Fisiologicamente falando, muitos são os benefícios de uma boa noite de sono. Além do motivo óbvio, que é para o nosso descanso, muitos hormônios são liberados especificamente durante o sono, como o hormônio do crescimento, GH (growth hormone, na língua inglesa), e hormônios que ajudam no controle do apetite e digestão, tais como a grelina e a leptina. Além desses benefícios, o sono nos ajuda na consolidação da nossa memória e fixação do aprendizado. Isso se dá quando estamos em sono REM, termo em inglês que significa “Rapid Eye Movement”, ou movimento rápido dos olhos, que acontece em nosso estado de sono profundo, quando estamos sonhando. Várias pesquisas e artigos científicos comprovam tais benefícios. E, segundo os estudos, nós sempre sonhamos, assim como diversas espécies de animais, como outros mamíferos e aves.

Porém, se sempre sonhamos, por que não lembramos de todos os nossos sonhos? E por que alguns sonhos nos impactam profundamente, enquanto outros não? A capacidade de sonhar não é exclusiva do ser humano. Quem tem cachorro em casa consegue ver claramente quando eles estão sonhando. Porém, temos uma peculiaridade que interfere na nossa “arte de sonhar”, que é a nossa consciência. Muitos filósofos antigos afirmavam que a evolução do homem se dá através da evolução de sua própria consciência, e os sonhos podem nos ajudar com isso!

Muitas vezes, um sonho, por mais “doido” que aparente ser, pode sintetizar a experiência do nosso dia, pode revelar algo que precisamos trabalhar em nós mesmos, nos apresentar um medo ou uma insegurança que não sabíamos que tínhamos ou nos dar uma resposta para a resolução de um conflito. Tão profunda é a relação dos nossos sonhos com a nossa consciência, que existe uma ciência voltada só para isso, a psicanálise, iniciada por Freud e aprofundada depois por Jung. A grande questão é que a interpretação dos sonhos é algo subjetivo, que está intimamente ligado à pessoa que sonhou e à sua forma de vida; por isso, não é qualquer pessoa que pode “decifrá-lo”. Por ser um assunto muito interessante, popularizou-se rapidamente, e hoje existem inúmeros sites que apresentam a interpretação pronta do seu sonho, mas temos que ter muito discernimento na hora de avaliar!

Os sonhos, porém, foram motivo de estudos não somente na era moderna. A bem da verdade, quase todas as civilizações antigas atribuíram importantes significados aos símbolos e histórias que vivenciamos nesse mundo onírico em que viajamos quando fechamos nossos olhos e dormimos. No Japão, por exemplo, fala-se que os sonhos são uma forma direta dos deuses e dos mortos falarem com os vivos, sendo assim um canal para o outro mundo. Na mitologia grega, por outro lado, os sonhos não somente tinham essa função, mas também serviam como um oráculo, através do qual antigas profecias chegavam aos mortais. Conta-se, por exemplo, que foi através de um sonho que a profecia de que Troia, a grande cidade-estado inimiga dos gregos, iria ser destruída. Também teria sido por meio dos sonhos que a mãe de Aquiles saberia que seu filho não voltaria vivo dessa guerra.

Ainda sobre a cultura grega, os sonhos estavam diretamente ligados ao mundo dos mortos. Não por acaso, Morfeu, o deus dos sonhos, era filho de Hipno, a divindade à qual era atribuído o sono e um dos juízes do Hades. Por essa relação com o mundo dos mortos, o sono ficou popularmente conhecido como “a pequena morte”. De fato, quando paramos para pensar em nosso dia a dia, o momento de dormir se assemelha ao descanso da vida, que após uma longa jornada existencial, retira-se para um outro mundo, para em outro momento voltar a viver. Todos os dias dormimos e acordamos, renovados para uma nova jornada diária, e essa renovação é, a grosso modo, quase um milagre. Nossa psique volta a se estabilizar, nosso corpo recupera suas forças e, assim como os primeiros raios de sol cortam a escuridão da noite, acordamos com nossas expectativas renovadas.

Dentro desse aspecto, o sonho seria uma nova realidade, própria de elementos sutis e invisíveis aos nossos olhos físicos. Não por acaso, é nesse mundo dos sonhos que, dentro da mitologia grega, as pessoas que se tornaram tão puras quanto os deuses adentram a chamada “porta dos sonhos”, que daria acesso a uma nova etapa evolutiva desse ser. A mitologia, porém, não nos informa muito mais do que isso ou como seria, de fato, esse mundo dos sonhos.

Já na doutrina tibetana, encontra-se a ideia de “viagem astral”, amplamente usada no Ocidente a partir de conceitos da doutrina espírita. O que os tibetanos chamam de astral seria, em realidade, o mundo emocional que envolve todo o aspecto físico, mas que nos é imperceptível. Assim, existe um “mundo dentro do mundo” e que estão intrinsecamente ligados, mesmo que não possamos compreendê-lo em sua totalidade muito menos percebê-lo. Quando nosso corpo sai do estado de vigília, ou seja, quando dormimos, a barreira entre esses dois mundos diminui e nosso aspecto astral – também chamado de “veículo astral” ou “corpo astral” – se desprende do corpo e passa a vagar livremente. De forma superficial, o que chamamos de sonhos são, na verdade, as experiências que esse corpo astral viveu nesse mundo sutil, misturado com alguns elementos que estão no nosso subconsciente. 

O que podemos concluir disso tudo? Para além das especulações metafísicas, é inegável perceber o valor do mundo onírico e dos sonhos para a humanidade. Como já apontamos, não somos os únicos seres a sonhar, pois o sonho é, a nível psicológico, uma série de emoções e desejos que vivemos no dia a dia e acabamos reprimindo. Os animais também possuem esse “veículo” emocional, tanto que demonstram com facilidade sua alegria ou raiva. Porém, diferentemente de nós, os animais não podem interpretar ou tentar compreender a natureza dos sonhos que vivemos, muito menos compreender que essa é, em grande medida, uma forma do nosso próprio organismo viver desejos reprimidos e que não poderiam ser colocados em prática na vida objetiva. Contudo, uma pessoa com uma psique equilibrada provavelmente não sonharia que tinha feito atos tão distintos do que sua vida comum já o proporciona. 

Para além dessas questões, como vimos no post “Paperman e os Símbolos da Vida”, a nossa vida é repleta de símbolos, quer estejamos acordados ou dormindo. À medida que vamos ficando mais atentos às situações à nossa volta, que vamos observando como nossa mente funciona, que vamos refletindo sobre nosso posicionamento diante das situações da nossa vida, também vamos desvendando os símbolos, e isso é repassado para os nossos sonhos. Por isso, não estranhe se um certo dia você sonhar com a resposta para um problema que você teve durante aquela semana, se você tiver um sonho inspirador e acordar com força para lidar com um desafio que não consegue vencer há anos, ou acordar com certo pesar de consciência porque o sonho mostra algo que não quer ver!

Essa é a importância de uma boa noite de sono. Alguns precisam de 8 horas; outros, apenas 5 horas. Isso não é uma questão de quantidade de horas dormidas. Quando conseguimos gerar reflexões e percepções acerca de nossas vidas, não só durante nossas vigílias, mas também nos sonhos, ficamos cada vez mais conscientes de nós mesmos, e crescemos como seres humanos.

Por isso, dê valor a esse momento do seu dia, pois aí também está uma oportunidade para aprendermos e nos tornarmos pessoas melhores.

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