O ser humano sempre buscou entender a vida e o seu sentido. Perguntas como “quem nós somos”, “de onde viemos”,  “para onde vamos”, “como fomos criados”, “como a vida surgiu”, são recorrentes na história da humanidade, sendo possível encontrar respostas muito diferentes nos seus aspectos mais aparentes, mas que parecem ter ao menos um ponto em comum: guardam um quê de mistério. Ainda não temos todas as respostas.

Na mitologia, na religião, na arte, na ciência, podemos embarcar em inúmeras proposições para o mistério da vida. Cada civilização se debruça sobre aquilo que mais acredita lhe dar possibilidades de entender. No Egito Antigo, percebemos um aspecto religioso muito presente para lidar com os mistérios da vida. Na Grécia, os mitos e a filosofia. Em Roma, uma vida muito prática guiada por leis que surgiam de um entendimento de que a própria vida tem suas leis naturais. Na a atual civilização contemporânea e globalizada, através de sua ciência e tecnologia avançadas, podemos encontrar inúmeras pesquisas que tentam revelar a verdade sobre a criação da vida, replicando o que seria seu surgimento em laboratórios.

Os três cientistas, Juli Peretó, Matthew Powner e Iñaki Ruiz-Trillo, partem da premissa de que a vida na Terra surgiu por acaso e sem necessidade de uma origem que a tenha antecedido. Como resume o bioquímico Juli Peretó, da Universidade de Valência, na Espanha: “Seria a prova definitiva de que a vida emerge da química e que não é preciso recorrer a nenhuma força sobrenatural”. Ele se refere à pesquisa para reproduzir em laboratório a formação espontânea de peptídeos essenciais à vida. O seu outro colega, Matthew Powner, do University College de Londres, também bastante otimista, afirma: “Acredito que estamos a uns cinco ou dez anos de criar uma protocélula funcional.”

Eles estão à frente da pesquisa que tenta reproduzir as condições ambientais da Terra no período em que se suspeita ter surgido a vida. Assim, eles pesquisam elementos como hidrogênio, carbono e enxofre numa tentativa de demonstrar que a vida surgiu por acaso e que pode, a partir daí, replicar a si mesma, recriando-se e criando.

Publicado na revista Nature, os últimos avanços dão conta de entusiasmar a comunidade científica que há 60 anos tenta fabricar os peptídeos a partir dessas condições iniciais da Terra. Explicando melhor, os peptídeos são cadeias de aminoácidos, poderíamos dizer que são uma espécie de proteínas em versões curtas, mas que são essenciais para que a vida surja. E apesar das inúmeras tentativas de criação, utilizando sopas artificiais de água e aminoácidos, nenhuma foi bem sucedida até a última e recente publicação.

A equipe deu um passo atrás na pesquisa, usando os precursores dos aminoácidos que estava utilizando e isso parece ter a deixado mais próximo da criação dos peptídeos. Numa comparação do cientista Juli Peretó, é como se eles estivessem escrevendo a palavra ABC a partir das letras a, b e c, mas isso não funcionava na água. Powner escreveu ABC juntando os precursores de a, os precursores de b e os precursores de c, sem passar pelas letras a, b e c; e, assim, formou cadeias de peptídeos sem usar aminoácidos. “Estamos perto de chegar ao fim do princípio: sintetizar as moléculas funcionais da vida. O passo seguinte será integrar estas moléculas em um sistema”, explica Powner.

A ciência parece ter dado um passo importante na sua busca por respostas sobre o surgimento da vida. Porém, até mesmo os próprios cientistas se questionam: “Não estamos longe, no sentido conceitual, de criar vida em laboratório. A polêmica pode estar no que consideramos que está vivo”, opina Peretó. O bioquímico ainda alerta que apesar dos avanços, falta muito até a criação de uma célula a partir de elementos químicos presentes na Terra. “Outro componente essencial seria a membrana celular, e ainda há poucas propostas sobre como teria se formado”, salienta.

De fato, parece que há um consenso na comunidade científica sobre o impressionante resultado da pesquisa, mas também afirmam que ainda há muito a ser feito quando se fala em surgimento da vida. O pesquisador Iñaki Ruiz-Trillo, do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona,  diz que no seu entender, o trabalho “talvez também poderia indicar que certas condições adequadas na Terra já foram capazes de permitir a formação de peptídeos, sem necessidade de pensar em nada que venha de outros lugares”, em referência às hipóteses do surgimento de vida na Terra a partir de elementos que chegaram em meteoritos. Já o bioquímico Juan Antônio Aguilera, da Universidade de Granada, comenta que a pesquisa “não resolve a questão de como apareceram os primeiros seres vivos, mas contribui para abrir o caminho para entender o que pode ter ocorrido, que é um dos maiores desafios da biologia e da ciência em geral.”

Novamente parece que temos mais perguntas que respostas. Será mesmo que é possível resolver esse mistério que é a vida? Mesmo que os cientistas consigam criar uma forma, uma célula, será que isto comprova que no início a vida surgiu por um acaso? Uma filósofa contemporânea chamada Helena Blavatsky tem uma frase muito intrigante sobre essas teorias de surgimento de vida pelo acaso. Parafraseando-a, se jogássemos vários pedaços de madeira e cordas para o alto, elas cairiam ao acaso no chão e começariam a tocar alguma sinfonia de Bach? 

A vida nos parece tão complexa e sutil, será que recriar sua parte física também implicaria lhe dar um sopro de vida? O sopro que lhe anima? Dentro da literatura, temos um bom exemplo para refletir: o monstro de Frankenstein. O médico Dr. Frankenstein tenta criar vida juntando partes de corpos e eletricidade. Na religião, são inúmeras as tradições que nos contam sobre um raio, o elemento espiritual, que invade as águas primordiais, o elemento material, gerando vida.

Independente das respostas que virão, talvez a nossa maior resistência hoje, e sempre, é que, como o Hamlet de Shakespeare, “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia.” Uma boa reflexão é se podemos realmente partir do princípio que podemos entender tudo, podemos explicar tudo, assim como uma ciência que não se propõe a entender a vida se debruçando sobre ela, mas que parte já de um pressuposto que limita suas possibilidades de compreensão. 

Talvez por esse caminho acabe recaindo no que ela mesmo critica, uma visão determinista sobre a vida e sobre seus mistérios. Cada campo da vida — a arte, a religião, a política e a ciência — poderia ampliar nossa compreensão de mundo e não restringi-lo, contribuindo com aquilo que lhes é próprio.

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