O cinema é capaz de produzir beleza a partir de histórias sensíveis e marcantes. De fato, há um universo de filmes que não se apoiam em cenas de ação intensa, que fazem o espectador grudar na cadeira de modo a entreter do começo ao fim, mas são capazes de tocar em nossa alma e nos fazer refletir sobre a vida e como estamos vivendo essa existência. “Sonhos de Trem”, disponível na Netflix e concorrente ao Oscar de melhor fotografia, melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor canção, é exatamente esse tipo de obra.

O longa não tem interesse em impressionar pelo excesso, nem pelo drama elevado ou por reviravoltas abruptas. Pelo contrário, ele se constrói no silêncio, nos pequenos diálogos em volta de uma fogueira, nas paisagens de um mundo humano conectado com a natureza, mas em plena transformação. É um filme que observa o tempo passar e, ao fazer isso, convida o espectador a olhar para a própria vida com mais atenção, mais delicadeza e, talvez, mais honestidade.
Frente a isso, o que fica claro em “Sonhos de Trem” é que se trata de um filme sensível, que retrata como o tempo exige mudanças e permanências, rupturas com o passado, mas também a preservação de um tipo de memória e tradição que é difícil de conciliar. Essas duas forças coexistem de maneira paradoxal na experiência humana e são retratadas a todo momento no filme.
O homem comum diante de um mundo que não para
Dito isso, sobre o que realmente trata o filme? De maneira objetiva, podemos dizer que “Sonhos de Trem” acompanha a trajetória de Robert Grainier, um homem simples, reservado e profundamente ligado ao trabalho manual. No início do século XX, Robert vive de serviços braçais e encontra nos trilhos de trem não apenas um meio de sustento para sua família, mas também uma forma de atravessar o mundo. Seu ofício o leva a regiões remotas, a paisagens grandiosas e a um cotidiano marcado pelo esforço físico, pela repetição e por longos períodos de solidão, em que companheiros de trabalho se tornam seu único contato por meses e, depois disso, nunca mais se encontram.
É nesse ambiente duro e silencioso que ele constrói sua existência. Ao longo do filme, acompanhamos Robert em diferentes momentos de sua vida, observando como ele reage às mudanças ao seu redor e às transformações inevitáveis que o tempo impõe. Enquanto o mundo avança, cidades surgem e novas formas de viver se impõem, ele segue trabalhando, observando, tentando compreender seu lugar nesse cenário em constante movimento.
Dentro dessa perspectiva, o filme nos faz compreender a vida sob o olhar de Robert, um homem comum, alguém que poderia passar despercebido em qualquer outro filme, pois sua trajetória não é a do super homem, a de alguém extraordinário. Na verdade, Robert é tão comum quanto todos nós, e isso marca profundamente o espectador. Todo o filme é construído a partir do cotidiano, do trabalho repetitivo, das pequenas interações e dos silêncios que marcam uma busca de sentido interno para suas experiências. É nesse espaço aparentemente simples que o filme encontra sua profundidade.
Frente a esse cenário, Robert observa cidades surgirem onde antes havia apenas mata; vê tecnologias substituírem métodos antigos; sente o deslocamento entre o que ele conhece e o que passa a existir ao seu redor; vê novas gerações chegando e tomando postos de trabalho onde, antes, ele era o responsável por determinadas funções. Todas essas mudanças não são apresentadas como boas ou ruins de forma explícita, mas sim como uma marcha natural do tempo em que o novo, invariavelmente, chega e assume o lugar do antigo.
É por isso que o filme trata muito mais sobre a percepção que temos do tempo e das mudanças, como elas nos afetam, do que necessariamente a passagem do tempo em si. Além disso, é notável como o longa é maduro o suficiente para entender que toda transformação carrega ganhos e perdas, e que o impacto real delas só pode ser sentido por quem vive no meio desse processo.

Essa escolha narrativa torna o filme profundamente humano, pois nos reconhecemos facilmente no papel de Robert e até mesmo em outros personagens que, dentro da mesma experiência, refletem sobre a vida, a natureza e como as gerações de homens vão sendo substituídas pela marcha do tempo. Essa construção é paulatina, afinal, ninguém percebe o próprio envelhecimento de forma abrupta, mas o reconhecemos aos poucos, nos cansaços que chegam mais cedo, nas lembranças que passam a ocupar mais espaço do que os planos futuros. É com essa sensibilidade que “Sonhos de Trem” constrói uma narrativa que respeita o fluxo natural da vida, com seus avanços e retrocessos, suas perdas e suas alegrias.
A fotografia que merece um Oscar
Além de todas as qualidades do filme, “Sonhos de Trem” tem para os brasileiros um sabor diferente, visto que sua fotografia, que já foi consagrada com alguns prêmios, é realizada por Adolpho Veloso, um gênio dessa arte. O trabalho de Veloso revela um olhar que compreende profundamente o que está sendo contado e, sobretudo, como isso deve ser sentido através dos cenários, do jogo de luzes e dos planos em que o filme se passa. Cada frame parece construído a partir de uma conexão profunda com a história, como se a câmera soubesse exatamente quando se aproximar e quando manter distância, quando observar em silêncio e quando permitir que a luz fale por si.

