O Mito de Eros e Psiquê: Lições de Amor e Superação

O amor é uma das forças do universo, capaz de atrair e unir a todos. Todas as tradições da humanidade designaram a esse belo sentimento deuses e seres que representam essa força. Na Grécia Antiga, por exemplo, encontramos Afrodite e Eros, duas faces do amor. No período romano, esses nomes passaram a ser Vênus e Cupido, que com suas flechas enamoram os seres humanos. Mas o que isso significa? Será que o amor é apenas um sentimento abstrato e que foi representado de forma avulsa? Ou será que ele tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nossa finalidade aqui no mundo?

Essas respostas podem ser encontradas no mito de Eros e Psiquê, uma história de amor que vai muito além de um casal apaixonado e nos fala, a bem da verdade, sobre a jornada da alma humana em busca de sua realização. Vamos mergulhar nos símbolos desse mito e entender como a trajetória de Psiquê em busca do seu amado é, no fundo, a busca humana por encontrar o seu lado divino.

Conhecendo o mito

Dito isso, devemos retornar para um tempo imemorial – tão antigo que os deuses ainda caminhavam invisíveis entre os homens, e os templos eram mais frequentados que os mercados – período em que nasceu uma princesa cuja beleza parecia ter sido moldada pelas próprias mãos do destino. Psiquê não era apenas bela, havia nela uma luminosidade difícil de descrever, algo que transcendia os contornos físicos e tocava quem a observasse com uma espécie de reverência. Sua presença despertava admiração, mas também inquietação no coração dos homens. Não era apenas a beleza do corpo que chamava atenção, mas também um brilho que parecia anunciar algo maior, como se sua alma estivesse destinada a atravessar fronteiras invisíveis.

Eros Anthony Van Dyck 1
Quadro de: Anthony Van Dyck

À medida que crescia, multidões vinham contemplá-la. Os homens esqueciam seus afazeres e os próprios sacerdotes, responsáveis por honrar os deuses, deixavam suas obrigações de lado apenas para contemplar Psiquê. A dama tornara-se, involuntariamente, objeto de veneração. Afrodite, deusa do amor e da beleza, não suportou tal afronta, visto que comparavam uma mortal com sua forma divina. Não era apenas ciúme que movia a deusa, mas sim a ameaça de perder o lugar que ocupava no coração humano. A beleza de Psiquê, por ser humana, parecia desafiar o próprio Olimpo. 

Diante disso, Afrodite recorre a seu filho Eros, o deus que governa os impulsos mais profundos do coração. Ela ordena-lhe que lance uma flecha em Psiquê, fazendo-a se apaixonar por um monstro terrível, para que a jovem tenha um destino terrível e passe a ser esquecida. Contudo, o que ocorre é que o próprio Eros, ao se aproximar da princesa para cumprir a ordem materna, se fere com a própria flecha e acaba se apaixonando por Psiquê. O deus do amor torna-se vítima de seu próprio poder.

Diante do dilema, visto que não poderia abandonar Psiquê e nem desobedecer às ordens de Afrodite, Eros pensa em um plano. Assim,o deus do amor leva Psiquê para um palácio invisível aos olhos do mundo. Ali ela vive cercada de riquezas, de conforto e de carinho, mas com uma condição: Psiquê jamais poderá ver o rosto de seu marido. Ele a visita apenas à noite, no silêncio que envolve os mistérios e dormem juntos, mas sem nunca se verem. 

Psiquê aceita esse acordo e vive muito bem no palácio, com um marido que não conhece, mas desfruta de uma vida extraordinária. Porém, mesmo em boas condições, a natureza humana é marcada pela busca do conhecimento, e isso se reflete, de forma objetiva, em uma curiosidade voraz. As irmãs de Psiquê, ao questionarem sobre Eros, colocam uma semente de dúvida no coração e mente da princesa, afinal, ela poderia estar junto de um monstro terrível, que poderia devorá-la enquanto dormia. Que outro motivo teria para esconder o seu rosto se não isso? A insegurança cresce e a curiosidade transforma-se em inquietação. E numa noite, enquanto Eros dorme, Psiquê aproxima-se com uma lâmpada acesa e uma lâmina escondida.

