O Curto prazo da Memória Coletiva

Uma antiga frase diz: “um povo sem memória tende a cometer os mesmos erros”. Sem dúvidas, essa é uma das maiores verdades que podemos encarar na existência. Quantas vezes cometemos deslizes repetidos? Seja um tipo de comportamento, um mau hábito ou mesmo escolhas questionáveis que, por inúmeras razões, voltamos a repetir. Tudo isso sinaliza o quanto nos falta a memória e não estamos falando apenas de uma capacidade de lembrar, mas de aprender com aquilo que vivemos.

Não por acaso, a memória sempre foi um dos pilares fundamentais da existência humana, não apenas no plano individual, mas sobretudo no coletivo, onde ela se transforma em um instrumento essencial para a construção de sociedades mais conscientes, mais justas e menos propensas à repetição de seus próprios erros históricos. É graças a essa eterna construção da memória que podemos saber de onde viemos, construir uma tradição e passar nossos conhecimentos para as gerações seguintes.

Quando uma sociedade se lembra, naturalmente ela aprende e, consequentemente, evolui. A memória, portanto, não é apenas um registro do passado, mas um mecanismo ativo de proteção do futuro, uma espécie de bússola ética que orienta decisões e comportamentos coletivos. Porém, o contrário também se faz verdadeiro: sempre que esquecemos, seja no plano individual ou coletivo, tendemos a cometer os mesmos erros e não seguir o caminho natural de evolução. Assim, entre ciclos de aprendizado e esquecimento, podemos cair em situações complexas quando permitimos que atitudes desumanas passem a ser “normais” em nosso dia a dia. 

Frente a esses fatos, devemos compreender que a memória de uma sociedade só pode ser construída (e mantida!) através do esforço e compromisso dos cidadãos e suas instituições. Diferentemente da memória individual, que está ligada às experiências pessoais e emocionais de cada indivíduo, a memória coletiva depende de narrativas compartilhadas, de educação, de cultura e de instituições que garantam que determinados acontecimentos não sejam apagados pelo tempo ou pela indiferença.

Para o senso comum é natural pensar que a memória e a história garantem por si só que os erros do passado não sejam cometidos. Contudo, é justamente a história que nos prova o contrário, pois quantas vezes diferentes civilizações começaram guerras por motivos que, a rigor, são os mesmos de outrora? Quantas vezes o ser humano gerou discriminação e, infelizmente, ainda o faz? O fato de registrar a história de tais eventos não garante que eles não acontecerão novamente, pois para tal é fundamental que sejamos educados a lembrar e aprender com tais erros das gerações que nos precederam.

Desse modo, ainda hoje é possível observarmos guerras, genocídios, crises humanitárias e colapsos sociais, elementos que mais representam uma vida repleta de barbárie do que uma civilização dita “avançada” como a nossa. Esses fatos revelam algo profundamente inquietante: o ser humano não esquece por incapacidade, mas muitas vezes por conveniência ou por falta de disposição para lidar com verdades desconfortáveis.

Ironicamente, se há um momento histórico em que a memória deveria ser mais fácil de ser cultivada é a nossa, afinal, vivemos em uma era marcada pela velocidade da informação e pela disponibilidade desta. Ser instruído no século XXI é tão simples quanto respirar, mas ainda insistimos em apostar na ignorância cotidiana. Essa é só mais uma prova de que nossa memória coletiva se apresenta cada vez mais curta, fragmentada e superficial, pois todos os acontecimentos que nos chocam são rapidamente ultrapassados, substituídos por notícias “novas” que nos fazem esquecer de algumas ações inaceitáveis.

image 2

Assim, tentando seguir esse fluxo contínuo de informações, acabamos perdidos e sem espaço para refletir sobre o que de fato estamos fazendo com a sociedade em que vivemos. Diante desse cenário, torna-se urgente refletir sobre a necessidade de resgatar e fortalecer a memória coletiva como um elemento central na construção de uma sociedade mais consciente. Isso implica não apenas lembrar dos fatos, mas compreendê-los em sua profundidade, reconhecer suas causas e consequências, e, acima de tudo, transformar essa lembrança em ação concreta. Sem isso, continuaremos presos a um ciclo de comoção e esquecimento, onde tragédias se repetem não por falta de conhecimento, mas por falta de memória ativa e comprometida

O impacto das tragédias e o esquecimento coletivo

Toda e qualquer notícia tem um impacto na psique humana, principalmente no que se refere às tragédias. Ficamos chocados com crimes, assustados com desastres naturais e rapidamente as manchetes prendem nossa atenção pois estão noticiando problemas que, mesmo distante de nossa realidade, nos fazem esmorecer emocionalmente. Não é à toa que todos já sentimos, por vezes, que ler o jornal se assemelha a abrir um caderno de atrocidades e que é quase impossível sairmos “aliviados” ao terminar de ler suas notícias.

