Você sabe o que é um mantra? Amplamente usado na cultura hindu, os mantras são frases ou sílabas que, pronunciadas de forma repetitiva, podem nos levar a estados psicológicos que nos fazem acessar uma outra realidade ou percepção do que vivemos. Nesse sentido, os mantras são utilizados de forma ritualística pela religião hinduísta e também pelo Budismo, pois nos permitiriam compreender de forma intuitiva a ligação existente entre os seres humanos e os deuses. 

Rodas de oração no budismo. Imagem de Ashlesh Kshatri, por Pixabay.

Para aqueles que nunca viveram a experiência dos mantras, é provável que essa ideia seja, no mínimo absurda, correto? Mas será que uma prática tão antiga e que até hoje é utilizada não deve esconder algum segredo? É partindo dessas duas perguntas que hoje vamos investigar um pouco mais sobre o que ocorre conosco quando começamos a evocar os mantras.

Cabe, portanto, começarmos nossa investigação entendendo um pouco mais da função dos mantras dentro dos esquemas religiosos hindu e budista que, a rigor, apesar de serem religiões distintas, usam os mantras como uma fórmula quase “mágica” de acesso ao mundo espiritual. Por definição, o mantra é um instrumento de pensamento no qual induz o praticante a um estado meditativo. Nas religiões é tido como uma forma de hino, e com o tempo foram sendo criados diversos tipos de mantras com finalidades igualmente distintas. Há, por exemplo, mantras que buscam colocar a psique para relaxar; outros, para acalmar, e até mesmo podem ser usados de forma terapêutica, no sentido de retornar a um estado de equilíbrio emocional e psicológico. Assim, para além de uma prática religiosa, com o tempo adotou-se um sentido de cura para males psíquicos como ansiedade e até mesmo controle do medo.

Os mantras, porém, não são criados ao acaso. Em verdade, existe uma verdadeira arte na elaboração deles, e sua maioria, em verdade, foram retirados de livros sagrados como os Vedas, o grande livro da doutrina hindu. Assim, não é somente a repetição de frases de maneira compulsória que podemos chamar de mantra, uma vez que elas possuem uma métrica única, que quando combinadas com a repetição, podem se tornar verdadeiras orações, com um ritmo próprio e uma melodia única. Sua sonoridade, portanto, é a chave para entendermos seu papel na nossa psique.

Sobre o som, não é novidade que ele é capaz de produzir efeitos diretos em nossa mente. Não por acaso, a música talvez seja o tipo de arte mais consumida no mundo, tendo gêneros diversos e instrumentos dos mais variados. Quem não tem, por exemplo, um tipo de música específico para acordar ou para dormir? E não é de hoje que utilizamos músicas para aumentar nossa capacidade de concentração para estudar ou fazer alguma tarefa que nos exija foco. Do mesmo modo que ela nos ajuda a entrar em estados psicológicos específicos, também podemos usar a música como uma válvula de escape, no qual externalizamos pensamentos e sentimentos. Desse modo, comumente vemos pessoas que acabaram de sair de um relacionamento, por exemplo, escutando músicas que retratam esse momento de suas vidas, que exaltam a tristeza e melancolia do fim de uma relação. Tais músicas afetam ainda mais profundamente quem se identifica com o que está sendo transmitido.

Créditos: Olhar Budista.

Nesse último caso, é possível argumentarmos que a letra, ou seja, as palavras são o fator determinante desse efeito, e o som estaria compondo esse cenário de forma secundária. Entretanto, mesmo as músicas instrumentais – que não possuem letra – são capazes de nos levar a retratar esses mesmos estados psíquicos com perfeição. Para os céticos, basta escutar “Os Noturnos” de Frédéric Chopin, e entenderão o que estamos querendo dizer. Visto isso, é inegável o efeito do som sobre a nossa própria mente e como, de fato, ele nos leva a esses estados. Então, qual a diferença de colocarmos um mantra e uma música que gostamos de ouvir para entrarmos nesses estados? 

