Em “De Repente Uma Família”, somos convidados a refletir sobre o papel do núcleo familiar na formação humana e a entender que adoção e vínculos afetivos podem ser tão ou mais profundos que os laços de sangue. É graças a ele que aprendemos a viver em sociedade, tendo como exemplo nossos pais, convivendo com irmãos, primos, tios e outras pessoas que convivem conosco desde essa tenra idade.
Porém, do mesmo modo que é uma das grandes benesses da humanidade, a família é, por vezes, um local de conflitos e dificuldade de relação, pois precisamos lidar com o outro e aprender a conviver desde sempre. Assim, há quem pense que a família só possa existir a partir de laços de sangue e isso, como veremos, é uma opinião equivocada.

O laço biológico é importante, sem dúvidas, mas uma família é muito mais do que traços genéticos. No fundo, é nesse espaço que aprendemos sobre nossos valores, nossos costumes e começamos a socializar de tal modo que nos tornamos reflexos do que aprendemos. Assim, hoje falaremos de um filme que aborda de maneira sensível e bela esse aspecto. Estamos falando de “De repente uma família” (Instant Family, no título original). Essa é uma obra que ultrapassa o rótulo de comédia dramática para se firmar como um retrato sensível, honesto e profundamente humano sobre o que significa formar uma família.
Lançado em 2018 e inspirado em experiências reais de seu diretor, Sean Anders, o longa-metragem aborda a adoção não como um ideal romantizado, mas como um processo complexo, transformador e, acima de tudo, repleto de virtudes que desafiam noções tradicionais sobre laços de sangue, pertencimento e amor. Nesse sentido, o filme amplia nossa percepção sobre a própria ideia de família e nos mostra como esses laços podem ser tão profundos e reveladores que nos fazem crescer como ser humano.
Desde os primeiros minutos, o filme convida o espectador a repensar conceitos enraizados na sociedade. A ideia de que família é apenas aquela formada biologicamente é confrontada por uma narrativa que demonstra, com sensibilidade e humor, que vínculos afetivos são construídos no cotidiano, nas escolhas difíceis, nos erros e nos recomeços. “De repente uma família” não apresenta respostas fáceis, mas oferece algo talvez ainda mais valioso: inspiração e reflexão.
Ampliando os horizontes sobre o que é uma família
Durante muito tempo, o imaginário coletivo associou a família a um modelo específico: pai, mãe e filhos biológicos, unidos por laços sanguíneos e por uma convivência que supostamente nasce pronta. Nesse sentido, a família seria algo quase sagrado e intocável, colocando o sangue acima de qualquer outro tipo de relação. Não por acaso, muitas vezes já escutamos frases como “a família é tudo” ou “não há nada mais importante do que a família”. Essa visão mostra o valor das relações familiares, porém, queremos ampliar essa perspectiva para pensarmos o que é, de fato, uma família.
Dentro da perspectiva tradicional, como vimos, a família só poderia existir com base na formação de um casal de homem e mulher e filhos biológicos. Entretanto, nesse modelo, o que ocorre com uma pessoa que não pode ter filhos? Ela não deveria constituir uma família? O fato de não gerar filhos o torna dispensável a essa experiência?

É evidente que não. Por isso a adoção, ou seja, criar os filhos de outra pessoa como seu, é um processo legal e que existe desde a antiguidade, pois já se entendia que a família vai muito além do que a biologia. Nos dias atuais, isso também existe, naturalmente; porém, há ainda uma resistência acerca desse processo e, infelizmente, há quem pense que uma família adotiva está abaixo de uma família de sangue.
Esse é apenas um dos estigmas que cercam a adoção. Um outro estigma é o de adotar crianças mais velhas, pois estas, segundo a percepção do senso comum, já passaram por traumas e experiências que tornam sua criação mais difícil. Assim, a grande preferência nas filas de adoção são por crianças recém-nascidas ou de até 2 anos de idade, momento em que a criança não lembra absolutamente nada do que foi vivido. O filme, porém, questiona essa visão ao apresentar Pete e Ellie Wagner, um casal comum, sem grandes certezas sobre o futuro, que decide adotar crianças mais velhas após perceber que o desejo de formar uma família não precisa seguir um roteiro tradicional.
Essa desconstrução do pensamento comum sobre o tema é um dos pontos mais poderosos da narrativa. O filme não parte da adoção como um gesto heroico ou altruísta no sentido superficial, mas como uma decisão humana, cheia de dúvidas, medos e expectativas contraditórias. Ao fazer isso, aproxima o espectador da realidade de milhares de famílias que se constroem fora do padrão idealizado, mostrando que não existe um único caminho legítimo para o amor. Além disso, é importante entender o processo de adoção como algo humano, que parte do desejo do casal de constituir uma família e não de ser “reconhecido” como uma pessoa que está fazendo um “favor” à criança adotada.

