As antigas tradições tinham um jeito muito especial de abordar aspectos profundos da natureza humana. Quando a linguagem cotidiana era curta para alcançar esses aspectos, eles recorriam aos mitos. Vemos isso em todas as culturas antigas: nos “itans” africanos, nos mitos nórdicos, celtas, árabes, chineses, etc. Na mitologia grega, por exemplo, tem um mito muito interessante que explica o surgimento da capacidade de pensar do ser humano. Eles diziam que em um certo dia Zeus, o deus dos deuses do panteão grego, deu uma ordem a Prometeu e a seu irmão Epimeteu para criar os animais e os homens. De imediato, Epimeteu começou a criar os animais, equipando-os com garras, força, selvageria, presas, sagacidade etc., e caprichou tanto que, quando foi criar os seres humanos, faltaram recursos para lhe atribuir. Então, Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu aos homens. 

Essa narrativa mítica é carregada de simbolismos e nos permite uma visão filosófica profunda sobre a essência do raciocínio. O fogo dos deuses entregue às feras, referido no mito, representa a capacidade de raciocinar. Nesse sentido, pensar é o ato que humaniza o animal que, em alguma medida, somos, em direção a uma etapa evolutiva mais avançada do que a etapa em que nos encontramos, a qual no mito é representada pela esfera dos deuses. Como dizia Nietzsche, “o homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem”. Esse “super-homem” a que Nietzsche se refere são os deuses do mito de Prometeu. Na prática, podemos visualizar essa profundidade filosófica do seguinte modo: se afastarmos toda a possibilidade de raciocínio de um indivíduo, a tendência é uma conduta animalizada predominar, porque há um elemento mental muito forte no processo de humanização. Não somos humanos por um golpe de sorte da natureza, mas por esforço de raciocínio. A dimensão humana não é algo que nos acontece, é algo que nós tomamos à força, com muito trabalho mental. 

Não sei se já lhe ocorreu uma situação em que você começa a agir de forma brutal e logo em seguida para e reflete melhor sobre o que está fazendo e diz para si mesmo: “calma, eu não estou pensando direito”. É justamente nesse ponto onde está a virada humana, quando ordenamos o pensamento, transitamos do animal para o humano em nós. Se você observar bem, vai perceber que todos os grandes pensadores da humanidade, de Sócrates a Kant, relacionaram o exercício da moral com o exercício da razão, ou seja, com o raciocínio. No livro A República, Sócrates, falando através de Platão, constrói um verdadeiro sistema moral no pensamento. A partir de diálogos bem estruturados, fruto de muito raciocínio, ele vai pouco a pouco erigindo uma cidade ideal e tem um momento em que um interlocutor lhe pergunta: essa sociedade aí que você está construindo nunca existiu. O que nos garante que é possível realizá-la na prática? E Sócrates responde: se somos capazes de pensá-la, então,  já existe no pensamento. Ou seja, a civilização é uma resultante do que se constrói mentalmente, o modo como nossa sociedade se estrutura hoje é o resultado de muito raciocínio, por séculos e séculos. Nossa República, nossa democracia, nosso presidencialismo, a tripartição de poderes, os sistemas de direitos, são todos resultados de um processo de raciocínio longínquo, desde os gregos até os romanos, passando pela Revolução Francesa e o Século XX. É à custa de muito raciocínio que somos o que somos hoje. A civilização que seremos amanhã é aquela que está sendo moldada em nossas mentes hoje. Se não usamos o raciocínio para pensar  um mundo melhor, se não elaboramos mentalmente o futuro humano, que futuro teremos?

Para Kant, a finalidade com que a natureza nos muniu de razão foi justamente para guiarmos a vontade. No entanto, nós temos livre arbítrio e acabamos fazendo um uso desviante da razão. Em vez de usarmos a razão para guiar a grande potência da vontade para o bem, a utilizamos, predominantemente, para potencializar vícios, maquinar a maldade ou, quando não, atrofiamos a capacidade de raciocinar por inércia, por preguiça mental a despendemos com raciocínios rasos.

Quando optamos pela inércia, pela preguiça mental, quando evitamos esforço de raciocínio, é como se estivéssemos atrofiando um músculo, vamos perdendo a habilidade. Um jeito didático de explicarmos isso é dizer que a natureza é econômica, ela nos deu recursos, mas se não utilizarmos, ela afasta. A degeneração cronológica do corpo também tende a diminuir o trabalho do cérebro, no entanto estudos científicos vêm confirmando o que já vem sendo repetido no senso comum de que o esforço mental, o trabalho intelectual constante e ativo tende a retardar esse declínio da mente, porque vão se criando novas conexões entre os neurônios. 

Pensar bem requer esforço e trabalho constante. Uma sociedade que elege o repouso mental como regra de vida, de modo que tudo que requer um esforço mental maior é deixado de lado, tende a ser cooptada pelo chamado “pensamento de manada”. Expliquemos melhor: essa expressão “pensamento de manada” é uma alegoria do que acontece com os animais de manada, que, juntos, disparam, sendo empurrados uns pelos outros em um movimento coletivo. Não decidem por si a direção, correm porque todos estão correndo, entram no fluxo da correnteza. Isso vem se potencializando muito hoje com as redes sociais e com a tecnologia da informação em geral. É daí que surgem fenômenos como as fake news, em que uma informação, ainda que falsa, compartilhada milhões de vezes, começa a ganhar contornos de verdades, pois muita gente começa a tomá-la como verdade. Isso decorre da falta de esforço em pesquisar  as fontes e usar um raciocínio mais elaborado e mais comprometido com a verdade. A tendência é as pessoas pensarem cada vez menos e serem pensadas por fontes externas e desconhecidas cada vez mais.

No Mito da Caverna, que se encontra no Livro VII da República de Platão, o filósofo ilustra na alegoria uma sociedade que vive numa caverna, presa, e o que os mantém ali, sem que haja muita resistência, são os manipuladores da caverna, que movimentam objetos em frente a uma fogueira. Projetando sombras nas paredes, como em um jogo de sombras chinês, os homens ficam tão absortos nas imagens projetadas que mal dão conta de que estão vivendo uma vida subterrânea, perdendo o espetáculo genuíno que se passa lá fora, o mundo real. Esse mito pode ser aplicado perfeitamente aos que não pensam por si, porque dá trabalho, aos que se entregam às sombras ilusórias do pensamento fácil. Hoje mais se veem filmes do que se leem livros, porque ler requer esforço. Mais se consome entretenimento do que abordagens sérias da realidade. Parece que há uma conspiração invisível no mundo em torno do não pensar ou do pensar fácil, tendemos a querer tudo de imediato, qualquer raciocínio mais esforçado nos causa repulsa. 

A libertação das ilusões, o enfrentamento da realidade, a construção do futuro, requer esforço de raciocínio, requer o exercício da vontade. Precisamos raciocinar mais e melhor, precisamos ler mais, desenvolver ideias mais originais, refletir sobre a vida e pensar por nós mesmos. Encontrar em nós a centelha da mesma inteligência divina que pensou no Universo. Vejam o sistema solar, tão inteligentemente pensado, quantos movimentos simultâneos e sincrônicos envolvendo corpos tão gigantescos e complexos. A natureza é inteligente, o Universo é inteligente, não somos um ponto fora da curva de todo esse sistema, guardamos em nós um potencial incalculável de inteligência. O que precisamos é despertar esse poder latente, colocá-lo em movimento, exercitá-lo cada vez mais. Esse é o motivo pelo qual raciocinamos: fomos munidos pela natureza com essa capacidade, não devemos negligenciar essa missão.

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