Há uma diferença fundamental entre esses dois, mas primeiro vamos entender o que é preciso ter para se criar um mantra. De forma sintética, um mantra é composto por três elementos: uma sílaba ou frase, um significado e um som.  A sílaba ou a frase é a componente do mantra que será falada repetidas vezes, porém de nada adianta repetir mecanicamente uma frase se não souber seu significado. O significado da frase faz com que nossa consciência se alinhe de acordo com o comando que é dado, e o som acaba por formar um ritmo próprio, conduzindo o praticante a esse estado meditativo guiado pelo significado do mantra. Nesse aspecto, o mantra nada mais é do que uma forma de guiar o pensamento para onde desejamos, colocando nossa atenção e nossa consciência a serviço do que desejamos canalizar em nossa psique.

Além disso, os mantras são necessariamente escritos em sânscrito, a antiga língua indiana. Mesmo que pareça uma informação óbvia, uma vez que os mantras foram desenvolvidos pelos hindus, a neurociência confirma que  há mais efetividade dos mantras em sânscrito do que outros idiomas, logo, há uma explicação do som produzido por esse idioma frente aos demais. De acordo com estudos, os seres humanos que desenvolveram o sânscrito tiveram, em seu início, a preocupação de reproduzir sons da natureza como fonemas; e como hoje essa é uma língua que está “morta”, ela não sofre alterações. Os mantras em sânscrito, portanto, além de funcionarem pelo significado e o som, ainda nos colocam em um estado “natural”, pois evocam essa particularidade da natureza e realinham nossos padrões de pensamento.

Ganesha, o mensageiro dos deuses. Imagem de Anke Sundermeier, por Pixabay.

Para alguns talvez essa seja uma ideia “estranha”, afinal, em geral costumamos achar que possuímos o controle completo dos nossos pensamentos e sentimentos. Porém, quantas vezes conseguimos nos livrar de um pensamento que passa dias ou semanas rondando nossa mente? E de emoções negativas que nos invadem sem nenhum aviso, nos colocando em estados depressivos? Em diversas tradições humanas, fala-se sobre a dificuldade de lidar com nossa mente e emoções. A primeira, ao mesmo tempo, mostra ser nossa grande vantagem frente aos outros seres da natureza; mas que pode, quando mal canalizada, ser nossa desgraça. Na doutrina tibetana, por exemplo, fala-se da necessidade de “matar a mente” que, em verdade, podemos traduzir como o empenho que devemos fazer para controlar esses pensamentos avulsos e formas psíquicas a que nos apegamos. Como podemos demonstrar o mínimo de controle sobre esse aspecto tão sutil e que, ao mesmo tempo, condiciona grande parte da nossa vida?

O mantra é uma ferramenta para isso. Porém, esse é um uso puramente psicológico do mantra, e sua função religiosa caminha por uma trilha ainda mais profunda: a de nos alinhar com o mundo espiritual. Essa perspectiva religiosa também nos causa estranheza, visto que, via de regra, temos pouco contato – e na maioria dos casos, nenhum – com as doutrinas orientais que utilizam os mantras com essa finalidade. Porém No entanto, na religião cristã, por exemplo, há uma série de hinos e práticas que guardam semelhanças com o mantra. Uma das mais conhecidas, por exemplo, é a prática de rezar o terço, em que repetidamente fazemos orações de acordo com uma sequência pré-estabelecida. As orações têm um ritmo próprio e também uma métrica singular, gerando uma espécie de canto. E qual a função deste senão o de trazer a paz ao mundo? Em verdade há diferentes terços com finalidades distintas, mas em geral busca-se a conexão com Deus para que este realize uma ação benéfica para si ou para outras pessoas. 

Nesse sentido, podemos dizer que, a rigor, essa prática religiosa tem um efeito psicológico similar aos mantras e cumpre também um papel na crença do praticante. No caso do hinduísmo e do budismo, o mantra é a canalização dessa energia divina que é expressa através dos sons, das palavras e dos significados. O mantra prepara a psique e o espírito do praticante para esse contato, apaziguando emoções negativas e pensamentos que não condizem com o que se busca na doutrina religiosa.

Visto isso, é inegável o valor dessa prática como ferramenta de meditação e também de contato com nossa própria mente. Não precisamos ser hindus ou budistas para apreciar os benefícios dos mantras, mas sim aprender com esses sábios da antiguidade as vantagens proporcionadas em desenvolver um sistema eficaz de controle e alinhamento de nossa psique.

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