Quando a luz revela o rosto do deus, ela não encontra monstruosidade, mas uma beleza ainda maior que a sua própria. Nesse instante, o espanto paralisa sua mão, a lâmpada treme e uma gota de óleo quente cai sobre o ombro de Eros, despertando-o. O deus nota que sua amada quebrou o pacto e a dor pela desonra do compromisso o faz fugir. O amor divino retira-se quando a alma tenta possuí-lo apenas pela curiosidade, quando busca controlar o mistério com a lâmina da desconfiança.

A jornada da alma para reconquistar seu lugar no amor divino

Aqui começa verdadeiramente a jornada de Psiquê. Antes, ela era contemplada; agora, torna-se buscadora. Antes, vivia no palácio invisível; agora, caminha sozinha. O amor que antes lhe era dado gratuitamente precisa ser reconquistado através da transformação interior. Psiquê, que não consegue mais viver sem Eros, vagueia à sua procura, mas sem sucesso. Até que, ao encontrar Afrodite, pede que a deusa a ajude a encontrá-lo novamente. Afrodite impõe a condição de que Psiquê deveria passar vitoriosa sobre quatro duras provas para ter o mérito de sua ajuda. Só assim provaria o seu valor e poderia retomar seu posto.

Eros Jean Francois Lagrenee
Quadro de: Jean François Lagrenee

A primeira prova consiste em separar, antes do anoitecer, um imenso monte de grãos misturados: trigo, cevada, milho, lentilhas e feijões. À primeira vista, trata-se de uma tarefa simples, quase banal e comum para qualquer ser humano. Contudo, o volume é esmagador, de modo que seria impossível fazer isso em tempo hábil. Psiquê olha para o amontoado e percebe que é humanamente impossível concluir a tempo. Senta-se e chora, tendo em vista sua limitação diante da tarefa.

Porém, em meio ao desespero, algo lhe vem à mente. Pequenas formigas surgem e começam, silenciosamente, a separar os grãos. Assim, com ajuda dessas pequenas ajudantes, Psiquê consegue completar a primeira prova. Como sabemos, o mito é simbólico e o que podemos aprender nessa primeira prova nada mais é do que a virtude do discernimento. Separar os grãos é aprender a distinguir o essencial do supérfluo, o verdadeiro do ilusório, o que alimenta daquilo que apenas ocupa espaço. Assim, o primeiro passo para a nossa alma, representada por Psiquê, é entender a diferença entre o espiritual do material, daquilo que a aproxima do divino e o que a afasta.

Se a primeira prova exigiu discernimento, a segunda exigiria algo ainda mais delicado: Afrodite ordena que Psiquê recolha a lã dourada de carneiros selvagens que pastavam às margens de um rio. Não eram animais comuns, seus chifres eram afiados como lanças, seus olhos brilhavam com agressividade, e qualquer um que se aproximasse durante o dia seria atacado. Psiquê então se  dirige ao local indicado e, ao contemplar a violência dos animais, sente novamente o peso da impossibilidade. A tarefa não é apenas difícil ou impossível, mas pode lhe custar a vida.

A força bruta daqueles carneiros simboliza as paixões indomadas, os impulsos descontrolados que habitam o interior humano e que tomam conta de nossa personalidade em diversas ocasiões. Tentar arrancar-lhes a lã à força seria como tentar dominar o orgulho, a ira ou o desejo apenas pela repressão, algo que comumente fazemos, mas que percebemos que o resultado é apenas o conflito interno que pode desestruturar nosso mundo interno. À beira do desespero, Psiquê é aconselhada por uma voz suave que a avisa a esperar até o cair da tarde.

