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Somos seres egoístas. Sim, essa é uma dura verdade que por vezes demoramos a aceitar. O egoísmo é uma atitude natural e que tem raízes no nosso instinto de sobrevivência. Queremos nos proteger a todo custo, seja em qualquer aspecto: físico, emocional ou mental. Não queremos nos machucar, muito menos nos expor a situações em que precisaremos abrir mão de nós mesmos. Entretanto, o cuidado demasiado conosco pode, em alguns momentos, nos conduzir para situações em que nos tornamos reféns dos nossos prazeres e causamos danos a outras pessoas ou grupos. Como podemos encontrar o justo meio entre nossas necessidades e o excesso de proteção e caprichos que nos submetemos?

Para começar precisamos refletir sobre o Ser Humano. Diferente dos animais, que também carregam consigo o instinto de sobrevivência, nós temos a racionalidade, o atributo que nos diferencia das demais espécies da Terra. O uso da razão nos permite pensar sobre nossas decisões e, por consequência, escolher como vamos agir em cada situação. Podemos, portanto, agir baseado no instinto ou contrário a ele. Em uma situação de perigo, por exemplo, o instinto de sobrevivência irá nos alertar que devemos nos proteger, porém, comumente vemos pessoas colocando-se em risco para ajudar as demais. A pessoa que toma essa decisão só a faz porque é livre para escolher seu modo de agir. Visto isso,somos a única espécie que vive por eleição consciente, ou seja, escolhendo nossa ação de acordo com os contextos que estamos inseridos.

Apesar da liberdade de escolha, poucas vezes no dia agimos desse modo. Pensemos na nossa rotina: quantas coisas fazemos no “piloto automático”? Desde o acordar em determinado horário, até os hábitos que cultivamos ao longo da vida, como o de dirigir, escovar os dentes ou assistir determinados programas de TV. Não colocamos consciência nesses atos, apenas os fazemos. A mecanicidade gerada ao longo do dia nos rouba a liberdade de escolher conscientemente nossas ações, tornando-se assim um terreno fértil para os instintos. O nosso egoísmo, portanto, passa a ser implantado nesses pequenos atos cotidianos: queremos assistir somente os nossos programas, não aceitamos uma atitude “errada” no trânsito ou, em alguns casos, um evento que quebre a nossa rotina nos tira do eixo e sentimos que “perdemos” o dia. Nesses pequenos, porém não raros, momentos do dia a dia demonstramos nosso egoísmo e inflexibilidade quanto à Vida.

De igual maneira, o egoísmo é expresso nas nossas escolhas. Quando escolhemos, por exemplo, uma profissão, o que em geral motiva a nossa decisão? Em muitos casos a necessidade de sobrevivência, que no nosso momento histórico se resume a ganhar dinheiro e comprar bens materiais, é o principal fator dessa escolha. Não por acaso, podemos observar uma distorção entre a quantidade de profissionais em cada área: algumas encontram-se lotadas de profissionais e outras com uma baixíssima procura. Não escolhemos nossas profissões baseados na vocação ou nos nossos talentos naturais, mas sim no critério da remuneração. Esse é, sem dúvida, um sintoma de que estamos fortemente condicionados ao nosso egoísmo. Queremos uma profissão que nos dê retorno financeiro, e não que seja uma maneira de aportar à sociedade, que nos realize servindo ao próximo.

Todas as profissões têm, em seu sentido mais profundo, a ideia de servir ao outro. Um médico, por exemplo, só desempenha bem a sua função quando consegue curar e atender os seus pacientes. Um médico que cura apenas a si mesmo não é, por lógica, um bom médico. Seguindo essa mesma linha de raciocínio é possível perceber que nossas profissões, em síntese, não deveriam ser pensadas apenas para nos realizar, mas escolhidas baseadas no quanto poderíamos ajudar os demais.

Essa percepção vai de encontro com o nosso egoísmo. Enquanto nosso ego fala em pensar apenas em si, o trabalho busca servir aos demais, muitas vezes sacrificando o próprio conforto e segurança. E, no fundo, são esses profissionais que mais nos encantam. Seja um professor que se dedica inteiramente ao aprendizado do aluno, um motorista que zela pelo seu passageiro ou um segurança que mantém-se atento para proteger os demais. Admiramos quem se coloca na vida dessa maneira pois, no fundo, nosso coração vibra com a ideia de servirmos a todos e não apenas a nós mesmos. Essa é, portanto, a primeira chave para conseguirmos nos reposicionar diante do nosso egoísmo: o serviço.