A relação entre o personagem e a paisagem é um dos pontos mais impressionantes do trabalho de Veloso. As paisagens amplas – muitas vezes dominadas por tons frios, acinzentados ou terrosos – não funcionam apenas como cenário rústico, como uma natureza ainda selvagem a ser desbravada, mas também como extensão emocional da narrativa. Quando o protagonista atravessa campos abertos, montanhas ou regiões cobertas pela neve, a fotografia enfatiza sua pequena escala diante do mundo.
Esse enquadramento, que é recorrente no filme para justamente mostrar a relação de micro e macro, não diminui Robert, apenas reforça sua humanidade diante da natureza. Ele é parte de algo maior, atravessado por forças que não controla, assim como todos nós.
Frente a isso, é notável como a fotografia de “Sonhos de Trem” não busca a beleza pela beleza. Mesmo os planos mais esteticamente impressionantes, que por si só já são belos, há uma sobriedade que impede de apreciar apenas o que está sendo visto. Assim, a beleza surge como consequência da interação entre os personagens e o cenário, não como objetivo principal de ser bonito apenas por ser estético.
A beleza dos diálogos em “Sonhos de Trem”
Do mesmo modo que podemos apreciar a fotografia do filme, são nos diálogos que o longa se sobressai e coloca o espectador para refletir sobre a vida, a mudança, o tempo e o que, afinal, estamos fazendo nesse mundo. Curiosamente, há diálogos que soam quase banais, como uma pequena fala após um dia de trabalho árduo, frases curtas sobre o clima, o trabalho ou o cotidiano, mas que, inseridas no contexto da cena, ganham uma densidade emocional inesperada.
Um exemplo marcante está nas conversas sobre o trabalho e a rotina. Quando os personagens falam dos trilhos, das longas jornadas ou das dificuldades físicas, não estão apenas falando sobre esforço ou sobrevivência, mas também sobre até quando vão poder exercer tais funções, ou se um dia acabarão as florestas do mundo e esse emprego está, afinal, fadado a desaparecer. É interessante que em todo o filme não há diálogos extensos e, em geral, essas são conversas rápidas e até certo ponto objetivas, mostrando não apenas a natureza dos personagens, mas também o quanto não é necessário se alongar para mostrar algo profundo.

Naturalmente, o filme também utiliza o diálogo como forma de revelar diferenças de percepção entre os personagens, mostrando diferentes pontos de vista sobre um mesmo aspecto. Em algumas interações, especialmente com pessoas que representam um mundo mais acelerado ou mais adaptado às mudanças, percebe-se um desencontro entre os mais antigos e os mais novos. Enquanto um personagem fala de futuro, eficiência ou novidade, Robert responde com frases ancoradas no presente imediato, no que pode ser feito agora, no que está ao alcance das mãos.
Ao mesmo tempo, o que torna esses diálogos tão marcantes é a confiança absoluta que o filme deposita neles. Não há reforço de tornar qualquer cena mais profunda do que já é, não há enquadramentos que tentem “ensinar” o espectador sobre o que sentir. O espectador é apenas um observador que, através das lentes da câmera, respeita o tempo da fala e o aceita.
As perdas e a necessidade de seguir a marcha da vida
Sem entrar em spoilers, é possível dizer que o filme aborda perdas de maneira extremamente delicada. Elas não são tratadas como eventos isolados, mas como partes inevitáveis de uma trajetória humana e, como sabemos, isso também faz parte da vida. No momento em que nascemos, estamos à mercê da tirania do tempo, que leva pessoas, projetos, sonhos ou mesmo uma parte de nós à medida que avança. Frente a essa realidade, Robert tem suas perdas, e isso o machuca, mostrando um aspecto profundamente humano em seus dilemas.
Apesar da dor, Robert é o homem comum, que continua a caminhar e seguir pela vida, mesmo tendo uma ferida aberta. Essa postura, longe de parecer fria ou romanceada, revela como o ser humano é capaz de superar seus traumas e tem o superpoder de continuar seguindo em frente. Desse modo, o que “Sonhos de Trem” sugere a quem o assiste é que nem toda dor se resolve ou se supera completamente. Algumas simplesmente passam a fazer parte de quem somos e, maculados por essa marca, nos transformamos.