Quando o sol arde intensamente, os carneiros tornam-se agressivos, mas ao entardecer, exaustos pelo calor, recolhem-se à sombra e deixam presos nos galhos os fios dourados de sua lã. Bastaria recolher o que foi naturalmente deixado para trás. E assim ela faz. Não enfrenta os animais, não tenta vencê-los pela força. Aprende a observar o ritmo da vida, a compreender o momento certo de agir. Aqui está mais uma lição para nossa alma, pois na natureza há um momento próprio para cada coisa, na qual se mantém a harmonia e podemos fluir na vida quando entendemos o “timing” da existência. Assim, as forças selvagens que nos habitam não devem ser combatidas frontalmente, mas compreendidas e canalizadas, sendo expressas da forma correta. 

A terceira prova conduz Psiquê a um território ainda mais sombrio. Afrodite exige que ela recolha água da nascente do Rio Estige, o rio que marca a fronteira do mundo dos vivos e dos mortos. A fonte brota de um penhasco íngreme, guardado por criaturas aterradoras. A água, além de sagrada, é perigosa, pois representa o contato direto com as profundezas da existência e a morte, sendo que aquele que tocar em tal líquido será arrastado para fora da vida.

Psiquê não se intimida com a prova, sobe até o alto da montanha e contempla o abismo. A queda seria fatal, mas ela continua seguindo o seu caminho. O temor das águas, porém, ecoa como um aviso e pela terceira vez, ela experimenta a sensação de insignificância diante da tarefa. Contudo, é precisamente nesse ponto que algo novo mais uma vez acontece. Uma águia desce dos céus e toma o frasco das mãos da jovem. Com precisão e coragem, voa até a nascente, recolhe a água e retorna ilesa, devolvendo-o a Psiquê.

Alguns podem questionar que a princesa, em todas as provas é ajudada; porém, esse auxílio não é arbitrário, ou fruto de um menosprezo pelo feminino. Na verdade, esse é um símbolo para mostrar que a nossa alma, a todo tempo, está sendo guiada pelo divino, basta ter olhos para ver. A águia, por exemplo, é um símbolo solar por excelência e, não por acaso, é o animal que representa Zeus, o deus dos deuses. Além disso, essa ave simboliza a capacidade de elevar a consciência acima do medo.

Desse modo, a alma humana, quando confrontada com seus abismos, não pode permanecer apenas na perspectiva limitada do medo. Precisa desenvolver uma visão mais alta, mais ampla. É essa visão que permite tocar as águas profundas sem ser consumida por elas. Recolher a água do Estige significa encarar a própria mortalidade, reconhecer a fragilidade da vida, compreender que toda jornada humana é finita. E, paradoxalmente, é essa consciência que dá valor à existência. 

Eros John William Waterhouse
Psyché adentra timidamente ao jardim do palácio de Eros, por John William Waterhouse

Psique, então, chega até a última tarefa, a mais desafiadora de todas. Afrodite ordena que Psiquê desça ao Hades e peça a Perséfone uma caixa contendo um pouco de sua beleza. Essa é uma passagem importante no mito, pois a descida ao mundo dos mortos representa, dentro da chave simbólica, um momento de transformação, de sublimação dos aspectos terrenos para alcançar o aspecto espiritual. É o momento em que a alma precisa atravessar a experiência da morte simbólica para renascer em outro nível de consciência.

Psiquê recebe orientações sobre como atravessar o submundo sem se perder. Para tanto, deve levar moedas para pagar o barqueiro, pão para distrair o cão guardião e, sobretudo, não deve abrir a caixa sob nenhuma circunstância. O caminho é árduo, silencioso e envolto em sombras. Diferente das provas anteriores, aqui não há ajuda visível da natureza ou dos céus. A jornada é solitária e Psiquê deve enfrentá-la sozinha, com honra e coragem.

