Martin Scorsese, um dos maiores cineastas da história do cinema, é fã de cinema brasileiro. Para ele, poucas pessoas fazem filmes tão bons quanto nós e a nossa indústria, na sua opinião, está recheada de grandes clássicos. Quando nos deparamos com esse tipo de declaração ficamos surpresos, pois, em geral, o senso comum vive nos falando que as produções nacionais não são boas, que a qualidade dos nossos longa-metragens é duvidosa e que, a rigor, entre um filme nacional e um internacional, vale mais a pena arriscar-se no estrangeiro.
É muito comum escutar tais frases, mas será que nossas produções cinematográficas são ruins? Ou será que há outros motivos que nos fazem subvalorizar aquilo que produzimos em nosso território? É interessante refletir que estamos falando de cinema, porém, se ampliarmos um pouco nosso escopo e colocarmos nessa análise as telenovelas brasileiras, estas são um fenômeno mundial, muitas vezes também reconhecidas como as melhores do mundo.
Visto isso, será que não devemos refletir sobre o nosso cinema nacional? É isso que faremos neste texto!
O Inicio
Em 1898, a primeira filmagem cinematográfica foi feita no Brasil pelo ítalo-brasileiro Affonso Segretto, inaugurando assim a história do Cinema Nacional. História esta que pode ser dividida em épocas muito distintas: de influências hollywoodianas, do cinema sonoro, das chanchadas, do cinema novo, da crise e de uma atual retomada. Todas estas fases foram moldando as produções nacionais e a nossa relação com o cinema, no decorrer de mais de um século da sétima arte no país.
Os irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto podem ser considerados os primeiros cineastas do país, pois foram eles que realizaram as primeiras gravações da Baía de Guanabara em 19 de junho de 1898. O curta-metragem “Os Estranguladores” (1908), de Francisco Marzullo e Antônio Leal, é considerado a primeira película de ficção do Brasil, exibida em 5 de junho de 1908. Já o primeiro longa-metragem foi “O Crime dos Banhados” (1914), dirigido por Francisco Santos.
A primeira dificuldade encontrada na implementação do cinema no país foi a falta de eletricidade. No início, a maior parte dos filmes exibidos era importada de outros países – principalmente da Europa. Aos poucos, foram se vencendo os entraves iniciais e as primeiras produções nacionais começaram a ser produzidas.
Os filmes conhecidos como “posados” (filmes de ficção) eram realizados pelos proprietários das salas de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo, e muitas das histórias eram inspiradas em crimes reais, mas havia algumas comédias. Os chamados filmes “cantados”, nos quais os atores dublavam a si mesmos por trás da tela, também fizeram sucesso nesse período. Outra fórmula bem-sucedida junto ao público eram as adaptações para o cinema de obras literárias como “O Guarani” e “Iracema”, baseadas nas obras de José de Alencar, entre outros.

Ainda hoje, algumas pessoas comemoram o Dia do Cinema Nacional no dia 5 de novembro, devido a filmagem da primeira obra de ficção nacional, em 1908, de 40 min, “Os Estranguladores”, apesar de oficialmente a ANCINE, Agência Nacional do Cinema, declarar o dia 19 de junho como mais apropriado para esta homenagem. De certo, o que podemos afirmar, segundo a Agência, é que o cinema nacional tem crescido a cada ano.
Além de um fenômeno natural, o gosto pelo cinema tem se expandido graças às produções que avançam e, a cada ano, são produzidas em maior escala. De acordo com a própria ANCINE, em 2017, por exemplo, o público de filmes nacionais ultrapassou 17 milhões de espectadores, gerando uma renda de 240 milhões de reais. Entre os 463 longas-metragens lançados no país, 160 eram brasileiros.
Tais números nos fornecem muito mais do que a bilheteria das salas de cinema do país: nos revelam uma indústria lucrativa e capaz de transmitir aos brasileiros um pouco das inúmeras facetas que o nosso país possui. Devido à sua dimensão continental e aos diferentes tipos de cultura que aqui cultivamos, o Brasil é uma fonte inesgotável de histórias e narrativas que são dignas de serem vistas pelo público.