Visto isso, um dos méritos mais relevantes de “De repente uma família” é evitar a armadilha narrativa de retratar a adoção como um simples ato de “salvar” crianças. Em vez disso, o filme apresenta a adoção como um encontro entre pessoas que carregam histórias, feridas e esperanças, tanto por parte dos pais como também por parte das crianças. E assim, juntos, buscam construir um ambiente seguro e capaz de curarem seus traumas através do amor e da convivência. Isso é, em síntese, o que uma família deveria ser. Portanto, Pete e Ellie não são salvadores, assim como as crianças não são apenas vítimas. Todos são sujeitos em transformação.
Frente a essa perspectiva, Lizzy, Juan e Lita, os três irmãos adotados pelo casal, não chegam como páginas em branco. Eles trazem consigo traumas, mecanismos de defesa e uma desconfiança compreensível em relação ao mundo adulto. O filme mostra, com honestidade, que o amor não apaga essas marcas de imediato, pois achar que isso ocorre é cair em uma grande fantasia. Pelo contrário, amar essas crianças exige paciência, escuta e a disposição de enfrentar conflitos que não se resolvem com gestos grandiosos, mas com presença constante. Essa é, sem dúvida, a grande virtude do filme, pois nos mostra como o amor e a família nascem de uma decisão, e não de um momento único e arrebatador.
Dito isso, um dos aspectos mais comoventes da narrativa é a construção gradual do vínculo entre os pais adotivos e os filhos. Lizzy, a adolescente mais velha, representa com intensidade o medo de confiar novamente. Mas sua resistência não é retratada como rebeldia, e sim como um mecanismo de autoproteção. Desse modo, o filme convida o espectador a compreender que, para muitas crianças adotadas, o amor é algo que precisa ser testado antes de ser aceito, pois, em muitos casos, nunca foi sequer vivido ou sentido, porque, como tudo que é novo, ele nos dá medo de experimentar e viver.
Essa dinâmica revela uma virtude essencial no processo de adoção: a capacidade de amar sem garantias. Pete e Ellie aprendem que ser família não significa receber gratidão imediata, mas oferecer cuidado mesmo quando ele é rejeitado. Essa é uma lição poderosa não apenas sobre adoção, mas sobre qualquer relação humana profunda. O amor, como podemos entender, não está no ato de receber, mas de ser capaz de se doar ao outro sem esperar nada em troca.

Junto a isso, nasce outra grande virtude: a humildade. Pete e Ellie começam a jornada acreditando que estão preparados para serem pais; porém, à medida que o filme se desenvolve, é perceptível que ainda precisam descobrir como realmente é a paternidade/maternidade. Essa abertura para o aprendizado é essencial na construção de qualquer família, mas se torna ainda mais evidente no contexto da adoção, onde não existem manuais capazes de prever todas as situações.
Pensar que já sabe todas as respostas e que não precisará se adaptar a essa nova realidade é um erro comum dos pais, pois pensam que irão moldar seus filhos, quando, no fundo, também vão precisar de ajustes durante esse processo. Essa é a verdadeira dinâmica familiar.
Ao longo do filme, portanto, fica evidente que família não é um estado fixo, mas um processo contínuo. O pertencimento não surge no momento da assinatura de documentos ou na mudança para uma nova casa. Ele é construído nos pequenos rituais do cotidiano, nas refeições compartilhadas, nas discussões, nas reconciliações e nos silêncios guardados dentro de cada um.
A adoção como ato de coragem, não de caridade
Agora que já conhecemos um pouco do filme e refletimos sobre a família, se faz fundamental pensar sobre o que é a adoção. Para o senso comum, infelizmente, ainda hoje o ato de adotar é visto como um tipo de caridade, algo que em sua gênese carrega um peso gigante, tanto para os pais quanto para as crianças. De um lado, existe o estigma de não ser um filho de sangue e de que todos os erros que venham a ser cometidos recaiam sobre essa pecha. Do outro, há o “glamour” de ser visto como uma pessoa “boa”, que “tirou” crianças de um orfanato para levá-las para sua casa.

