Quem de nós nunca ouviu alguém falar que “Ciência e Religião não se misturam”? Atualmente, vivemos em um mundo pautado pelo método científico, no qual atribuímos a ele toda a forma de busca pela verdade do Universo. Como consequência, tudo que não segue a prática científica atual é excluída, de forma direta ou indireta, dessa busca. No caso da Religião, que também tenta explicar as grandes questões que envolvem a humanidade, é nítido como a sua prática é vista pelo senso comum muito mais como uma forma cultural do que, necessariamente, uma maneira de entender o mundo e nossa finalidade, enquanto seres humanos.

Neste sentido, faz-se fundamental refletirmos sobre o papel da Ciência e da Religião e percebermos, afinal, se, de fato, elas são excludentes nesse processo de conhecer o Universo. Tendo esse objetivo como base, vamos refletir um pouco sobre cada uma delas. Comecemos pela Religião, que é, sem dúvida, uma das formas mais antigas de se buscar uma resposta em meio a nossa ignorância frente ao cosmos. Advinda da palavra latina “religare”, a Religião traz consigo a ideia de religar-se com a natureza que nas mais diferentes culturas são chamadas de Deus. Não sabemos precisamente quando o ser humano passou a criar religiões, mas certamente há indícios de práticas religiosas desde a pré-história. Ao analisar, por exemplo, a forma de sepultamento desses antigos povos, percebe-se que eles eram enterrados com ferramentas, artefatos e elementos que indicavam uma maneira de culto ao morto. Pensando sob essa perspectiva, arqueólogos e historiadores deduzem que esse tipo de rito pressupõe um pensamento simbólico, próprio de uma Religião.

Infelizmente, não sabemos mais detalhes sobre esses cultos pré-históricos, mas esse fato nos abre uma importante chave para conhecermos a humanidade e sua evolução cognitiva, pois é graças a esse desenvolvimento mental que surge a percepção de algo maior, subjetivo e que tenta ser racionalizado a partir das práticas religiosas. Desse modo, o homo religiosus, como é chamado por alguns cientistas, seria o momento evolutivo da humanidade em que deixamos de usar somente o raciocínio lógico, pautado em algo concreto e na experiência, para desenvolvermos um pensamento abstrato, no qual somente o ser humano em toda natureza é capaz de ter. Assim, a criação da Religião é uma marca indelével da nossa evolução enquanto espécie, pois é o elemento que nos permite iniciar uma busca subjetiva por respostas mais profundas, que estão para além de nossa sobrevivência.

Partindo desse sentido, a religião não é somente um elemento cultural humano, mas sim uma verdadeira forma de buscar sentido na nossa existência. Não por acaso, ela caminha conosco desde o começo dos tempos. Junto a isso, a Religião também se utiliza de outra capacidade que somente os seres humanos possuem: criar símbolos. O pensamento subjetivo, capaz de entender ideias complexas e relacioná-las, foi traduzido em símbolos e objetos, dando a estes um significado para além da sua objetividade. Assim, uma cruz, por exemplo, deixa de ser apenas um objeto com uma linha vertical e outra horizontal, mas passa a ser o símbolo do ser humano preso na materialidade, dividido entre a matéria e o espírito.

Todas as Civilizações que conhecemos começaram sua jornada evolutiva partindo de uma Religião, pois era nela que se fundamentava seu destino e forma de se encontrar com o grande mistério do Universo. Assim, através dessa captação de ideias e construção de símbolos, a Religião é capaz de nos dar uma explicação para o que existe no mundo, e para entendermos a essência das experiências que vivemos. Atualmente, porém, grande parte da população dá pouco valor aos ensinamentos religiosos e suas explicações. Por mais que a maioria das pessoas afirme pertencer a uma Religião, não são todas que a praticam de forma profunda. Além disso, quando se pensa nas práticas religiosas, muitos a relacionam apenas com sua formação moral, ou seja, com a maneira que devemos conduzir nossas Vidas. Quando esses preceitos, que também estão repletos de simbolismos e conhecimentos, são obedecidos sem reflexão, facilmente nos tornam pessoas dogmáticas e intransigentes.

Por tais questões, a Religião é conhecida muito mais como um meio de Vida do que uma forma de encontrar respostas para nossas angústias existenciais. Em grande parte, não se busca entender a Deus e ligar-se a esse mistério através dos seus preceitos, mas sim apenas conduzir sua Vida a partir de regras. Neste sentido, é comum acharmos que a Religião pouco (ou nada) tem a ver com a Ciência e, por isso, não podem se misturar. Enquanto achamos que a Religião apenas tem um aspecto moral e que não apresenta nenhuma prova da existência dos seus Deuses, a Ciência é creditada, a todo momento, por suas descobertas e feitos.