Descer ao Hades é enfrentar o próprio inconsciente. É olhar para aquilo que foi reprimido, para as dores não resolvidas, para as culpas e arrependimentos. Cada passo é um confronto com a própria vulnerabilidade. Psiquê, porém, mantém-se firme. Chega diante de Perséfone, recebe a caixa e inicia o retorno. Mas no caminho de volta, uma dúvida semelhante àquela que a fizera iluminar o rosto de Eros volta a surgir. E se a beleza contida na caixa pudesse torná-la ainda mais digna do amado? E se pudesse reconquistar o amor mais rapidamente? Movida por essa inquietação, abre o recipiente.

Em vez de beleza, Psiquê se depara com um sono profundo, que escapa da caixa e a envolve. Ela cai inerte. Esse momento simboliza uma queda de Psiquê, que ao tentar encontrar um atalho para retornar a Eros, encontra-se com mais um desafio. A alma, quando tenta apressar sua transformação, quando deseja se apropriar daquilo que só o tempo pode conceder, experimenta novamente a queda.

Porém, é no momento mais drástico que Eros retorna. É nesse momento de total escuridão que Eros retorna. Ele encontra Psiquê adormecida e, com um gesto suave, recolhe o sono mortal de volta à caixa. Desperta-a com o toque do amor verdadeiro. Mesmo após erros e recaídas, o amor espiritual permanece como possibilidade de redenção. Eros leva Psiquê ao Olimpo, e Zeus concede à jovem a imortalidade. A união entre amor divino e alma humana torna-se eterna. Eis o mito de Eros e Psiquê. O que podemos aprender com tudo isso?

A Jornada de Psiquê é a de todos nós

Cada etapa da história ecoa dentro de nós. Todos nascemos com uma centelha de beleza interior, mas essa centelha precisa ser provada. Todos experimentamos o amor, mas também a perda. Todos enfrentamos tarefas que parecem impossíveis. Todos precisamos separar os grãos de nossas experiências, domar as forças selvagens, olhar o abismo e descer ao nosso Hades interior. A jornada de Psiquê, portanto, é a jornada da alma que deseja retornar à sua verdadeira origem.

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A alma humana anseia pelo reencontro com o divino – e nós sabemos disso. Ao longo da vida experimentamos diversas sensações, mas há algumas que são tão sublimes que nos fazem sentir eternos. O amor por uma pessoa, a bondade expressa genuinamente, o companheirismo em frente às adversidades, tudo isso revela um aspecto divino dentro de nós que, por vezes, pode ser soterrado devido aos traumas que sofremos durante nossa jornada. Por isso, esse retorno não ocorre “por acaso”, mas exige de nós uma verdadeira transformação e eleição. Cada desafio da vida pode ser visto como uma prova, um verdadeiro convite ao amadurecimento. 

Nesse aspecto, viver o mito de Psiquê é reconhecer que o Olimpo não é um lugar distante nos céus, mas um estado de consciência que pode ser alcançado por cada um de nós e é onde nossa alma verdadeiramente humana pode repousar. O retorno à origem divina não significa escapar do mundo, abandoná-lo e tentar encontrar sentido no isolamento, mas atravessá-lo com coragem e sabedoria, pois precisamos estar no mundo objetivo e, ao mesmo tempo, encontrar esse local de paz interior. 

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Precisamos desenvolver Discernimento, como a prova de Psiquê de separar os grãos; Paciência, tal qual a prova da lã dos carneiros selvagens; Coragem e Bravura para adentrar no mais profundo de nós mesmos, o nosso Hades, e assim, sairmos de lá limpos, aptos para enxergar e compreender melhor o mundo e o Divino. Aí sim Eros se reaproxima, aí sim alcançaremos a condição de viver junto aos Deuses, alcançaremos nossa Alma Humana e nos tornaremos Imortais.

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[…] Gregos traduziram essa reflexão em um Mito de um casal que se apaixona: Eros e Psiquê. Eles se casam, porém Eros, que era um Deus muito Belo, não queria que Psiquê visse o seu rosto, […]

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