Você provavelmente já ouviu falar da teoria do Big Bang. Desenvolvida inicialmente por Georges Lemaitre e endossada por outros grandes físicos como Alexander Friedman e Edwin Hubble, é a ideia mais bem definida de como teria surgido o Universo. A grosso modo, diz que o Universo teria surgido a partir de um ponto, o “átomo primordial”. A partir dessa singularidade, ao qual acumulava toda a energia do Cosmos, houve uma “explosão” que possibilitou a expansão dessa matéria e formação de todas as formas que conhecemos. Assim, de maneira geral, podemos afirmar que a mesma energia que corre em nosso corpo e os átomos que nos compõem também, em algum grau, estavam juntos nesse único ponto ao qual deu forma às galáxias, estrelas e os demais corpos celestes.

Graças ao método científico é possível enxergar diversas evidências que nos dão suporte a essa ideia. O esforço de gerações de cientistas, das mais distintas áreas, nos possibilita afirmar com um grau de segurança acerca disso. Porém, será que se falássemos sobre essa ideia mil anos atrás, no ano 1021, do mesmo modo que explicamos agora, seríamos motivo de risos? É provável que sim, considerando a mentalidade da época. Do mesmo modo que cairíamos em risadas se algum grego antigo falasse que os trovões e relâmpagos que caem durante uma tempestade são causados pela ira de Zeus, não é? Isso ocorre por não aceitarmos uma visão de mundo distinta da nossa, em que as explicações para os fenômenos da natureza não estão relacionados a uma lógica científica e empírica. Em poucas palavras, como vivemos em uma civilização científica, ou seja, em que a ciência é o caminho que nos revela os Mistérios da Natureza, então essa é a única maneira que conhecemos, em linhas gerais, para se buscar essas Verdades.

Entretanto, ao longo da história utilizamos diversos meios para explicar nossa existência, o papel do Ser Humano no mundo e o próprio Cosmos. Em todas as civilizações há mitos e percepções sobre como funciona o Universo e sua criação. No Cristianismo, há o mito de criação do mundo em sete dias, por exemplo. Já na cultura egípcia, uma série de Divindades surgem a partir do Deus primordial, Amom-Rá. Essas explicações mitológicas, porém, não são, naturalmente, sustentadas pelo método científico. Entretanto, a linguagem que esses mitos utilizam são baseadas nos símbolos, e não necessariamente em cálculos matemáticos. Dessa maneira, ao olharmos para as culturas antigas perceberemos que esses homens e mulheres do passado explicavam o Universo a partir do seu sentido e finalidade, atribuindo-lhes um sentido profundo para a existência. Nessas civilizações não havia, a priori, uma preocupação excessiva em entender em detalhes o mecanismo do Universo, como ele operava fisicamente. Mais importante que saber a forma desses movimentos era saber as razões pelas quais todos os dias os astros moviam-se, como um símbolo da própria vida que precisa movimentar-se para nascer, morrer e seguir seu destino.

Partindo disso, é comum não entendermos, de maneira geral, os mitos criados por essas culturas. Por não fazerem parte do nosso modelo de pensamento científico atribuímos, de forma recorrente, um significado fantasioso e quase cômico às explicações dadas por essas civilizações. Além disso, por utilizarmos a ciência acreditamos que somos mais “evoluídos” e que compreendemos melhor o Cosmos do que essas civilizações. Será mesmo verdade isto? Em linhas gerais, entendemos que não, pois se assim o fosse não estaríamos vivendo de maneira tão separada da natureza, colocando-a em risco e usufruindo de suas dádivas de maneira tão egoísta. 

Porém, devemos entender que apesar de caminhos distintos, a ciência e a religião estão buscando a mesma finalidade: compreender o Universo e mostrar seu significado. Partindo disso, hoje apresentaremos duas visões “distintas” sobre o Universo e sua criação e como ele chegaria ao fim, mas que, em síntese, aproximam-se bastante. Uma destas teorias já citamos no começo desse texto, a teoria do Big Bang; a outra é a visão hindu sobre como o mundo foi criado, a partir das respirações do Deus Brahma. Será, portanto, tais percepções tão distintas?

Comecemos pela visão hindu. Segundo o mito de criação, o Deus Brahma, o criador de tudo que existe, teria criado o mundo a partir de sua respiração, fazendo com que ora o Universo existisse, ora ele fosse recolhido e desaparecesse. Para os antigos esse seria o ritmo natural do Universo, ao qual funcionaria a partir da existência e da “não-existência”. Desse modo, existiria um tempo de criação e de destruição, de expansão e de recolhimento. Essas são ideias que podemos carregar conosco para explicar uma série de fenômenos da vida, sendo essa percepção dos ciclos uma Lei Universal. Pensemos na nossa própria vida e veremos que isso nos ocorre todos os dias: há um tempo para dormir e outro para acordar, para trabalharmos e descansarmos, e assim por diante.

