nosso caráter, construir nossa base ética para que possamos desenvolver todo o nosso potencial. O problema aparece quando chegamos à fase adulta e não passamos a construir critérios para manter nossa consciência em desenvolvimento. Somos afetados pela opinião alheia, conduzidos pelo que está em moda e, tal qual um barco que não tem um motor próprio, somos levados pelas ondas da sociedade na direção que elas bem entendem. 

Para evitar que isso ocorra, é fundamental estarmos conscientes do que ocorre à nossa volta. Não devemos rejeitar nenhuma ideia, mas também não devemos aceitá-la como verdade logo no primeiro momento. Devemos, antes de tudo, levar tais opiniões e ideias para o julgo da prática e assim poderemos ter uma impressão única sobre isso elas. E muitas vezes precisamos tentar por diversas vezes até compreender mais profundamente um ensinamento ou uma ideia, logo, não tenha pressa para tirar suas conclusões.

A manipulação é, enfim, a mãe da opinião, e hoje todos nós queremos ter opinião sobre tudo. Nesse jogo do grande engano, quem não pensa por si mesmo e não enxerga os véus por trás do mundo está fadado a cair nas armadilhas manipulatórias. Não nos deixemos, portanto, ser pegos por elas.

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