Por mais que isso seja difícil de lidar, quando uma tragédia ocorre e ganha visibilidade global, a perspectiva geral é que ela cause comoção e reflexão no público. Sem dúvida esse é, talvez, o principal motivo de noticiar algo que, objetivamente, nos deixa mal, pois esse incômodo, esse choque, pode nos levar a um momento de tomada de consciência. Durante esse curto período, parece que a humanidade inteira está conectada por um sentimento comum, compartilhando indignação, tristeza e, muitas vezes, um desejo sincero de mudança. E isso é real, sentimos que de fato precisamos mudar e não aceitar tais crimes. O problema, porém, está na nossa falta de memória.

A dinâmica do mundo atual, principalmente no que se refere às pautas das redes sociais, contribui diretamente para esse fenômeno. A velocidade com que novas informações surgem cria um ambiente onde a atenção é constantemente deslocada, em que não nos permite parar e aprofundar sobre o que acontece no mundo pois, a todo momento, novas tragédias ocorrem. Um acontecimento que hoje ocupa todas as manchetes pode, em questão de dias ou até horas, ser substituído por outro tema igualmente urgente ou chocante. 

A mídia, portanto, desempenha um papel ambíguo nesse cenário. Por um lado, ela é fundamental para dar visibilidade a problemas que, de outra forma, permaneceriam invisíveis, entretanto, ao priorizar o que é novo e impactante, acaba contribuindo para a rápida substituição de narrativas. Tragédias que não apresentam “novidades” deixam de ser noticiadas com a mesma frequência, mesmo que continuem acontecendo com a mesma intensidade ou até pior.

Esse padrão revela uma característica preocupante da sociedade contemporânea: a tendência de tratar o sofrimento humano como um evento episódico, e não como uma realidade contínua. Ao focar apenas no momento mais dramático de uma crise, perde-se a compreensão de que muitas dessas situações são prolongadas, estruturais e exigem atenção constante. O resultado é uma percepção distorcida da realidade, onde o problema parece ter sido resolvido simplesmente porque deixou de ser notícia.

Alan Kurdi: o símbolo de uma dor que já esquecemos

Um exemplo de como isso ocorre é o caso de Alan Kurdi, a pequena criança que foi uma das vítimas da imigração em massa ocorrida em 2015 para a Europa. Kurdi tornou-se um dos símbolos mais marcantes da crise migratória no Mediterrâneo, pois o impacto de sua imagem inerte na praia é, ainda hoje, uma das cenas mais difíceis de digerir para qualquer pessoa. Naquele momento, pela primeira vez dentro do contexto da crise imigratória, muitas pessoas ao redor do mundo foram confrontadas com a dimensão humana daquele problema que, a rigor, não afetava grande parte da humanidade, mas tocou a todo ser humano.

image

A repercussão da imagem de Alan Kurdi foi imediata e avassaladora. Em questão de horas, jornais, redes sociais e canais de televisão de todos os continentes estavam exibindo aquela fotografia como um retrato incontestável do fracasso coletivo diante da crise humanitária. Líderes políticos foram pressionados, organizações internacionais intensificaram seus discursos e milhões de pessoas expressaram indignação e tristeza. Parecia, naquele momento, que algo finalmente iria mudar, que a força simbólica daquela imagem seria suficiente para provocar uma transformação real nas políticas migratórias e na forma como o mundo lidava com os refugiados.

Durante alguns dias, houve um aumento significativo no debate público sobre a crise dos refugiados. Países europeus anunciaram medidas emergenciais, prometeram acolhimento e discutiram novas estratégias de cooperação internacional. Organizações humanitárias receberam mais doações, e voluntários se mobilizaram para ajudar aqueles que chegavam às fronteiras em busca de segurança. Era como se a imagem de Alan tivesse conseguido, por um breve instante, romper a barreira da indiferença e despertar uma consciência coletiva mais sensível e engajada.