Seguindo nossa perspectiva histórica, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o cinema brasileiro, ainda em seus primórdios, sofreu com uma grande diminuição da produção europeia, e as salas de exibição passaram então a ser dominadas pelos filmes hollywoodianos (que entravam no país isentos de taxas alfandegárias), o que, sem dúvida, enfraqueceu o ainda imaturo cinema produzido nacionalmente. Fomos tomados por histórias de super-heróis e os famosos filmes de “bang bang”, retratando a cultura do Velho Oeste americano.
A partir dessa influência dos Estados Unidos em nosso cinema, criou-se a ideia de que as produções americanas, com mais recursos e capacidade de distribuição no Brasil, eram muito melhores que nosso cinema nacional. Infelizmente, para muitos, essa ideia, iniciada há mais de cem anos, ainda perdura no imaginário de nossa população.

Ciclos Regionais
Fora do eixo Rio-São Paulo, o cinema brasileiro produziu filmes de pequena duração que ficaram conhecidos como Ciclos Regionais. Em Pelotas, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Campinas, João Pessoa, Manaus e Curitiba, todos estavam imbuídos deste entusiasmo inicial, mas ainda com realizações precárias e respondendo da forma possível às dificuldades de um mercado dominado pelo produto estrangeiro.
Devemos lembrar que o cinema, nesse período, era uma novidade e nem todos se interessavam por essa forma de arte. Assim, fora das capitais mais prósperas do país, esses pequenos grupos estavam praticamente isolados e sem recursos, mas foram pioneiros em abrir espaço para outras regiões serem capazes de filmar e contar suas próprias histórias. Graças a esses primeiros cineastas, atrizes e atores, a cultura regional – muitas vezes esmagada pela massificação de comportamentos – sobreviveu e está eternizada nas telas.

Influência Hollywoodiana e o Cinema Sonoro
Na década de 1930, foi criado o primeiro grande estúdio do Brasil: a Cinédia, ainda sob muita influência do cinema hollywoodiano. Os filmes brasileiros mais relevantes desse período foram: “Limite” (1931), de Mário Peixoto; “A Voz do Carnaval” (1933), de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, e “Ganga Bruta” (1933), de Humberto Mauro. Foi também nessa época que se propagou no país o cinema sonoro, cujo filme nacional pioneiro foi a comédia “Acabaram-se os Otários” (1929), de Luiz de Barros. Eram um grande sucesso as histórias românticas, musicais, com grandes cenários e estrelas, como Carmen Miranda. Exemplos disso são os filmes “Alô, Alô, Brasil” (1935), “Alô, Alô, Carnaval” (1936), “Bonequinha de Seda” (1936) e “Pureza” (1940).