Quando falamos em Ciência, estamos tratando de uma forma de conhecermos o Universo através da razão. O cientista é, antes de tudo, alguém que anseia entender como tudo funciona. Hoje, o que chamamos de “Ciência” está dividido em uma série de áreas do conhecimento como a Química, a Física, a História e tantos outros campos. Cada um, aplicando seus métodos, chega a novas hipóteses e descobertas. Porém, nosso modo de conhecer a verdade é relativamente novo quando comparamos com a antiguidade da nossa espécie. O modelo científico que conhecemos é fruto do racionalismo do século XVII, no qual a razão passou a ser o meio de conhecer o mundo e suas nuances. Porém, a Ciência em seu sentido mais profundo, que nada mais é do que uma busca pela Verdade Universal, é uma prática tão antiga quanto a Religião. 

Para entendermos melhor isso, os antigos Sumérios, por exemplo, praticavam sua Ciência do alto dos Zigurates, fazendo estudos astronômicos. De igual modo, era preciso uma série de conhecimentos para erguer seus monumentos, logo, eles exerciam a Ciência como um meio racional de construção e dedução acerca do cosmos. Porém, os Sumérios não faziam experimentos, nem foram a fundo em equações matemáticas, ou desenvolveram modelos teóricos sobre a natureza do espaço e do tempo. Assim, por mais diferente que sejam os caminhos que os antigos utilizaram para conhecer o mundo e suas leis, ela ainda pode ser chamada de Ciência. 

Além disso, para diversas Civilizações da antiguidade, a Religião estava diretamente ligada à prática científica, pois se estudava o Universo para compreender a natureza de Deus. Assim, os astros no céu não eram apenas corpos celestes a anos-luz do nosso planeta, mas sim verdadeiras expressões do Divino. Hoje, porém, após diversos estudos, já conhecemos muito sobre o funcionamento do Universo e devemos tudo isso à Ciência moderna e seus satélites. Devido a isso, muito do pensamento religioso e suas explicações – que são simbólicas – passaram a ser questionadas e tidas como inverdades, ou mesmo fantasias de pessoas com pouca capacidade intelectual. Porém, tanto cientistas como religiosos, buscam a mesma Verdade Universal, mas para isso percorrem caminhos distintos. Enquanto um deles busca uma lei universal capaz de explicar o funcionamento do Universo, o outro tenta entender seu sentido, indo além da maneira como ocorre o movimento dos astros.

Porém, ambos compartilham de um sentimento fundamental para a humanidade: a Fé. Apesar de estar diretamente associado aos costumes religiosos, a Fé nada mais é do que a capacidade de acreditar em algo, seja ele de que natureza for. Acreditar, por sua vez, vem da ideia de “dar crédito”, ou seja, de crer em algo. O cientista crê na Ciência e acredita que ela é capaz de responder todas as nossas dúvidas e, neste sentido, tem Fé. Já o religioso, acredita no seu Deus e por isso deposita nesse mistério universal sua Fé. Como podemos notar, esse conceito está para além do seu aspecto comum e é por isso que se costuma dizer que todos nós, tenhamos uma Religião ou não, temos Fé, pois acreditamos em algo. 

Neste sentido, a Fé pode ser uma expressão da espiritualidade, que também pode ser vivida através de uma percepção de que todos nós fazemos parte da natureza. Assim, as mesmas leis que operam e regem galáxias também nos regem, tornando-nos partícipes desse mistério. Segue, portanto, a nossa necessidade humana de entendermos mais profundamente essas ideias, sejam em seu sentido mais espiritual ou mesmo no modo em que se expressam suas leis. Assim, não pensemos que Ciência e Religião caminham para destinos diferentes e que a Fé é um atributo apenas daquilo que não podemos detectar, mas que sentimos que está lá. Essa poderosa ferramenta, à disposição da humanidade, é o que nos move diariamente em busca das mais diversas explicações, sejam elas baseadas na Ciência, Religião ou qualquer outro método. 

Por fim, lembremos de que, ao longo da história, diversos cientistas foram verdadeiros homens de fé, com ou sem suas religiões. Newton, Einstein, Nicolau Copérnico e tantos outros personagens da História se pautaram não apenas por sua capacidade de formular teorias e buscar respostas, mas também por entender que existe algo que está para além do funcionamento das leis, algo que ainda não conhecemos, mas que um dia poderemos vislumbrar. 

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