Nas tradições Orientais, principalmente a Hindu, fala-se que o egoísmo é a raiz das nossas debilidades. O Ser Humano, quando conduzido por esse aspecto, desenvolve outros tantos defeitos como a vaidade, o orgulho, a ira. Se analisássemos esses defeitos um por um, perceberíamos que por trás deles está uma necessidade de querermos mostrar que sabemos mais que alguém, ou um ressentimento por nos sentirmos ofendidos por algo externo. E como podemos combater esse mal tão próprio do instinto?

Já apontamos o serviço como uma chave para combater o nosso ego, mas há, no fundo, razões mais profundas acerca dessa temática. A filosofia Hindu nos fala do nosso Ego (esse com E maiúsculo) superior, ou seja, sobre quem de fato somos. Seria a nossa natureza Humana, ponte entre nossos aspectos mais temporais e passageiros com o que é eterno em nós. Para exemplificar, vamos imaginar nossas amizades. Há amigos que, por circunstâncias da vida, não estão próximos de nós, fisicamente falando. Entretanto, quando reencontramos esses amigos parece que nunca existiu um afastamento. A conversa flui naturalmente e ficamos felizes com esse reencontro. Outros amigos, entretanto, estão conosco por motivos passageiros, e, ao mudar o cenário, deixamos de nos conectar, terminando por esquecê-los.

Do mesmo modo que existem as amizades temporais, criadas numa circunstância específica, há amizades que nunca deixam de ser, não importa o tempo que passe ou as distâncias que as separem. Dentro de nós acontece algo similar: há algo em nós que nunca deixa de ser, nossa essência, quem verdadeiramente somos. De igual maneira, há em nós uma parte temporal, que não vence o tempo. Nosso problema está, segundo a filosofia Hindu, em discernir entre nossa parte eterna e nossa parte temporal. E como podemos diferenciar esses dois egos, um inferior e outro superior, que há em nós?

Sempre que estivermos pensando somente em nós, desejando muito somente para si, provavelmente estamos nos identificando com o nosso ego inferior. O egocentrismo, que é a sensação de que o mundo gira ao nosso redor, está fortemente relacionada com os aspectos temporais e circunstanciais da vida. Quando pensamos, por exemplo, que a nossa profissão é a melhor dentre todas, ou que o mundo “não nos compreende”, que todos estão errados e nós somos os únicos a estarem certos, bem, esse talvez seja o momento de repensarmos e expandirmos nossa percepção, tanto do mundo quanto de nós mesmos. Esse modo de pensar acaba, na grande parte dos casos, nos levando a tristeza e ao isolamento. Nos afastamos das pessoas, das relações sociais, nos sentimos injustiçados e incompreendidos.

Esse caminho, portanto, não nos leva à Felicidade, muito menos nos realiza enquanto Seres Humanos. Por outro lado, à medida que buscamos atuar de maneira colaborativa, seja no trabalho, na nossa casa ou em qualquer lugar, passamos a integrar as pessoas em nossas vidas. Quando tomamos como objetivo nos unir às pessoas estamos deixando de lado nossos gostos em nome de algo maior: a Unidade.

Segundo a Filosofia Oriental, o maior erro que cometemos é acreditar que vivemos separados, achando que os nossos problemas são apenas nossos e que o problema do outro não tem relação conosco. Quando deixamos nossas dificuldades de lado e tentamos ajudar os demais acabamos, muitas vezes, ajudando a nós mesmos. Encontramos no outro a solução para nossas dificuldades. O que nos cabe, portanto, é dominar nosso instinto de sobrevivência e colocá-lo à serviço do Todo, usando nossas habilidades como ferramentas de transformação do mundo e não como motivos para alimentar egos e vaidades. Que sejamos, portanto, Autênticos e, à medida que nos colocarmos no mundo, com intenções e ações corretas, possamos ir descobrindo a nós mesmos.

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