Chanchadas

Na década de 1940 surgem os gêneros das chanchadas, filmes cômico-musicais de baixo orçamento, que despontaram com a companhia de cinema Atlântida Cinematográfica. Os principais destaques foram Oscarito, Grande Otelo e Anselmo Duarte, que protagonizaram películas como: “Moleque Tião” (1941), “Tristezas Não Pagam Dívidas” (1944) e “Carnaval no Fogo” (1949).
Aos poucos, as histórias foram abandonando a temática do carnaval e explorando a comédia de costumes, a partir dos tipos folclóricos do Rio de Janeiro. O público gostava bastante, mas os críticos de cinema diziam que as chanchadas não eram cinema de arte. Aos poucos, as películas foram se esgotando e no final dos anos 1950, quando o público parecia cansar da fórmula, as maiores estrelas passaram a ser chamadas para trabalhar na televisão.
Podemos refletir um pouco sobre essa transformação. À medida que ganhamos protagonismo em nosso cinema, tentando desvencilhar-se um pouco da influência americana, começamos a fugir dos estereótipos que ainda hoje marcam o nosso país e passamos a filmar o que de fato é o Brasil. Desde a rotina familiar até o mundo do trabalho, vivemos experiências únicas, e não poderíamos limitar a imagem do Brasil apenas ao carnaval e ao futebol. O cinema, portanto, cumpre aqui uma função que vai além de filmar pessoas e histórias, mas de relembrar ao mundo – e a nós mesmos – que o Brasil vai muito além das suas expressões estereotipadas.
Primeiro Prêmio Internacional
Em 1949 foi criado o estúdio Vera Cruz, baseado nos moldes do cinema americano, em que os produtores buscavam realizar produções mais sofisticadas. Mazzaropi foi o artista de maior sucesso do estúdio. Nessa época, também tem destaque o filme “O Cangaceiro” (1953), o primeiro filme brasileiro a ganhar o festival de Cannes.

Cinema Novo

O estúdio Vera Cruz, em pouco tempo de fundação, declara falência, mas de alguma forma, já inaugura o que estava por vir com o Cinema Novo. Uma fase do cinema nacional que se consolida na década de 1960, focando nas temáticas de cunho social e político. Do cinema novo, destacam-se as produções do cineasta baiano Glauber Rocha: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968).
Em todos os filmes, é mostrado um Brasil até então desconhecido, com muitos conflitos políticos e sociais. Um dos seus cineastas de destaque, Glauber Rocha, dizia que os instrumentos do Cinema Novo eram “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, e que tinha também um objetivo: a construção de uma “estética da fome”.
Glauber Rocha vai se tornar, a partir do Cinema Novo, o grande cineasta brasileiro e que até hoje ocupa esse lugar. Não por acaso, o Martin Scorsese, aquele que citamos no começo do texto, é um grande fã do trabalho do cineasta brasileiro graças a essa capacidade de passar a verdade de maneira tão bela e, ao mesmo tempo, real. Além de revolucionar o cinema nacional, Glauber Rocha lançou seus filmes em um dos períodos de maior instabilidade política do Brasil no século XX: a ditadura militar.
O retrato da fome e da miséria filmado por Glauber Rocha, junto de suas ideias revolucionárias, não eram bem vistos naquele momento e, por várias vezes, foram censurados; mas ainda assim o cinema prevaleceu, e hoje a obra desse grande cineasta pode ser vista por todos nós.
Embrafilme
Fundada em pleno contexto da ditadura militar, em 1969, a Embrafilme, Empresa Brasileira de Filmes, apesar de ser uma importante ferramenta de controle estatal, também foi um grande incentivo às produções nacionais, que ainda sofriam por conta da concorrência com o cinema hollywoodiano.
O Estado, então, financiava as produções cinematográficas, estimulando a exibição de longas nacionais nas salas de cinema de todo o país, o que culminou em alguns sucessos de bilheteria, incluindo “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, que bateu recorde de público (10,7 milhões de espectadores). As comédias dos Trapalhões também atraíram milhares de pessoas aos cinemas, naquela época.

