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O que é Deus? Essa não é uma pergunta fácil de responder, mas se nos basearmos nas características que as atuais religiões dão ao Divino poderemos dizer que ele está em todos os lugares e sabe de tudo que nos acontece. Ele também seria capaz de responder a todas as nossas dúvidas, sendo conhecedor de tudo que existe.

Se considerarmos apenas isso, o que chamamos de onipresença e onisciência, não seria absurdo dizer que no século XXI Deus estaria muito mais próximo de um algoritmo do que de uma entidade inteligente que criou o Universo. A comparação pode, num primeiro momento, parecer absurda e até de mau gosto, e já pedimos desculpas adiantadamente se isso ofender alguém, porém, ainda assim a afirmação se mostra parcialmente correta.  Antes de compreendermos a comparação, devemos entender o que são algoritmos e porque tantas pessoas já se mostram fiéis seguidores do “Dataísmo”.

Em linhas gerais, o algoritmo pode ser definido como uma série de regras e procedimentos lógicos que buscam solucionar uma equação. Na nossa vida prática, os algoritmos são utilizados para facilitar nossas buscas e necessidades, principalmente quando lidamos com objetos conectados à internet. Colocando em exemplos, é provável que você já tenha passado por essa situação: desejando viajar, você entrou em um site de companhias aéreas e procurou passagens de avião para um destino específico. Ao olhar alguns preços, acabou desistindo e indo fazer outra coisa. Mas, ao navegar pela internet e usar outros sites, “por acaso” surgiram propagandas a respeito de promoções de viagens para o destino que você procurou. 

Há quem diga que isso é apenas acaso, porém, o algoritmo não “joga” dados. O que ocorre é que ao pesquisar acerca de algo você colocou um pouco dos seus desejos em um banco de dados que, rapidamente, cruzou essa informação com outros dados armazenados sobre você. Desse cruzamento de dados o algoritmo conseguiu encontrar uma propaganda que resolvesse o seu problema. 

O processamento de dados em nossa sociedade é tão presente que a todo momento estamos fornecendo novas informações que alimentam esse sistema e, a partir disso, deixamos o algoritmo dominar nossa vida: desde uma curtida em uma rede social, até quando usamos o GPS para chegar em algum local estamos abastecendo o algoritmo com nossa rotina, nossos gostos, o que desejamos e até nossos sonhos. Mesmo sem perceber, acabamos por deixar que esse armazenamento de dados conheça tudo sobre nós e, naturalmente, quando queremos saber de alguma informação também recorremos a eles. Quantas vezes já utilizamos um site de busca para saber se estamos doentes? Ou para achar uma receita, ou mesmo uma informação qualquer? Quando fazemos isso também estamos pedindo ajuda do algoritmo para que nos leve até a resposta que buscamos.

O uso de dados para fazermos escolhas, entretanto, não é algo do nosso tempo apenas. Uma antiga frase já dizia que “conhecimento é poder”, e nesse caso diversos produtos e políticos, por exemplo, fazem pesquisas para recolher dados e traçar tipos de consumidores e eleitores. Desse modo, suas campanhas publicitárias atingem o alvo e, sem saber direito a razão, somos inclinados a comprar um produto ou votar em alguém. O que acontece nos dias atuais, logo, não é apenas a utilização dos dados, mas uma vida tão imersa nesse sistema que a todo momento estamos alimentando-o. 

Visto tudo isso, é indiscutível o quão onipresente e onisciente – ou seja, está em tudo e sabe de tudo – o algoritmo é. Por essas características, o dataísmo já é visto como a religião do século XXI. Mas o que seria o dataísmo?

Para alguns pesquisadores, o dataísmo pode ser definido como a crença de que as respostas para o Universo não estão nas estrelas, em Deus ou mesmo no homem, mas sim no processamento de dados. À medida que alimentamos esses dados com informações, sejam pessoais ou coletivas, o algoritmo nos dá a melhor solução para um problema. Tudo se resumiria ao cruzamento e processamento de dados, tornando assim nossas soluções tão precisas quanto um GPS.

Nas antigas civilizações, como os babilônios e egípcios, por exemplo, a busca por respostas voltava-se ao metafísico, a uma explicação que transcendia a matéria. Porém, atualmente esse modo de enxergar a vida foi deixado de lado e caímos no materialismo, ou seja, tudo pode ser respondido e explicado de modo racional. Nesse sentido, passamos acreditar que o Amor pode ser explicado apenas como reações químicas que acontecem no cérebro, assim como a crença em uma Divindade não passa de um conforto frente à morte e ao desconhecido.

Nesse modo de pensamento o algoritmo, sem dúvida, seria o mais avançado e próximo de um oráculo que poderíamos ter. Em última análise, poderíamos nos perguntar qual a necessidade de pensar e decidir se o cruzamento de dados nos dará sempre a “melhor” resposta? Um dos problemas do dataísmo está justamente em nos debilitar frente às nossas escolhas. Por acharmos que o algoritmo está sempre certo, seguimos cegamente pelo caminho indicado por ele. Isso é muito comum quando utilizamos um GPS e, não raramente, acabamos entrando em uma rua sem saída ou na contramão. Isso ocorre porque, por mais informações e por mais preciso que seja o cruzamento dos dados, o GPS não está dirigindo na rua, não conhece as leis de trânsito com perfeição e nem vê se naquele momento a rua está interditada ou não. Em resumo: o algoritmo não está inserido na Vida.

Há quem diga que esses erros são apenas detalhes e que, com o passar do tempo, teremos dados suficientes para contornar esses problemas práticos. Porém, há um aspecto Humano que nenhuma máquina ou dado poderá inferir ou mensurar: como se calcula, por exemplo, o Amor que uma mãe sente pelo filho? Será que o número de curtidas de uma foto é um dado que consegue traduzir esse sentimento? 

Para as questões mais importantes da nossa Vida, às essencialmente Humanas, não há como o algoritmo alcançar. Isso ocorre, de maneira geral, pelo mesmo motivo do GPS não conseguir mostrar tudo que há no trânsito: porque o algoritmo não está vivo. Os dados não traduzem a experiência da Vida, que está muito além de processos físico-químicos. Se assim o fosse, não haveria diferença entre Humanos e máquinas, porém, nossa capacidade de pensamento abstrato e simbólico, além da autoconsciência, é o que nos faz aptos a desenvolver tecnologia e, ao mesmo tempo, questionar-se profundamente sobre o sentido da Vida e seus Mistérios.

Portanto, mesmo que o dataísmo seja uma tendência da nossa sociedade, isso apenas revela o quanto estamos mergulhados no materialismo, considerando o Ser Humano como uma máquina biológica. O algoritmo, sem dúvida, nos ajuda diariamente a tomar decisões, mas para os nossos questionamentos mais profundos, aqueles que só podemos acessar através de uma ligação com a nossa Natureza Humana, ele não consegue nos atender. 

Não precisamos, por fim, de mais análises de dados. O que precisamos é sintetizar nossas experiências e nos (re)descobrir. As respostas mais íntimas só podem ser acessadas por dentro e para isso não há receita ou solução mágica: há de se aventurar na trilha do autoconhecimento. Só assim seremos capazes de achar nossas próprias respostas e sermos mais do que um sistema de informações.

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