Contudo, essa mobilização, embora intensa, foi passageira. Com o passar das semanas, a atenção da mídia começou a se deslocar para outros acontecimentos, e o tema dos refugiados foi gradualmente perdendo espaço nas manchetes. As promessas feitas no calor da emoção foram sendo diluídas pela complexidade política e pela falta de consenso entre os países envolvidos. Enquanto isso, a realidade no terreno permanecia praticamente inalterada, com milhares de pessoas continuando a arriscar suas vidas em travessias perigosas.

O caso de Alan Kurdi, assim como tantos outros, revela, de forma clara, a fragilidade da memória coletiva contemporânea. Mesmo diante de uma imagem tão poderosa e de uma história tão comovente, o impacto não foi suficiente para sustentar mudanças estruturais duradouras. Isso não significa que a imagem tenha sido irrelevante, mas sim que seu potencial transformador foi limitado por um sistema que não consegue manter o foco e o compromisso ao longo do tempo. A emoção inicial não se traduziu em ação contínua.

Será que lembramos do que não deveria ser esquecido?

Assim como o caso do jovem Alan Kurdi, outros tantos podem ser usados como exemplos de como esquecemos facilmente momentos que deveriam ser lembrados para que jamais se repetissem. Outro exemplo marcante é o terremoto que atingiu o Haiti em 2010. A destruição foi massiva, com centenas de milhares de mortos e milhões de pessoas desabrigadas, também é uma imagem que assola o coração de qualquer pessoa. Imagens de prédios desmoronados, corpos sob escombros e famílias desesperadas circularam pelo mundo, mobilizando uma enorme rede de ajuda internacional. Naquele momento de crise, doações foram feitas em larga escala, governos prometeram apoio e organizações humanitárias se deslocaram para a região. Durante semanas, o Haiti foi o centro das atenções globais.

A história, porém, teve um desfecho parecido com a do jovem Alan Kurdi: à medida que o tempo passou, o interesse internacional diminuiu significativamente e hoje, quem lembra desse desastre que modificou toda a nação do Haiti? A reconstrução do país, que exigia anos de esforço contínuo, não recebeu a mesma atenção nem o mesmo nível de engajamento. Problemas estruturais persistiram, e muitas das promessas feitas não foram integralmente cumpridas. Hoje, mais de uma década depois, o Haiti ainda enfrenta dificuldades profundas, mas raramente ocupa espaço nas discussões globais com a mesma intensidade de antes.

Outro caso emblemático é o incêndio da boate Kiss, ocorrido no Brasil em 2013. A tragédia resultou na morte de centenas de jovens e gerou uma enorme comoção nacional. Durante meses, o tema foi amplamente debatido, levantando questões sobre segurança, fiscalização e responsabilidade de modo a esperar não apenas a punição dos responsáveis, mas uma mudança na forma de atuação de tais locais. Mais uma vez, porém, nossa falta de memória imperou e com o passar do tempo, o assunto foi perdendo visibilidade, e as discussões sobre mudanças estruturais se tornaram menos frequentes, apesar da relevância contínua do problema.

Esses exemplos demonstram que o problema não está na falta de informação ou na incapacidade de se emocionar, pois todos nós ficamos tocados com todos esses casos. Há uma empatia profunda por todos esses acontecimentos e isso mostra como o nosso valor humanitário é um elemento indelével em nossa natureza, mas só isso não basta pois as emoções são passageiras e a memória, em tese, deveria ser duradoura…

image 3

Frente a isso, tal dinâmica reforça a necessidade de repensar nossa relação com a memória. Não basta reagir; é preciso lembrar. Não basta lembrar; é preciso agir com base nessa lembrança. Sem esse compromisso, continuaremos presos a um ciclo de comoção efêmera, onde cada nova tragédia é recebida com surpresa, como se não fosse parte de um padrão já conhecido.

Qual o nosso papel perante os sofrimentos do mundo?

O que fazer diante desse cenário? Será que não podemos aprender a lidar com tais acontecimentos e ter uma postura ativa diante de tantos problemas que, em sua maioria, são problemas próprios do ser humano? A grande filósofa russa do século XIX, Helena Petrovna Blavatsky, que foi uma das principais responsáveis pela difusão da filosofia oriental no ocidente, em sua obra “A Voz do Silêncio”, resgata um antigo ensinamento tibetano que talvez nos ajude a compreender melhor a necessidade de mantermos nossa sensibilidade como seres humanos diante de tais desafios:

Que a tua Alma dê ouvidos a todo o grito de dor como a flor de lótus abre o seu seio para beber o sol matutino. Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre. Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.