A Crise
Com a chegada do videocassete nos anos 1980 e do fim da ditadura, e com o despontar de uma crise econômica e o esgotamento dos estilos de filme produzidos, o cinema nacional passa a sofrer um grande declínio.
Ainda assim, nessa década, merecem destaque “O Homem que Virou Suco” (1980), de João Batista de Andrade; “Jango” (1984), de Silvio Tendler; “Cabra marcado Para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho; e “Pixote, A Lei do Mais Fraco” (1980), de Hector Babenco.
Com a chegada de um novo governo, o cenário se agrava, pois o Ministério da Cultura, a Embrafilme, o Concine e a Fundação do Cinema Brasileiro são extintos, desestimulando mais ainda a produção nacional.
A Retomada
O período entre 1992 e 2003 é conhecido como a fase da Retomada, principalmente por conta da criação da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, responsável pela regulamentação do que viria a se tornar a conhecida Lei do Audiovisual. Isso possibilitou a produção de centenas de filmes nacionais como o longa “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1994), de Carla Camurati, o primeiro realizado por meio desse recurso.
Grandes filmes desse período são “O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto; “O Que é Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto; e “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, todos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, sendo que o último também levou uma indicação na categoria de melhor atriz, para Fernanda Montenegro. Fatos que demonstram não só um incentivo à produção nacional, mas também uma maior identidade cultural brasileira na sétima arte.
Nesta época também, a Globo Filmes expandiu suas produções da televisão para o cinema, conquistando bilheterias milionárias, principalmente com suas comédias. O longa “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles, marcou o final da retomada do cinema brasileiro, sendo indicado a vários prêmios nacionais e internacionais. Esse sucesso de crítica e de público deu um novo fôlego ao cinema contemporâneo brasileiro que não para de crescer.

Segue abaixo duas listas para mergulharmos ainda mais no cinema brasileiro.
As maiores bilheterias brasileiras:
Anos 1970:
- Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto
- A Dama do Lotação (1978), de Neville de Almeida
- O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), de J.B. Tanko
- Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco
- Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978), de Adriano Stuart
Anos 1980:
- Os Saltimbancos Trapalhões (1981), de J. B. Tanko
- Os Trapalhões na Serra Pelada (1982), de J. B. Tanko
Anos 1990:
- Lua de Cristal (1990), de Tizuka Yamasaki
Anos 2000:
- Se Eu Fosse Você 2 (2009), de Daniel Filho
- Dois Filhos de Francisco (2005), de Breno Silveira
- Carandiru (2003), de Hector Babenco
Anos 2010:
- Os Dez Mandamentos – O Filme (2016), de A. Avancini
- Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010), de José Padilha
- Minha Mãe é Uma Peça 2 (2016), de César Rodrigues
- De Pernas pro Ar 2 (2012), de Roberto Santucci
- Nosso Lar (2010), de Wagner de Assis
Obs.: Todos esses filmes tiveram mais de 4 milhões de espectadores.
20 Filmes Imperdíveis da História do Cinema Brasileiro
(de acordo com a professora da Agência Internacional de Cinema Lucilene Pizoquero)
- Barro Humano (1929), de Adhemar Gonzaga
- Sangue Mineiro (1929), de Humberto Mauro
- Limite (1931), de Mário Peixoto
- Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro
- Carnaval Atlântida (1953), de José Carlos Burle e Carlos Manga
- Sinhá Moça (1953), de Tom Payne e Oswaldo Sampaio
- O Cangaceiro (1954), de Lima Barreto
- O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
- São Paulo, Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sérgio Person
- Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha
- O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
- Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Júlio Bressane
- O Homem que Virou Suco (1981), de João Batista de Andrade
- Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho
- Central do Brasil (1998), de Walter Salles
- Notícias de uma Guerra Particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund
- O Invasor (2002), de Beto Brant
- Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles
- Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho
É interessante percebermos que o cinema é uma Arte, a sétima arte, e como tal pode nos levar a uma conexão sensível conosco mesmo e com o mundo ao nosso redor. Neste caso, para além de entretenimento e diversão, conhecer o cinema nacional é entender, de algum forma, os motores que nos fazem ser o país que somos hoje.
Essas obras nos ajudam a conhecer melhor a nós mesmos, nos ajudam, inclusive, a conhecer realidades muito diferentes da nossa, mas que muitos brasileiros vivem cotidianamente. Toda vez que assistirmos uma das grandes obras do cinema brasileiro, que possamos refletir sobre toda essa história e, que possamos desenvolver sentimentos de Fraternidade por nossos compatriotas, e de Amor pela terra onde colocamos nossos pés.
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