Primeiramente devemos dizer que ambas as visões estão equivocadas e não devemos repeti-las. Cometer erros é algo humano, natural em qualquer processo de aprendizagem, principalmente no que tange a sociedade; logo, o fato de errar não pode ser associado à questão biológica. Esse tipo de pensamento apenas afasta os seres humanos e não contribui para a construção de um elo profundo entre pais, filhos e irmãos.
Do mesmo modo, não devemos romantizar a adoção por parte dos pais, pois, via de regra, estes têm o desejo de constituírem uma família e, na grande maioria dos casos, esses casais não podem tê-la e, por isso, recorrem à adoção. Em síntese, não há caridade no que fazem, mas sim o desejo de construção de um lar, um desejo que é do próprio casal; logo, a adoção não nasce de uma ação altruísta, mas, em geral, de um desejo individual.
Adotar, nesse aspecto, é muito mais um ato de coragem, de agir de acordo com o seu coração, com os seus valores, do que um ato de caridade. E a palavra “coragem” certamente é a mais adequada, visto que os pais enfrentam, ao longo desse processo, uma série de preconceitos vindos de amigos e outras pessoas em seu círculo social.

O filme deixa bem claro essa percepção, uma vez que pais e filhos precisam de coragem para abrir espaço emocional, para lidar com o imprevisível e para amar sem garantias. Essa mudança de perspectiva é fundamental para combater estigmas ainda presentes na sociedade. Ao adotar, Pete e Ellie não estão “fazendo um favor”, mas assumindo um compromisso profundo. Diferente de narrativas que tratam o amor como algo espontâneo e inevitável, em “De repente uma família” se enfatiza o amor consciente, aquele que deve ser construído a partir de suas escolhas e não do que pretende receber. Amar, no contexto do filme, é uma escolha que precisa ser reafirmada diariamente.
Nesse aspecto, o filme mostra que o amor consciente envolve responsabilidade, autocontrole e disposição para aprender. Ele não se baseia apenas em sentimentos, mas também em ações concretas que constroem segurança e pertencimento. Essa abordagem contribui para uma compreensão mais madura do afeto, afastando idealizações que podem ser prejudiciais tanto para adultos quanto para crianças.
O impacto emocional da adoção nas crianças e adultos
Naturalmente, constituir uma família é um grande passo na vida de qualquer ser humano. Seja na posição de pais ou filhos, todos nós já vivenciamos a dinâmica familiar e sabemos que grande parte do nosso mundo emocional tem como base essas relações. Assim, um dos grandes acertos de “De repente uma família” está na forma como o filme dá espaço à subjetividade das crianças adotadas e também à dos pais.
Quanto às primeiras, a narrativa não as trata como figuras secundárias que apenas orbitam em torno do arco emocional dos adultos. Pelo contrário, Lizzy, Juan e Lita são personagens complexos, com reações, desejos e conflitos próprios, o que reforça a ideia de que a adoção não é um processo unilateral, mas uma experiência que transforma todos os envolvidos. Já os desafios e adaptações que Pete e Ellie precisam realizar também demonstram o quão maduros emocionalmente precisam ser para construir um ambiente confortável em que as crianças possam se expressar.