Considerando isso, o mito de criação hindu está expressando que o ciclo é algo natural no Universo e, portanto, provavelmente o próprio Cosmos funcionaria seguindo essa Lei. Ainda de acordo com essa visão, quando o Deus Brahma expira e todo o Universo se manifesta esse é um momento do mundo chamado de “Manvantara”, ou seja, o período em que existe Vida e que as mais distintas formas encontradas no Universo podem se expressar. Nesse momento, para o hinduísmo, estamos vivendo esse movimento de expansão da energia cósmica. 

Porém, quando Brahma fizer sua inspiração, ou seja, recolher o ar que soltou, ocorrerá um outro momento no Universo, ao qual todas as formas retornarão ao Deus, sendo assim recolhidas. Esse momento é chamado de “Pralaya”, a “morte” do Universo. Nesse momento toda a atividade do Cosmos volta à sua origem, sendo mais uma vez expressada em uma nova respiração de Brahma. Assim, em síntese, esse mito nos revela que há uma dualidade entre o que existe e o que não existe, ou entre Vida e Morte. Ela ocorre com todos os seres da natureza e, sendo essa uma Lei, também aplica-se ao nosso Universo como um todo. 

Nos dias atuais, imaginar que o Universo é, literalmente, fruto da respiração de um Deus seria motivo de “piada”, mas já alertamos que a linguagem do mito é simbólica, ou seja, ela nos apresenta um símbolo da vida. Desse modo, o que esse mito de criação nos mostra é como o Universo funciona a partir dessa relação cíclica. Porém, será que a ciência tem uma visão distinta desse fenômeno?

Partindo da teoria do Big Bang sabemos que o Universo iniciou a partir de um único ponto e que expande-se desde então. Porém será que essa expansão durará infinitamente? Segundo os cosmólogos, não. Há algumas hipóteses sendo estudadas acerca do futuro do Universo e uma delas refere-se ao “Big Crunch”. Segundo essa hipótese, o Universo irá expandir-se até um limite máximo e, tal qual o efeito de uma mola que foi esticada ao máximo, toda a matéria do Universo irá se contrair, voltando para um único ponto. Essa dinâmica, porém, ainda não é certa entre a comunidade científica, uma vez que para testar essa hipótese ainda necessitam-se de tempo e recursos. A ideia, porém, é de que a densidade do universo, quando não puder mais expandir-se, irá colapsar e fazer com que grande parte dessa matéria passe a regredir.

Percebemos que a relação do Big Bang e do Big Crunch são semelhantes ao mito de criação hindu. A diferença fundamental entre elas está no método e na linguagem ao qual são expressadas. Ao usarmos a ciência para explicar essas ideias em nosso momento histórico, seremos perfeitamente entendidos e, acima disso, podemos ser reconhecidos como pessoas “inteligentes”. Por outro lado, a linguagem religiosa do Hinduísmo é entendida como fantasiosa, quase deslocada da realidade objetiva que vivemos. Mas, apesar das diferenças entre uma e outra, ambas buscam explicar um mesmo dilema humano: De onde surgiu o Universo e até onde ele irá? 

O valor dessas explicações está no contexto histórico que vivemos. Para além das formas, é fundamental compreendermos que ambas estão buscando responder às nossas angústias mais profundas, existenciais. Assim, não cabe a nós compararmos qual a mais “certa”, mas perceber que tais ideias fazem com que nos movimentemos diante do mundo e criam em nós uma percepção de como o Cosmos atua. Se hoje podemos fazer estudos complexos e testar como fisicamente se dá essa relação de expansão e recolhimento, sejamos então atentos para perceber como essas ideias se fundem, mesmo que cada uma use uma maneira distinta de chegar à mesma síntese.

Assim, não cabe a nós sermos os juízes da Verdade sobre os Mistérios do mundo. É provável, se pensarmos bem, que daqui a um milênio exista uma nova forma de explicação desses Mistérios e nós, devotos da Ciência, sejamos motivos de risada para os homens e mulheres do futuro. Aprendamos, portanto, a respeitar as diferentes maneiras de explicação dos Mistérios e, acima disso, a agregar cada vez mais tais concepções para notar suas similaridades. 

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