É importante notar que o filme não oferece respostas fáceis frente a esses dilemas. Robert não é um homem que supera facilmente suas perdas, nem resolve simplesmente seus problemas e traumas. Ele segue em frente, mas sem esquecer das marcas que a vida o deixou. O filme nos coloca em uma posição honesta frente a esses traumas que todos nós enfrentamos: a ideia de que é preciso continuar vivendo, mesmo com cicatrizes.
Dito isso, um dos fios narrativos mais sutis de “Sonhos de Trem” é a relação de Robert com a modernidade. É interessante percebermos que o protagonista é um homem em transição, que cresce em um ambiente rústico, muito mais próximo da vida no campo do que na modernidade e das suas inovações. Porém, mesmo assim, o passar do tempo faz com que o mundo moderno chegue até ele, com todas as suas tecnologias e novidades. Ele não se opõe frontalmente às mudanças, mas também não as abraça com entusiasmo. Como um bom observador, aprende o que é necessário, adapta-se quando precisa.
O público um pouco mais velho, na casa dos 40 a 50 anos, entende bem o que Robert passa. Mesmo não tendo a diferença brutal entre o mundo que Robert vivia para o que ele encontrava quase ao fim de sua jornada, nós também vivemos uma transformação social acelerada nas últimas décadas. O mundo dos anos 1980 já não existe há muito tempo e hoje, com novas tecnologias, nos sentimos quase como uma peça de museu, que ainda precisa se adaptar ao rumo que segue as novas gerações.
Frente a isso, o filme sugere que nem todos vivenciam o progresso da mesma maneira. Para alguns, ele representa ascensão e novidade; para outros, um distanciamento gradual do mundo que conheciam. O protagonista percebe esse deslocamento sem revolta, mas também sem indiferença. Há uma melancolia contida nesse processo, como uma tentativa vã de preservar o que, invariavelmente, é impossível de ter. Mesmo assim, ao mudar seu ângulo de visão, seu ponto de vista, Robert consegue, finalmente, integrar e entender que a vida, em seus ciclos e movimentos, exige de nós essa adaptação.
Essa abordagem reforça a ideia de que somos feitos de camadas, de experiências que se acumulam e se transformam ao longo dos anos. O filme parece sugerir que amadurecer não significa abandonar quem fomos, mas aprender a conviver com essas versões anteriores de nós mesmos e saber que o presente é, inevitavelmente, viver o que está se exigindo naquele contexto, sem se prender a nostalgias ou a um tempo que já não volta mais.
Quando os trilhos terminam, mas o movimento continua
Visto esses aspectos, o filme não se organiza em fechamentos claros, nem oferece respostas definitivas sobre a vida, o tempo ou as escolhas humanas. De fato, o que apreciamos em “Sonhos de Trem” é perceber a vida humana em seu sentido simples e profundo, uma vez que a experiência de Robert, externamente, é distinta e similar a quem viveu tais momentos; porém, do ponto de vista interno, suas angústias, dilemas e reflexões seguem vivas, seja no mundo rústico do campo ou no acelerado movimento das grandes cidades.

“Sonhos de Trem” nos lembra, portanto, que a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos ou decisões espetaculares. Ela se constrói, sobretudo, na repetição dos dias, nos gestos que parecem pequenos, nas mudanças que só percebemos quando já estão consolidadas. É uma grande ode ao cotidiano e a como ele pode ser extraordinário, mesmo com seus problemas. Para um espectador atento, é possível perceber como o filme apresenta a vida humana e seus problemas com leveza e, ao mesmo tempo, com a seriedade de perceber que as respostas que procuramos não estão numa grande aventura, mas nos pequenos detalhes.
A sensibilidade do filme reside justamente na recusa de dramatizar excessivamente a jornada de Robert. Não há heroísmo, nem tragédia desmedida, apesar dos problemas que enfrenta. O que existe é uma atenção cuidadosa àquilo que normalmente passa despercebido.
No fim, “Sonhos de Trem” é um convite raro em tempos de aceleração constante. Um convite para desacelerar, para olhar com mais atenção, para aceitar que nem tudo precisa ser resolvido ou explicado. É um filme que não pede pressa, não exige interpretação imediata, não se esgota no momento em que termina. Ele permanece como permanecem as experiências mais profundas: em fragmentos, em sensações, em pensamentos que retornam quando menos esperamos. E talvez seja exatamente isso que o torne tão especial — a capacidade de nos lembrar, com delicadeza, que viver é seguir adiante, mesmo quando não sabemos exatamente para onde os trilhos nos levam.
Se “Sonhos de Trem” te tocou pela forma como retrata o tempo, as transformações da vida e o valor do cotidiano, vale aprofundar essa reflexão com o texto “Você Tem Tempo Para o Outro?”, convidamos o leitor a repensar sua presença no mundo e na vida das pessoas ao seu redor, um complemento sensível e necessário para quem se emocionou com a jornada silenciosa de Robert.