É compreensível que dentro do contexto das crianças, em que muitas vezes passaram por lares temporários, negligência ou abandono, a noção de estabilidade é frequentemente frágil, e por isso é fundamental que Pete e Ellie saibam lidar com suas crises e manter o ambiente mais seguro possível. O filme consegue retratar com sensibilidade esse medo constante da perda, que se manifesta em atitudes desafiadoras, distanciamento emocional ou comportamentos regressivos. Esses sinais, longe de indicarem falta de afeto, revelam justamente o receio de se apegar e sofrer novamente. Ao mostrar isso, a obra ajuda o espectador a compreender que o amor, para essas crianças, não é algo simples ou automático, mas uma construção que exige tempo e segurança.
Seguindo essa mesma lógica, se as crianças carregam marcas do passado, Pete e Ellie também passam por um intenso processo de amadurecimento. No início, o casal encara a adoção com uma mistura de entusiasmo e ingenuidade, algo comum para pais de primeira viagem que não sabem o que enfrentarão. Há uma expectativa implícita de que o amor e a boa intenção serão suficientes para lidar com qualquer desafio. No entanto, a convivência diária revela limites emocionais, inseguranças e frustrações que antes estavam ocultos.
Esse percurso de amadurecimento é fundamental para a mensagem do filme, pois ninguém nasce pronto para ser pai ou mãe. Na verdade, ser pai ou mãe, especialmente no contexto da adoção, não significa ter todas as respostas, mas sim estar disposto a aprender constantemente. Pete e Ellie aprendem a ouvir mais, a controlar expectativas e, sobretudo, a compreender que o papel parental não é exercer controle absoluto, mas oferecer presença e consistência. Essa transformação os aproxima ainda mais das crianças, criando uma relação baseada na autenticidade e não na idealização.
Quando a família nasce da escolha e do afeto
Visto tudo isso, “De repente uma família” se mostra como muito mais do que um filme sobre adoção. No fundo, o filme nos faz pensar sobre como uma família se constrói e como os laços humanos, muitas vezes marcados por uma série de traumas, podem ser revitalizados quando realmente queremos amar o próximo. Assim, o filme mostra de maneira sensível essa capacidade humana de amar uns aos outros e que, nesse aspecto, pouco importa se somos biologicamente ligados ou não. A obra convida o espectador a abandonar definições rígidas de família e a enxergá-la como um espaço vivo, em constante construção, moldado pelas escolhas diárias de cuidado, responsabilidade e amor.
O filme demonstra, com honestidade rara, que a família não nasce pronta no momento em que pessoas passam a dividir o mesmo teto, pois acreditar nisso é uma ilusão, seja em qualquer tipo de dinâmica familiar. Ela se forma aos poucos, no enfrentamento das dificuldades, na convivência imperfeita e na disposição de permanecer mesmo quando o caminho se mostra árduo. Essa visão rompe com a ideia romantizada de que os laços de sangue são suficientes para garantir afeto, estabilidade e pertencimento. Ao contrário, a narrativa evidencia que o que realmente sustenta uma família é a prática cotidiana do amor, da escuta e da empatia.

A adoção, nesse contexto, surge como uma poderosa expressão dessas virtudes. Não como um ato de caridade ou sacrifício, mas como um compromisso consciente e corajoso de, por sua própria decisão, amar alguém que, num primeiro momento, não está sob sua responsabilidade. Além disso, ao mostrar crianças que aprendem, lentamente, a confiar, e adultos que aprendem a amar de forma mais madura, a obra revela a adoção como um caminho de transformação mútua, no qual todos crescem.
Por fim, o filme deixa uma reflexão profunda e extremamente necessária para o mundo em que vivemos: família é muito mais do que herança genética. Ela é construída, acima de tudo, na decisão de estar presente, no compromisso estabelecido uns com os outros e na escolha diária de cuidar de outros seres humanos. Não por acaso, falamos que amigos são “a família que escolhemos ter”, pois nos comprometemos a amá-los e ajudá-los.
Fica claro que “De repente uma família” inspira o espectador justamente por mostrar que o amor pode surgir de maneiras inesperadas; que os vínculos mais fortes são aqueles cultivados com tempo, paciência e afeto genuíno; e que tudo isso, quando bem alimentado, só se fortalece à medida que o tempo passa e alcança a dimensão de atemporal, uma vez que o que realmente foi construído carregamos para sempre em nossa alma.
Além das reflexões profundas que o filme “De Repente Uma Família” traz sobre o amor e a construção familiar, é fundamental lembrar que pais também precisam cuidar de si mesmos. O texto Autocuidado dos pais: como reduzir a pressão oferece insights valiosos sobre como manter o equilíbrio emocional durante os desafios da parentalidade, especialmente em contextos exigentes como o da adoção. Afinal, cuidar de si é uma forma de cuidar melhor dos outros.