Apenas este simples ensinamento, que não é somente tibetano, mas sim universal e profundamente ligado a natureza humana, seria o suficiente para resolvermos de vez este triste problema humano. Entretanto, não adianta simplesmente fazer reclamações e textos nas redes sociais, ou cobrar os governantes e as autoridades. Precisamos, cada um de nós, trazer esta bela teoria para a experiência diária de nossas vidas e, assim, honrar a verdade com a prática. Significa, objetivamente, sermos capazes de aprender com cada uma dessas tragédias humanas e refletir sobre nossa própria conduta, afinal, os desastres que ocorrem no mundo são, em maior ou menor grau, reflexo de uma atitude humana perante a existência.

Visto isso, é nítido que a memória coletiva não é apenas um recurso passivo da sociedade, mas um elemento ativo e indispensável para a construção de um mundo mais consciente, justo e demasiadamente humano. Deixemos mais uma vez claro que memória não é lembrar somente, mas assumir um compromisso contínuo com aquilo que aprendemos com a experiência que foi vivida. Se assim não o fazemos, cada tragédia esquecida abre espaço para que novos problemas aconteçam sob o silêncio da indiferença e nós, como simples espectadores de um circo de horrores, ficamos chocados e comovidos, mas somente até o próximo evento.

O fato de vivermos em uma realidade marcada pela velocidade, onde acontecimentos se sucedem em um ritmo intenso, não pode ser uma desculpa para isentar nossa capacidade de discernir e aprender com tudo que nos ocorre ao redor. Mesmo que a todo momento tenhamos novos cenários com os quais nos deparamos, é fundamental que sejamos capazes de observar os ensinamentos em cada um desses fatos. Para tanto, é fundamental termos atenção e consciência para manter vivas as histórias que não podem ser apagadas. O desafio, portanto, não está na falta de informação, mas na capacidade de sustentar o significado dessa informação ao longo do tempo.

Dito isso, a responsabilidade pela manutenção da memória coletiva não pertence apenas a governos, instituições ou meios de comunicação. Ela é, antes de tudo, uma responsabilidade individual que se reflete na sociedade. Cada pessoa, ao escolher não esquecer, ao se informar, ao refletir e ao agir, contribui para a construção de uma sociedade que não aceita a repetição da dor como algo inevitável. Essa responsabilidade pode parecer pequena diante da magnitude dos problemas, mas é justamente na soma dessas pequenas atitudes que reside a possibilidade de mudança.

É preciso também reconhecer que lembrar é desconfortável. O que devemos não é nos tornarmos mórbidos ao ponto de não esquecer os fatos objetivos, mas de guardar todos os ensinamentos e na nossa prática diária ser capaz de colocá-los em ação. Quando lembrarmos do caso de Alan Kurdi, por exemplo, não precisamos retornar na terrível fotografia do seu corpo na praia, mas entender que quando segregamos e fechamos as portas para outras pessoas (sejam elas portas físicas ou psicológicas) a consequência pode ser um desastre.

Nesse aspecto, é fundamental entendermos que a memória nos confronta com falhas, com injustiças e com realidades que muitas vezes preferimos ignorar. No entanto, é exatamente esse desconforto que a torna tão necessária. Ele nos impede de nos acomodarmos, nos provoca a questionar e nos impulsiona a buscar alternativas. Uma sociedade que evita esse desconforto corre o risco de se tornar complacente, aceitando como normal aquilo que deveria ser combatido.

image 4

Ao final, a grande reflexão que permanece é simples, mas profunda: que tipo de sociedade queremos construir? Uma sociedade que se emociona e esquece, ou uma sociedade que lembra e transforma? Lembrar é, portanto, um ato de humanidade. É reconhecer que cada vida importa, que cada história tem valor e que cada tragédia carrega em si uma lição que não pode ser ignorada. Se quisermos, de fato, construir um futuro diferente, precisamos começar por aquilo que muitas vezes negligenciamos: a decisão consciente de não esquecer.

0 0 Votos
Avaliação do artigo pelos leitores
Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais Antigos
Mais recentes Mais votados
Feedbacks em linha
Ver todos os comentários

Compartilhe com quem você quer o bem

MENU

Siga nossas redes sociais

Ouças nossa playlist enquanto navega pelo site.

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência, de acordo com a nossa Política de privacidade . Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies.